quarta-feira, 17 de abril de 2024

O Chamado 4: Samara Ressurge

O Chamado 4: Samara Ressurge (Sadako DX), 2022. De Hisashi Kimura

Durante muitos anos, nenhum filme remetia-me tanto ao medo como O Chamado (The Ring, 2002). A ambientação (da floresta, do poço e do farol) e as regras da maldição da garotinha de cabelo escorrido vingativa eram um exemplo perfeito do medo privado. Quero dizer, os terrores que você passa solitariamente, justamente ao contrário dos filmes zumbis nos quais os terrores são coletivos. Inclusive tenho um texto comparando Madrugada dos Mortos com O chamado.

Eu assisti algumas das versões japonesas, a franquia é numerosa, porém, sempre achei a americana mais consistente. E eis que nos chega esse intempestivo O chamado 4: Samara ressurge que não tem nenhuma relação com a sequência norte-americana (daí esse título ser muito apelativo).

O filme é até divertido, mas se você suprimir a expressão patacoada do seu vocabulário. A ideia original da versão japonesa continua: quem assiste a película amaldiçoada, amaldiçoado será. A fita VHS é o vetor de um vírus intrapsíquico. O vírus/maldição se tornou mais letal porque se dispersa em uma velocidade maior (pós-modernidade!). Os elementos básicos continuam, porém em um clima de terrir. Os personagens principais são estudantes com comportamentos estereotipados, um roteiro bem irregular com clima de Todo mundo em pânico.

Ayaka Ichijo é uma secundarista com QI 200 (sei, vai vendo) que precisa derrotar a maldição recaída sobre a irmã, para tal  propósito conta com a ajuda do inútil Oji Maeda, um aprendiz de paranormal que aprecia pagar de galã no jeitinho sul-coreano de ser. Ayaka o gênio passa toda a projeção a se contradizer, correndo de um lado para o outro e usando as redes sociais do celular para buscar uma pista.

A pobre Samara (na verdade, Sadako) encontra-se tão despersonalizada que muda de rosto a todo instante, uma de suas estratégias para confundir as vítimas (nesta versão ela não sai da televisão). Sua manifestação lembra a criatura de Corrente do mal (It follows, 2014), mas neste último caso temos um monstro que quanto mais se aproximava mais amedrontador ficava. Nesta versão Sadako está mais para timer do que para um fantasma incompreendido e raivoso.

Com um desfecho pastelão, “O chamado 4” é um ótimo ensejo para refletirmos que alguns dos medos do passado precisam ficar por lá, caso contrário você se dará conta que as noites de sono mal dormidas foram causadas por um canastrão com peruca espalhafatosa.

Cotação☕☕

domingo, 14 de abril de 2024

Elegia da briga


Nouvelle Vague 🎬🎬

Elegia da briga (Kenka erejii), 1966. De Seijun Suzuki

Bem ao espírito dos anos 60 e 70, a Noberu Bagu (apropriação da Nouvelle Vague francesa) abordou temas importantes da conjuntura transnacional de contestação ao status quo. A década de 1960 foi o auge das revoltas estudantis e influenciou o cinema com uma forte nota provocativa. Os próprios circuitos comerciais, embora utilizados, eram colocados em suspeição.

A principal referência da Noberu Bagu é o diretor Nagisa Oshima, mas Seijun Suzuki teve um papel importante nesse movimento com sua abordagem desafiadora e suas críticas ao autoritarismo. Esse é o caso do Elegia da briga que acompanha a paixão de um estudante estudante por uma católica. Para a contenção de seus impulsos sexuais, entendida naquele contexto como fraqueza, passa a fazer parte de uma gangue. Suas brigas se tornam frequentes e violentas, possibilitando a supressão da paixão e do desejo.

Ele prefere isso:
...a isso:

O contexto é a década de 1930 com a ascensão de um militarismo fascista no Japão. Os rapazes, com traços misóginos, passam a deplorar o convívio com as moças, mas a repressão sexual revela-se a fonte de muitos transtornos. Kiroku, o personagem principal, não consegue esquecer sua amada Michiko, mas mostra-se incapaz de fugir à solidariedade grupal.

As situações são cômicas, mas seus desfechos dramáticos. Este aspecto, assim como a mudança abrupta de capítulos, traz uma certa irregularidade ao filme, porém, tudo no espírito da Noberu bagu.

Cotação: ☕☕☕☕

domingo, 7 de abril de 2024

O garoto Toshio

Nouvelle Vague 🎬🎬

O garoto Toshio (Shōnen), 1969. De Nagisa Oshima.

Importante referência da Nouvelle Vague japonesa, o filme de Oshima contrapõe a abordagem documental (pois se trata de um caso real) com um claustrofóbico drama familiar. Um ex-soldado (ferido na Segunda Guerra Mundial) coloca sua esposa e seu filho para aplicar golpes de falsos atropelamentos a fim de extorquir os motoristas.

Oscilando entdre resignação e desolação, a narrativa se desdobra na perspectiva do “garoto” – termo pelo qual é des(identificado) pela sua família. A relação com pai e madrasta são distantes, embora esta última lhe demonstre um afeto real. Toshio expressa uma preocupação com o irmão caçula em sua imaginação escapista sobre criaturas espaciais capazes de destruir os maus e preservar os bons.

Este é o grande problema do garoto, a percepção de que desempenha uma função dúbia na pantomima do pai; seu senso apurado do certo e errado manifesta-se na relutância em desempenhar parte na artimanha. A noção de falha moral atravessa toda a família, pois nenhum deles está alheio à compreensão da baixeza na qual se encontram. O menino expressa o maior sofrimento em sua condição de criança solitária distante da escola e dos amigos, logo no início da projeção o vemos brincar com demônios imaginários.

Os personagens percorrem o Japão, do sul ao norte, executando os golpes e fugindo das autoridades. Um road movie existencialista que transforma o escape em alegoria dos problemas da sociedade japonesa. O país nipônico também teve sua cota de conflitos juvenis na década de 1960, incluindo protestos antiguerra. A própria retomada do desenvolvimento econômico deu-se com a angústia da derrota na Guerra e à sombra das bombas nucleares. Nesse contexto, o clima de derrotismo diz muito sobre os impasses vivenciados. Derrotismo bem manifesto na recusa do pai em procurar emprego por estar preso à lembrança do ferimento de guerra.

Melancólico e pessimista, Shōnen é uma porta de entrada para compreender a fascinante onda de renovação no cinema japonês.

Cotação: ☕☕☕☕

sábado, 16 de março de 2024

O Carteiro nas Montanhas


Crítica a jato ✈

O Carteiro nas Montanhas
(Nàshān nàrén nàgǒu), 1999. De Huo Jianqi.

Pai, filho e um cachorro caminham pelas montanhas para fazer a entrega de cartas. Mestre e aprendiz. Cada um se depara com seu horizonte, a aposentadoria forçada e a futura vida de longas jornadas por vales e montanhas. O percurso do carteiro inclui vários dias na estrada e dezenas de quilômetros percorridos em uma região íngreme e úmida.

A Belíssima paisagem com cenários rurais, campos de arroz e antigas vilas é Hunan, a região onde nasceu Mao Zedong, o grande líder da Revolução Chinesa. Essa ambiência é a chave para um minimalismo em que o silêncio compõe o intervalo entre os diálogos e os momentos de descanso. Há muitas sutilezas que se desvelam ao longo da caminhada como o estigma sobre os montanheses, a lenta chegada da tecnologia e o confronto entre as gerações. Também há a noção de piedade filial e a deferência para com os anciões.

O respeito familiar entre os protagonistas constitui o eixo da história. A proposta é tomar a relação entre pai e filho como parte de um modo de vida em processo de apagamento pelo mundo urbano-industrial. O caminhão que passa ao longe e o rádio levado a tiracolo pelo jovem carteiro anunciam o ruído inevitável do progresso.

Trata-se de um filme viagem no qual os pequenos acontecimentos vão tecendo um plano maior, memórias e projeções de pai e filho se entrelaçam. As discordâncias são pontuais e não ameaçam a continuidade entre os caminhos do velho e do jovem funcionário público.

Esse panorama geral remete ao filme de Kelly Reichardt chamado Old Joy (2006), aqui também temos dois homens e um cachorro que percorrem uma área erma e arborizada em uma interação silenciosa e reflexiva. O elo, no entanto, não é tão contínuo, pois o estranhamento dos amigos explica-se no distanciamento ocorrido entre eles ao longo dos anos. Em O Carteiro nas Montanhas o esforço é maior pelo fato de os viandantes desfrutarem de uma incômoda intimidade.

As viagens do pai transformaram-no em um imponente desconhecido em sua própria casa, seu grande companheiro foi o cachorro Laoer. No momento em que o carteiro retirado do trabalho por questões de saúde se estabelece em casa o jovem (por um ato de vontade própria) começa a sua caminhada. Laoer não parece disposto a acompanhar o rapaz, por isso o pai se apronta para a última viagem em um rito de passagem.

É a própria continuidade que impõe o conflito a ser desbaratado. O olhar paternal denuncia a conhecimento das dificuldades, já os murmúrios do novato revelam uma envergonhada recriminação quanto a algumas das escolhas paternas.

A vida camponesa – em sua plena idealização – encontra-se ameaçada, mas no alto das montanhas ela consegue se renovar a partir de uma temporalidade que é a da própria vida. Enfim, sugere-se na continuidade e na tradição as benesses e o antídoto contra o modo de fazer errático do mundo lá fora.

Cotação: ☕☕☕☕

quinta-feira, 14 de março de 2024

O Vale do Gwangi


O Vale do Gwangi
(The Valley of Gwangi), 1969. De Jim O'Connolly

Antes que o Parque dos Dinossauros (Spielberg, 1993) catapultasse o gênero em começos dos anos 90 a temática dos mega-monstros já estava sedimentada na tradição cinematográfica. Em Gwangi temos uma aventura clássica na qual não há propriamente vilões, embora os conflitos e as rivalidades existam.

Os diálogos, os enquadramentos e o desenvolvimento da narrativa seguem de forma esquemática com uma introdução sólida para apresentar as características dos principais personagens. O grande eixo será o embate entre rancheiros e dinossauros com o ponto alto no momento em que os cowboys conseguem laçar um Alossauro (assemelha-se a um Tiranossauro).

Tudo isso porque na passagem dos séculos XIX para o XX artistas hípicos texanos estão percorrendo a fronteira com o México, lá eles descobrem o caminho para um antigo vale no qual os dinossauros continuam existindo. Decidem aumentar o prestígio do circo exibindo uma dessas criaturas apesar da resistência dos supersticiosos ciganos mexicanos que temem a maldição do Gwangi, o mais temido de todos os jurássicos.

Embora o filme seja bem inofensivo, os brancos são sempre apresentados como indivíduos em contraposição aos nativos, ciganos e mexicanos, apontados como religiosos, supersticiosos. A representação, no entanto, não é de toda negativa cabendo ao órfão Lope a condição de ajudante dos intrépidos exploradores.

Estereótipos à parte, há um tipo de fábula acerca da ganância do show-businesses norte-americano que alimenta a narrativa. O núcleo principal comporta o aventureiro Tuck (James Franciscus) e a amazona  T.J. (Gila Golan): um casal de namorados que não consegue acertar o interesse amoroso com a vontade de fazer fortuna. A ideia de capturar o monstro, elaborada meio ao acaso pelos artistas, e levá-lo à civilização é manjadona, porém fadada ao fracasso (vide King Kong).

Ao contrário do que poderia se esperar, a construção dos dinossauros foi bem executada graças às técnicas de stop motion – o que se tinha de mais moderno na época. Embora os efeitos especiais sejam limitados para os nossos padrões, a história segue a mesma toada da atual franquia Jurassic World. Aliás, temos até um professor com pouco traquejo social disposto a se arriscar para provar a existência das criaturas.

A conclusão  é crua, isto é, sem maiores desdobramentos, bem em conformidade com os padrões da época. Não apresenta nada de extraordinário, mas possui uma história bem organizada e tem belíssimas locações – gravado em Cuenca, Espanha, com cenas de desertos, cânions, catedrais e estádios de touradas. Enfim, o filme atesta que os monstrões há muito exercem o fascínio sobre nós.

E onde tem interesse sempre haverá um capitalista para mercantilizar. Everything is money, alright?

Como será que se diz isso em espanhol?

Cotação: ☕☕☕


domingo, 3 de março de 2024

Os palhaços



✈ Crítica a jato

Os palhaços (I clown), 1970. De Frederico Fellini

O filme começa como a rememoração de Fellini sobre as sensações que o circo e, sobretudo, os palhaços lhe causavam na infância. Uma criança acorda com o barulho da armação da tenda, durante o dia ela vislumbra o espetáculo, assustando-se, no entanto, com os palhaços.

Olhar dentro da tenda é o convite para o mundo circense, o lugar ao qual ele pretende retornar. O filme mescla entrevistas com interpretações de atores e aos poucos é Fellini que vai se tornando o mestre do espetáculo. O fracasso dos atos cotidianos – a essência do palhaço – está distribuída ao longo da narrativa, com piadas e gags sutis. Destaque para a incompetente secretária de Fellini que está ali para se fazer de Auguste.

Cada conversa com um palhaço aposentado possibilita a documentação dos repertórios da palhaçaria. Questão perseguida no filme: porque o circo está em declínio? Mais precisamente, porque os clowns não mais arrancam as gargalhadas da plateia?

Logo no começo da projeção, Fellini parece identificar a substituição do popular pelo popularesco a partir da influência homogeneizadora da cultura de massa. A equipe do cineasta percorre uma Europa outrora vista como centro cultural. As ruas e as casas da Itália e da França entregam um cotidiano bem característico sem a opulência dessa Europa atual que se diz “pós-capitalista”.

A dificuldade do humor circense estaria em estreita conexão com os desafios da perda do sentido de comunidade e isso dificultaria a compreensão do público quanto ao aspecto caricato dos palhaços que trariam à tona as personagens típicas da vida provinciana. Hipótese levantada e facilmente desmentida pela etnografia construída. Palhaços são colocados em frente às câmeras, como entrevistados ou como artistas, para mostrar a vitalidade dessa arte.

O ato final é justamente o momento do enterro de Auguste (o arquétipo do palhaço brincalhão) quando o pretenso dramalhão é perfurado por um número bem orquestrado com o próprio diretor entrando no jogo. Completa-se assim a sugestão do começo do filme, a criança interessada e assustada que foge da tenda retorna como ator-diretor.

Ao se tornar um agente do riso, Frederico Fellini encontra a resposta para sua pergunta ao ressaltar que a melancolia e a poesia compõem a mitologia acerca dos palhaços como uma lembrança de que o erro e o fim são instâncias profundamente humanas.

Cotação: ☕☕☕☕

domingo, 25 de fevereiro de 2024

O homem que ri


✈ Crítica a jato

O Homem que Ri (The Man Who Laughs), 1928. De Paul Leni

As pessoas ficariam surpresas se parassem para assistir filmes do período do cinema silencioso, a linguagem cinematográfica é bem potente para transmitir as mensagens por meio das imagens dessincronizados do som.

Um excelente exemplo é o filme O Homem que ri de 1928, uma adaptação melodramática do romance de Victor Hugo. O início do filme expressa potência com o cenário claustrofóbico e com a apresentação de personagens marginais, introduzindo, inclusive, temas macabros, tais como os ciganos comprachicos. A história, no entanto, é um romance cujo arco geral centra-se na redenção por meio do amor incondicional. Os temas do terror são tangentes e talvez até não intencionais.

A trama se passa no final do século XVII e o personagem principal, o palhaço Gwynplaine (interpretado por Conrad Veidt), foi deformado com um sorriso abjeto a mando do rei James II quando ainda era criança - vingança do monarca contra o filho de um nobre revoltoso. Consta, inclusive, que o vilão Coringa do Batman foi inspirado nessa figura. A imagem trágica de Gwyn, no entanto, não traz o germe da loucura, a autopercepção da não aceitação traduz-se simplesmente na busca da dignidade diante da monstruosidade.

Adotado por um circo itinerante, o artista Gwyplanine ao lado de sua amada Dea (uma moça cega que ele salvara na infância) se torna uma atração nas feiras populares, conhecido como “o homem que ri”. Porém, as origens nobres do palhaço, quando descobertas, envolvem-no em uma trama palaciana da rainha Ana, incluindo as heranças, os casamentos arranjados e os raptos de donzelas por malvadões de capa...

A construção do cenário, com muita influência do expressionismo alemão, o desempenho de Veidt (sustentando uma carranca impressionante) e a trama rocambolesca de inspiração romântica registram a fase final do cinema silencioso. Inclusive a sonoplastia já avançava para a introdução do som sincronizado com falas na tessitura fílmica.

Destaque para a capacidade didática do roteiro em explicar longos desdobramentos sem o excesso de intertítulos, isto é, as placas informativas e os diálogos em texto. Quer dizer, temos um filme maduro capaz de organizar uma história banal dentro de uma ambiência sombria, prenúncio da era dos filmes de terror da Universal.

O homem que ri tem ainda hoje elementos capazes de entreter uma plateia adulta, com exceção daqueles que apreciam vídeos de trinta segundos de uma plataforma bastante popular entre os jovens.

Mas aí já não é meu departamento.

Cotação: ☕☕☕

sábado, 17 de fevereiro de 2024

Denominador comum: angústias circenses


Luzes da Ribalta (Limelight), 1952. De Charles Chaplin

Noites de circo (Sawdust and Tinsel), 1953. De Ingmar Bergman

Denominador comum: angústias circenses

No cinema, sem dúvida, é um tropo constantemente revisitado as dores e as desventuras dos artistas circenses que na responsabilidade de entreter a plateia se veem obrigados a secundarizar suas próprias angústias. Temos aqui duas grandes clivagens do tema, o enquadramento clássico de Charles Chaplin (direção e atuação) sob o envelhecimento do palhaço e a expressionista história de Bergman (direção) sobre os conflitos entre o diretor de um circo e sua esposa.

Assistir esses dois filmes na sequência é um experimento de história do cinema na medida em que vemos temáticas parecidas adotadas em distintos planos e perspectivas. Cada um desses filmes revela decisões profundamente autorais, de um lado um Chaplin já consagrado e no final da carreira faz uma reflexão sobre a necessidade de renovação do humor. Do outro lado, um iniciante Bergman avança sobre os conflitos existenciais tais como a solidão e a tristeza dos seres humanos.

Em que pese o esquema do cinema de estúdio hollywoodiano com soluções características da comédia dramática, Luzes da Ribalta tem muita força. Tremendamente autorreflexivo, inclusive com a participação do ator Buster Keaton, o maior rival de Charles Chaplin. Ao contracenar juntos, eles colocam uma pedra de cal no cinema mudo, isso porque em Luzes da Ribalta há filmes dentro de um filme. Mas os diálogos – tão pouco naturais – explicitam as marcas do gênero.

Em Noites de circo a câmera aprofunda o âmago do mundo circense. Arte e pobreza se entrelaçam ao mostrar uma situação de constante precariedade. A moralidade questionável dos artistas circenses guarda a ambivalência entre libertar e aprisionar. O claro e o escuro se contrastam o tempo todo, a hierarquia entre o teatro e o circo compõe um cruel dueto. O desamparo de todos é visível porque o circo tende à marginalidade. O eixo é a impossibilidade de fugir da humilhação pessoal e social.

Eis a grande diferença entre os dois filmes. Chaplin entrevê o fim com dignidade, ainda que aspectos da decadência e do passadismo sejam inevitáveis, ao passo que para Bergman não há escapatória do ciclo de humilhação. O horizonte do estrelato como atribuidor de sentidos inexiste em Noites de circo – luta-se, ali, contra a fome e a pobreza. A fome também é mencionada em Luzes da Ribalta, porém de forma ligeira. Agora no trabalho de Bergman ela é uma parceira constante dos trabalhadores.

Longe de ser um produto de perfumaria, Luzes da Ribalta combina contundência e sutileza em sua denúncia da pobreza urbana. Mas não se assemelha ao destruidor arco de Noites circenses, porque ali temos artistas tristes e famélicos. Ao fim e ao cabo ambas as películas convergem para a ideia de que o show precisa continuar – não importam quais sejam os obstáculos.

Cavalero, o palhaço de Chalpin (interpretado por ele próprio) e Frost, o palhaço de Bergman são notoriamente diferentes: um é o Trump (tipo de palhaço americano) e o outro é Branco e Triste. Cada um, a seu modo, oferece contributos para abordarmos o quão importante foi a mítica circense na maturação do cinema.

Talvez seja o caso para recuperar as fontes teatrais populares para uma contraposição ao infantilismo então prevalecente que tem inviabilizado o uso do cinema como um momento reflexivo.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

O mal que nos habita


Critica a jato 


O mal que nos habita (Cuando acecha la maldad), 2023. De Demián Rugna.

Argentinos criaram uma própria versão de apocalipse zumbi ao tematizar acerca de um mal: os infectados ou infestados que se espalham de um lugar a outro.  As entidades são expressões da corrupção causada pelo demônio nas pessoas e nos animais. Um tipo de mal que se prende tanto nos lugares e nas coisas quanto nos seres vivos.

A narrativa inicia-se justamente com a identificação de um infectado em uma zona rural. Afastados da civilização, os moradores locais precisam lidar com o diabo em meio ao receio e à apatia das autoridades locais (altamente incompetentes pelo visto). No entanto, a medida em que a narrativa acelera a ritmo, o cenário se torna urbano com o senso de isolamento perdendo a importância, inclusive o deslocamento da cidade para o vilarejo parece se tornar mais frequente.

A fim de criar uma atmosfera de total impotência, muitos artefatos e aliados do nefasto vão aparecendo ao longo da projeção e, desse modo, o mal que espreita parece inevitável. Assim, animais, doentes, mortos e crianças tornam-se emissários do maligno, inexistindo adversários dignos ou capazes de enfrentar tal desafio. Acentua-se, assim, uma outra noção que é a do desespero, pois o mundo sem Deus não é necessariamente um mundo sem o diabo. A estética contida e a narrativa sóbria privilegiam o psicológico em detrimento do asco. Terror com toques de drama familiar: diante do adoecimento das relações afetivas, a solidão, a raiva, o abandono e, enfim, o enlouquecimento são a oportunidade aguardada para a materialização da maldade.

Não obstante um visual de terror requintado cuja âncora se dá na tragédia familiar – um psicologismo comum desses dias – há forte verve Trash na narrativa – não pela estética, mas pela facilidade com que desafios vão sendo acrescentados sem uma preocupação de amarrar muito bem a cosmogonia do universo apresentado. Um filme confuso e desequilibrado, mas capaz de, até certo ponto, assustar os desavisados com a lembrança de que se Deus está morto o diabo vai muito bem obrigado.

Cotação: ☕☕☕

sábado, 10 de fevereiro de 2024

O homem dos sonhos


Código Cage 💫💫💫

O homem dos Sonhos (Dream Scenario), 2023. De Kristoffer Borgli

O filme aborda a loucura dos tempos atuais em uma comédia de humor negro que funciona como alegoria da internet. A crueldade das redes sociais estampada na construção/destruição de subcelebridades, na cultura do cancelamento e nos tensos liames do real/virtual são bem trabalhadas na história de um professor universitário frustrado chamado Paul Mathieu (Nicolas Cage) que passa a ser uma figura recorrente no sonho de pessoas conhecidas e desconhecidas.

Mathieu tinha uma vida convencional como catedrático de Biologia Evolutiva,  mas se sentia desgostoso por não consegui publicar e injustiçado por não receber os créditos merecidos por seu trabalho. A figura de Mathieu expressa um homem com potência, mas estagnado em uma figura entediante, medíocre e cheia de recalques pessoais e profissionais.

Ele gostaria de ter maior notoriedade o que acontece tão logo as pessoas passam a sonhar com ele de forma recorrente. Em pouco tempo sua imagem viraliza e Paul alcança um tipo infame de reconhecimento. Nesse ínterim ele se depara com situações negativas, até então imprevistas, geradas pela tão almejada atenção.

Dream Scenario funciona como denuncia da volubilidade da plateia virtual, mas vai além ao oferecer um personagem bem construído – méritos para Nicolas Cage (nosso Nicão*). A sensação de apatia do homem mediano enfrentado por Paul Mathieu o aproxima do professor Larry Gopnik do filme Um homem sério (2009) dos irmãos Coen. É curioso como a docência parece indicar em ambas as projeções um lugar de amargura e invisibilidade.

Mas se os Coen constroem um texto fílmico minimalista (ainda que com toques de nonsense), Kristoffer Borgli envereda pelo humor depreciativo com a transformação do absurdo em terror. As pessoas se revelam incapazes de captar a diferença entre o visitante dos sonhos e o homem de carne e osso. A relação entre dar e receber das redes sociais cria monstros, e não é preciso muita coisa para alguém se tornar o frankenstein da vez rodeado pela multidão irada de campônios com tochas nas mãos. Mathieu reluta em abrir mão das oportunidades criadas pelo singular fenômeno; aliás é curioso perceber que mesmo ele sendo um suposto pesquisador demonstra pouco interesse em entender as causas do evento. Ele se julga criador sendo que na verdade é criatura.

O filme acaba prejudicado pelo capítulo final, a mudança de arco que se não é de todo incoerente compromete a força do conjunto. A narrativa opta por levar até as últimas consequências o paralelo com as celebridades da internet, mas ao tomar esse rumo desfoca o ângulo metafísico acerca das agruras do personagem. O desdobramento do clímax – o confronto entre real e onírico – cai em um didatismo desnecessário.

Ainda assim, o filme tem muitos méritos e se pudermos apresentar o nosso veredito sobre o Nicão, devemos dizer que esse é o Nicolas Cage que queremos ver! Ele abraça outros “losers” como o já citado professor Larry Gopnik (Michael Stuhlberg), o escritor fracassado de Sideways (2004) Miles Raymond, interpretado por Paul Giamatti, e o roteirista Charlie Kaufman do filme Adaptação (2002) interpretado por Nicolas Cage...

Opa, voltamos a ele outra vez.

Cotação: ☕☕☕

* Confira o projeto Bem-vindo ao Código Cage

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

Visions of ecstasy


Nunsploitation 
✝💋

Visions of ecstasy, 1989. De Nigel Wingrove

Embora não chegue a ser experimental, Visions of ecstasy se fundamenta na leitura das fusões entre o sagrado e o profano a partir de elementos da iconologia católica.

Abordando as visões erótico-religiosas de Santa Tereza de Ávila, o curta-metragem (18 min.) explora os níveis de repressão sexual do catolicismo tais como a iconografia barroca e as sisudas vestimentas das freiras.

A vulgaridade das produções eróticas amadoras se dilui em um plano de claro-escuro onde rastros de sangue são a preliminar para a exibição de um altar no qual uma mulher com hábito de freira performa o sexo fetichista com outra religiosa e com o nazareno pregado à cruz.

Os apetrechos litúrgicos são transformados em símbolos fálicos tais como o prego que trespassa a palma da mão feminina e a ingestão de fluidos (paralelo entre vinho e sêmen). Outros elementos da cultura religiosa também são explorados em sua polissemia semântica. Quer dizer, a intencionalidade do filme passa longe de qualquer apelo ao obsceno ou pornográfico, pelo contrário, as sugestões e as sutilezas dominam a projeção.

Despudoramente provocativo, Visions of ecstasy foi banido da Inglaterra sob a acusação de blasfêmia. Apresenta-se, por isso mesmo, como referência do nunsploitation em seu desiderato de explorar os intricados não ditos do catolicismo sob uma ótica do desejo masculino.

Cotação: ☕☕☕

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Willy's Wonderland: parque maldito



Código Cage 💫💫💫

Willy's Wonderland, 2021. De Kevin Lewis 

São dois filmes: um ruim e um péssimo. No filme ruim os adolescentes ficam presos com animatrônicos assassinos: cultistas de um serial killer satanista que fizeram um ritual para entranhar suas almas nos robozinhos. Desde então buscam por vítimas.

No filme péssimo um homem de meia idade com cara de poucos amigos passa uma noite socando os robôs. Ele não fala nada. Sim, Cage passa o filme todo sem dizer uma palavra. Não sabemos nada sobre a misteriosa figura, exceto o fato de que ele tem um carrão, uma jaqueta cool, um gosto duvidoso por energéticos e disposição de sobra.

Esses dois filmes se encontram na intersecção dos corredores e salões do restaurante familiar (pero demoníaco) Willy's Wonderland. Jovens fogem das máquinas enquanto as máquinas fogem de Cage (digo, do zelador).

Nicolas Cage, ou Nicão para os entendidos, deve ter assinado um contrato no qual se dispôs a fazer uma única expressão. A ideia de minimalismo na atuação realça suas saracoteadas silenciosas, no máximo um ruído.

Sem atuação, sem coesão, sem sentido algum: um retorno a Ed Wood.

Esse é o filme de Nicão que temos que assistir para entender até onde ele está disposto a ir. Cage entrega o mínimo necessário. Mas em um dos poucos momentos no qual a atuação se torna fluida uma dancinha acontece diante da máquina de fliperama.

A persona do ator quer vir à tona. Seria um canastrão se tivesse a presunção e as veleidades de tal, mas não. Ali é atuação em estado puro. “Dai-me o mínimo que eu darei o mínimo”.

Se o conjunto da obra não convence, a culpa não é dele. Ele é um apêndice que nem deveria estar ali. Seria mais um filme de terror se o faxineiro não tivesse decidido entrar chutando a porta para matar os animatrônicos.

Com ele ruim, sem ele péssimo.

Veredicto: bananeira dá banana, laranjeira dá laranja e Cage dá show.

Mas alguns shows são constrangedores.

Cotação:

sábado, 3 de fevereiro de 2024

Velozes e Mortais


Crítica a jato✈

Velozes e Mortais (Highwaymen), 2003. EUA. De Robert Harmom

Antes de criticar o filme tenho que criticar a mim mesmo. Estava na locadora e o rapaz me sugeriu Velozes e mortais. Eu perguntei se era bom e ele na cara lavada disse que sim. Eu sabia que ele estava me enganando, mas porque sempre me deixo ser enganado? O filme é uma história idiota (psicopata que usa um carro para matar pessoas) cheio de clichês e furos no roteiro.


Vou citar só alguns exemplos, pois não quero perder mais tempo com essa lástima...


1) Filme de carros envenenados (que conceito interessante!)


2) O relacionamento entre os protagonistas é totalmente forçado. Há um momento em que o personagem principal se vira para deixar a "mocinha" se trocar (outro clichê)!


3) O filme é uma história de vingança que, como já foi assinalado por diversos críticos, marca o cinema americano pós 11 de Setembro.


4) Só para constar, o personagem principal força a moça a acompanhá-lo, o que é rapto. Mas ela aceita ser subjugada e troca olhares sugestivos com seu protetor...

Que lixo!

Cotação: ☕

Pós-escrito: essa foi uma das primeiras críticas de uma versão anterior desse blog. Muita ingenuidade esperar algo de bom desse filme. O marketing se baseava no ator James Caviezel, que havia interpretado A Paixão de Cristo. Aproveitando-se, também, do então lançamento de Velozes e Furiosos. De um lado, Jesus, do outro, carrões envenenados. Bons tempos.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Bem-vindos ao Código Cage


Um dos piores filmes que já vi em minha vida – Willy's Wonderland: Parque Maldito – caiu como uma provocação, um convite para desvendar o código Cage. Na série Community, quinta temporada, há um episódio no qual discute-se a qualidade da atuação de Cage: gênio ou canastrão?

Tendo em vista a quantidade de filmes dos quais ele participou nos últimos anos, a proposta aqui esboçada é fazer uma análise in loco do protagonismo de Nicolas Cage. Uma das lendas urbanas, alimentada por ele próprio, ao que parece, seria que a crise da bolha imobiliária de 2008 o endividou. Desde então ele trabalha para pagar os boletos.

Verdadeira ou não, essa historieta lança luz a uma questão interessante: é possível proletarizar o estrelato hollywoodiano? Atores proletários existem, mas nos referimos aqui às “grandes estrelas”. E mais, o que teremos de Cage ao assistir todos os seus filmes?

E o mais importante: tal tarefa será divertida?

Bem-vindos ao Código Cage, pois a cinefilia também se alimenta de bizantinices.

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Denominador comum: é o hábito que faz as monjas.

 

Nunsploitation ✝💋

A freira (The Num), 2018. De Corin Hard.

Benedetta, 2021. De Paul Verhoeven

As freiras alguma vez já convenceram alguém? O convento feminino é um lugar muito instigante para se estar. Várias mulheres encalacradas, sexualmente reprimidas e sem muita coisa para fazer além dos regalos domésticos e litúrgicos.

Umas freirinhas bem sisudas, dirão alguns ingênuos. Garotas da pesada, insinuarão os cínicos de plantão. Boccacio já menciona essas meninas em pavorosa para dormir com um jardineiro em Decameron (séc. XIV).

A tensão constituída entre os diversos imaginários acerca da mulher (Eva é Evil) é alimentada pelo mistério concernente às clausuras. Assim, ao longo da história, não é incomum encontrar poemas eróticos atribuídos a alguma soror. Uma importante referência da literatura libertina é o livro Tereza Filósofa (1748) que trata de uma religiosa em (de)formação.



(livrinhos sobre freirinhas)

“Freiras gradeiras” era uma expressão dos séculos XVII e XVIII acerca do hábito das religiosas em empoleirar nas grades dos conventos para conseguir um intercurso sexual com um audaz amante. A arquitetura monástica objetivava criar barreiras para preservar o questionável decoro dessas esposinhas de Xristós.

O subgênero cinematográfico nunsploitation veio a serviço de alimentar a imaginação acerca da vida secreta das freiras. Filmes apelativos, porém eficazes para explicitar os não ditos que as produções “sérias” raramente abordavam. Tiveram seu auge na década de 1970, mas podemos encontrar um exemplar mais refinado em Maus hábitos (1983) de Almodóvar.

Por isso, um filme como A Freira (Corin Hardy, 2018) peca pelo convencionalismo: irmãs religiosas em luta contra mais um assecla do diabo no pós-Segunda Guerra. O maligno se manifesta em um ambiente isolado, colocando as irmãs na obrigação de tentarem represar o capetão. No filme ele se manifesta como uma figura freirática que aterroriza com uma expressão cadavérica. Não há muito lugar para a sedução. É a luta do bem contra o mal no qual o bem leva uma surra.

Uma noviça com visões de Maria é a engrenagem necessária para fechar a passagem para o inferno. E esse processo se dá justamente pela repressão da sexualidade e individualidade. É muito trabalho para achincalhar a vida das freiras.

Já em Benedetta (Paul Verhoeven, 2021) temos a história de uma irmã do convento Teatino que é tocada por imagens de Jesus enquanto se envolve de forma carnal com uma outra noviça. Aqui temos a inspiração do velho Diabão (não Lúcifer ou seus asseclas, mas o Dr. Freud) nos brindando com os lugares comum de repressão sexual e loucura.

O desenvolvimento da narrativa nos leva a entender que a personagem que dá nome ao filme é uma mulher torturada pela potência do desejo e pela mística do divino. O canal para sua sexualidade são as visões religiosas e é com o sexo que ele obtém a transcendência.

A Freira é um filme que se fragiliza muito em função da monotonia dos personagens. A própria criatura a ser derrotada não parece muito convincente. Um diabo que se transformou em freira e que fica de um ponto ao procurando uma rota de saída para o mundo profano.

Benedetta, por sua vez, não consegue trazer o dilema das freiras para um plano histórico real. Sem querer enumerar os anacronismos, tudo fica dependente da pulsão sexual não realizada. A jovem religiosa fica perdida entre o engodo e o autoengano. Suas estripulias, de fato, são mais mortais do que as travessuras do diabo vestido de diabinha, digo de freirinha.

Em ambas as películas fica a dúvida: qual é a força dessas meninas para prover resistência ao pecado? Esboçam uma certa relutância ao mal, e na cena seguinte já se entregam aos prazeres da perdição. De fato, não há como conferir horror ou tragédia a mocinhas que caem tão rápido.

É até melancólico ver como as “noivas de Xristós” aparecem como sujeitos definidos exclusivamente pela relação com a ordem religiosa – explicitado no colocar e retirar a vestimenta. Por fim, o que temos é a sugestão de que o horizonte de heresia é somente o recalque ao sexo. Nem é preciso enunciar alguma visão do mundo realmente contestadora, pois no fim a ordem deve prevalecer.

Assim, seria preciso ir ao encontro do nunsploitation para verificar qual é o limiar anárquico desse projeto que tem tudo para ser apenas mais uma tirada fetichista.

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

THe Steketon Dance - Hell's Bells - The Haunted House

📺 História da animação


The Skeleton Dance (1929). De Walt Disney.

Hell’s Bells (1929). De Ub Iwerks.

The Haunted Dance (1929). De Walt Disney.

Walter Benjamin já escreveu sobre Mickey Mouse aludindo à dimensão surrealista das primeiras animações. O experimentalismo e a ausência de códigos de censura explícitos possibilitaram projeções com extrema criatividade, na qual utilizavam-se os meios técnicos ao limite de modo a testar todas as possibilidades.

As temáticas trabalhadas seriam consideradas inapropriadas para a atual sensibilidade bem comportada, moralista e politicamente correta. As alusões à figura da morte e aos demônios incomodariam a audiência cristã, da mesma forma que os estereótipos raciais seriam tomados como de mal gosto. Mutatis mutandis, hoje precisamos ter cuidado com qualquer abordagem autoral – a polícia da polarização ideológica não dá descanso...

Em Skeleton Dance e Hell’s Bells a sincronia entre som e imagem reforça a prevalência da música instrumental como um referencial compreendido pela audiência geral. As notas musicais escapam da tessitura da música a fim de simbolizar acontecimentos específicos: quedas, quebras etc. O encadeamento entre música e imagem contorna as limitações técnicas e preenche as animações com uma vivacidade na qual a todo som corresponde uma ação.

A temática é dark e remete à sensibilidade norte-americana do Halloween. Os esqueletos despertam em um cemitério para dança, seus ossos se desfazem e se reintegram em estruturas e colunas. Gatos, corujas e morcegos são os vizinhos daquela cidadela na qual o pós-morte parece ser divertido. A referência mais previsível é a Dança Macabra de Saint-Saëns. A história é simples, os esqueletos passam a noite brincando até a chegada do sol.

Já Hell’s Bell acompanha uma diversão de demônios no inferno. Criaturas espectrais (leia-se demoníacas) fazem seus folguedos com chamas. Nesta animação há uma narrativa mais estruturada já que o Diabo mor persegue um demoniozinho para dar-lhe de comida ao Cérbero. A técnica é a mesma que a animação anterior, a temática, no entanto, é um pouco mais obscura. Não imagino o atual público padrão dos produtos Disney assistindo confortavelmente essa inofensiva animação. Uff, o século XXI está pesado...

Hell’s Bell e The Skeleton Dance fazem parte da coleção Silly Symphonies, já The Hauted House tem como personagem o Mickey, constituindo a face principal do universo de Walt Disney. Mas tudo se repete, inclusive o aproveitamento de sequências das bandas anteriores, como a movimentação dos esqueletos e o voo dos morcegos, por exemplo. Em Haunted House a narrativa se impõe ao experimentalismo – o rato fugindo da tempestade entra em uma casa habitada por caveiras e outros sustos. Tudo muito repetitivo, mas fazia sentido no contexto geral da época – o intuito era explorar o fantástico.

A parceira Walt Disney e Ub Iwerks

De fato, o maior mérito dessas primeiras animações, conforme já havia notado o filósofo alemão, é a poética construída em torno do absurdo. O universo cultural das assombrações e das monstruosidades era conhecido pelas crianças – não eram poupadas de sentir medo. Os norte-americanos são, afinal, bastante supersticiosos e gostam dos arrepios. Por isso, o terror era parte de uma organização mental que embaralhava as fronteiras entre o racional e o maravilhoso.

É justamente essa poética que foi perdida em fins do século XX, a fricção entre o abstrato e o narrativo rasgam a recepção e absorção fáceis que hoje se espera das animações comerciais. Walt Disney e Ub Werks, sempre afinados, compõem poemas visuais e orquestrais que vieram a se tornar um dos pilares da indústria da animação e um testemunho do inconsciente coletivo do século XX.

domingo, 15 de outubro de 2023

30 dias de noite

Crítica a jato✈


30 dias de noite (30 Days of Night), 2007. De David Slade

Antes de Eclipse (2010) David Slade nos brindou com essa história vampirosa de sanguessugas...

Vampiros que tendo a vantagem de atacar por 30 dias seguidos conseguem, ainda, deixar uma pá de humaninhos escaparem...

E vejam, não estou aqui sendo o chato de garrocha ao falar que NEM todo mundo morre no final. Só estou ressaltando o absurdo de que em uma cidade no Alasca no qual o inverno resulta em 30 dias sem a luz do sol os vampiros não dão conta de fazer o dever de casa. E não estamos falando de caçadores como aqueles cowboys do asfalto de John Carpenter, tampouco de um Blade da vida.

Não meus caros, os humanos que se safam são uns patetões que correm a esmo pela cidade, trombam uns nos outros, gritam quando é para fazer silêncio, fogem se prendendo em lugares apertados e se mostram incapazes de qualquer comunicação minimamente inteligente. É claro que esses humanos devem ter lá seus superpoderes para enxergar normalmente no escuro polar, mesmo com toda iluminação natural e artificial suprimida. Mas não vamos pedir coerência de um filme no qual os personagens são rasos, as sequências de ação absolutamente artificiais e o carisma dos heróis e vilões inexistente.

Se vocês querem relembrar aquela boa época que íamos às locadoras e voltávamos com uma batata quente na sacola está aí uma ótima oportunidade de revival.

Filme que caiu no esquecimento, mas que vez ou outra é bom dar uma revisada só para não perdemos o costume da crítica mal humorada.

Cotação:☕


domingo, 27 de agosto de 2023

Doutor Sono


Crítica a jato✈

Doutor Sono (Doctor Sleep), 2019. De Mike Flanagan

Por se tratar da continuação de O iluminado seria muito despropositado tecer grandes expectativas. No entanto a adaptação do novo filme de Stephen King falha miseravelmente. O terror é atenuado, sobretudo, porque Abra Stone a sucessora de Dan Torrance, a garotinha afro-americana (yep!) é muito overpower.

Em momento nenhum Abra fica realmente em perigo, quem tateia em busca de ajuda é Dan, o outrora iluminado só manteve uma pequena parcela do seu brilho. Vagueando pelos Estados Unidos ele tenta lidar com sua depressão e alcoolismo. O encontro dele com Abra é forçado e muito mal explicado, resultado de uma narrativa fílmica absolutamente sem sal.

Esse, aliás, é o principal problema do filme, uma tentativa de adaptar uma extensa obra literária em duas horas de projeção e ainda com a obrigação de fazer conexão com a história anterior.

Para além do hotel amaldiçoado, os antagonistas são um grupo de vampiros psíquicos liderados por uma bela e perigosa assassina. Uma criatura maligna, poderosíssima, mas que é feita de gato e sapato por Abra Stone.

Seja como desfecho ou como obra independente, o filme Doutor Sono é limitado. Os arcos são até interessantes, mas explorados com excessiva pressa a fim de dar liga aos vários capítulos. Priorizar Abra em detrimento de Dan prejudica a temática do iluminado ao substituí-la por uma versão dark de Matilda (1996).

Cotação: ☕☕☕

Que horas eu te pego?


Que horas eu te pego?
(No hard feelings), 2023. De Gene Stupnitsky

Os tempos mudaram para melhor? Não sei dizer, mas tenho inclinação pessimista para todas as coisas do mundo. Desse modo não esperem de mim grandes loiros para as vocações contemporâneas. E é nesse espírito que apresenta a reviravolta das comédias picantes juvenis com um tempero e um caldo da década de 2020.

Que horas eu te pego?” segue as novas riscas da contemporaneidade. Homens fracos e mulheres fortes. Aqui não temos mais o rapaz querendo perder sua virgindade a todo custo, pelo contrário: eis o meninão de 19 anos resignado com sua fobia social e sem maiores interesses por incursões nessa terra de ninguém chamada corpo feminino. Caberá a trintona Maddie (interpretada por Jennifer Lawrence) a tarefa de introduzir o rapaz neste novo continente. Ela faz um acordo com os pais do garoto em troca de um carro, pois precisa do motor para trabalhar de Uber e assim manter sua casa em um bairro assolado pela especulação imobiliária. Por ser herança da mãe (e de um pai ausente) ela não quer perder a propriedade.

É tão triste que sinto vontade de chorar, vontade de chorar pela inação do menino Percy (19 anos minha gente) incapaz de receber as dádivas que secretamente seus pais controladores atiraram em seu colo. E eles atiraram foi a Lawrence que já chega chegando querendo liberar geral. Mas o garoto se assusta: teme o rapto (quando a esmola é demais...), busca previamente uma ligação sentimental e, pasmem, tem reação alérgica à xo... digo, a chocha brincadeira de Adão e Eva.

Os rapazes (igualmente imbecis) de America Pie mandam lembranças: vocês ralavam, oh guerreiros, por uma coisa que hoje os pais encomendam pelos filhos em aplicativos de celular...

Minha má vontade se justifica também pelas premissas absurdas. Um dos amigos de Maddie questiona esse plano de tirar a virgindade do rapaz em troca do carro prometido pelos pais good vibes, sugere alugar alguns quartos da casa pelo Airbnb. Mas ela responde que não se sentia bem em deixar estranhos em sua casa. Ele retorque “não aluga a casa, mas aluga a xereca?”. A mesa feminina o cala imediatamente. Ele ainda sugere “Não seria melhor o OnlyFãs”. A mesa de “apoiadoras de apoiadoras” retumba: “maridinho meu, o que você entende de OnlyFãs?”. Ali é prudente se calar.

Não estou aqui para criticar personagens secundários caricatos, faz parte do gênero. Se bem que quando a única frase sensata sai do clássico bufão é de fato o mundo de pontas às cabeças. Me surpreende o neoplatonismo vendido: o rapaz apto a perder a virgindade só após uma ligação sentimental – enquanto Percy se apaixona, Maddie descobre o valor de manter alguns valores afora os valores (materiais) que pretende receber...

Não há verborragia no parágrafo acima. Realço que em meio a aparência libertina esconde uma vontade insuportável de castração do masculino. Trata-se de uma nova abordagem de educação sexual: a personagem feminina aparece como disposta ao sexo casual, eventualmente até remunerado. Já o rapaz é constrangido a perder a virgindade, mas para isso deve descobrir algo além de um prazer carnal.

E essa dialética cripto-cristã dará a toada até o final. A sexualidade exuberante feminina não é tão resolvida assim – e haverá algum ponto de inflexão que jogará o rapaz nos braços de uma menina anódina (conclusão com extrapolação). Porque as beldades "10 de 10" não são “consumo” mas para admiração.

Afinal, é o capitalismo, nem tudo que desejamos podemos ter.

Cotação: ☕☕


domingo, 21 de fevereiro de 2021

Eu me importo


Eu me importo
(I care a lot). De J Blakson, 2020.

https://www.netflix.com/browse?jbv=81350429

Acabei de assistir “Eu me importo” estreia do Netflix. O filme é curioso e estabelece o espírito anti-masculino que atravessa a cultura contemporânea. As protagonistas consistem em casal de lésbicas inescrupulosas que lesam idosos ao se tornarem tutoras legais para se apropriarem dos bens das vítimas.

O primeiro arco do filme caracteriza as personagens como cínicas, frias e cruéis, conquistando a antipatia imediata do espectador. Elas sentem um prazer especial em humilhar os homens, entendimento verbalizado várias vezes ao longo da projeção. Contando com uma rede de outras mulheres elas aplicam golpes nos limites da lei, conseguindo, desse modo, amealhar fortuna sob os aplausos de um juiz bobalhão. O modus operandi das vigaristas despertam fácil antipatia ao telespectador (sobretudo para o público brasileiro que não se sente tão bem em descartar os velhinhos). De qualquer forma, o clímax deste arco é a cena de sexo para comemorar a rapina de uma nova vítima.

A intenção é explícita: são mulheres fortes (malvadas) que odeiam os homens (idiotas) e se aproveitam dos idosos (porque a sociedade é uma eterna competição de explorados contra exploradores).

Bem, mas veja aí... elas são as mocinhas.

Sim. Porque se existe mulher ruim, com certeza há homens piores.

Após um golpe bem sucedido elas atraem a atenção da máfia russa, cujo maligno e temido e monstruoso e assustador e, claro, fálico líder decide fazer a vida dessas gentis tranbiqueiras (que se amam) um inferno. Esse másculo (not) mafioso tem uma certa deficiência física que metaforicamente representa a castração do masculino pelo feminino. Caramba! Esses barbados, vamos percebendo ao longo dos arcos, são mais tétricos que as golpistas especializadas em extorquir idosos!

A partir do embate entre o mafioso e a golpista a estrutura narrativa vai absolvendo as moças. A ideia é justificar a agressividade feminina como escudo para um mundo controlado pelos homens. Mas pela força que elas demonstram tudo sai muito inverossímil. São lésbicas que não temem a morte,  a dor, a tortura, o ácido, o afogamento, o tiro, o chumbo, a lei, os homens, os fal... esquece. Não temem nada. Nothing!

Mulheres tão poderosas e decididas e inteligentes, mas cuja única forma de sucesso consiste justamente em explorar e abusar de pessoas frágeis.

Mas se ideia é a celebração da Strong Woman, posso garantir que o tiro sai pela culatra. Pois a mesquinharia e o arrivismo das nossas damas de ferro servem mais para denunciar o ultra-individualismo de um feminismo que elegeu os homens (e não a desigualdade) como inimigos.

A noção de humor ácido se esvai na celebração de uma sororidade (elas amam essa palavra!) cujos vínculos se dão apenas entre mulheres jovens e independentes que fazem do sexo e do dinheiro o vínculo de sociabilidade. As idosas, por exemplo, são atiradas à própria sorte e deixadas para morrer abandonadas.

É o “Female American Dream” vendido como empoderamento mas instrumentalizado como competição sem limites, fazendo uso dos subterfúgios legais a fim de criar pontos de falsa equidade para que moças sedutoras e sedentas por sexo (com mulheres) possam tomar do mundo o quinhão que a força e tenacidade delas merecem.

Em suma, não são heroínas ou anti-heroínas, são cowgirls disparando contra os novos nativos: os homens caras de trouxas...

*Cotação:* Fraco

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Netflix é anti-cinema


Netflix
trabalha muito bem contra o cinema. Seu catálogo de filmes é reduzido. A relevância das suas obras é baixa e a aposta em séries desproporcional. Lançamentos fracos e bem aquém do Telecine Play.

Tal serviço de Streaming se coaduna com a letargia do espectador comum, que tem preguiça de procurar filmes relevantes, optando por consumir o que estiver a menos de um clique de distância.

Estou cada vez mais convicto que as locadoras virtuais - nas quais se pagaria por filme - seriam opções melhores.

Eu preciso de 50 minutos de busca para encontrar uma opção razoável no Netflix. Vinte anos atrás era isso que eu precisava para ir e voltar da locadora do bairro com um lançamento e duas opções razoáveis.

domingo, 7 de abril de 2019

Infantilismo do cinema contemporâneo


O cinema atual é infantil, é ruim. Adultos afluem até as salas em busca de super-heróis acompanhando as sequências como garotos de doze anos colecionavam figurinhas em um álbum. Bem indicativo de um estado de espírito coletivo no qual destroiers voadores, equipes multiculturais (mas orquestradas por americanos puro-sangue) dão o tom da diversão pública e da cultura de massa.

Narrativas propositadamente incompletas elaboram sentimento de uma luta ad infinitum contra o mau. O desfecho é sempre jogado para a produção seguinte, um exercício para manter bilheterias em altas cifras. Os adultos seguem o jogo infantilmente com torcidas para a aparição do herói purpurinado da vez.

Há também uma obsessão com a adolescência. Trintões interpretando jovens secundaristas, a high school elevada à condição de microcosmo de toda uma sociedade e todo um modo de vida. As próprias dinâmicas dos adultos passam a ser lidas com os chavões das gatinhas e dos gatões: ênfase nas paqueras e nos dates, embates com os valentões, desinteresse por tudo que não seja ensimesmamento. Enfim, olhar para o umbigo como um paradigma de vida.

Narrativas comprometidas até a medula com valores liberais multiculturais – lacração para alguns, politicamente correto para outros –, e que produzem receituários e cotas de representação a fim de resguardar minorias políticas. Há um esforço considerável para destacar idiossincrasias particulares e considerá-las o mais belo produto do mundo moderno. Narrativas opressoras que elevam lutas de indivíduos contra estruturas opressoras. Causa um mal-estar o maniqueísmo vendido que toma conflitos realmente sérios pelo prisma da condenação moral ao anacronismo do patriarcado.

É infantil esse cinema, pois ele impõe uma noção ideológica de que o real existe para satisfação dos nossos desejos. Todos entraves, obstáculos, deslocamentos e desentendimentos transparecem como um mundo ser removido por metodologias pós-modernas. Não cabe reflexão, mas apenas engajamento tribal, por vezes, com nuances de seita.

Isso explica o fascínio pelos super-heróis já que a eles nada é vetado, seus poderes o elevam para além da vida ordinária. Isso explica o fascínio pela adolescência, pois estes são especialistas em negar imprudentemente os limites da realidade.

Circuitos comerciais ou alternativos, não importa, os filmes estão ruins.

Precisamos crescer e nos libertar dessa voga millenial.