sábado, 18 de abril de 2026

Anaconda

Anaconda. De Tom Gormican, 2025.

O filme se justifica apenas pela despretensão e pela vontade de dialogar com estereótipos inofensivos: losers que não querem ser losers. O humor é irregular e dependente dos recursos de autoparodia. Uma pilantragem cinematográfica caracterizada na persona do Jack Black sempre disposto a interpretar o sujeito mediano em busca da autorrealização (Nacho Libre, Escola do Rock). Desta vez ele é um trabalhador frustrado do audiovisual que decide fazer um remake na floresta amazônica.

As subtramas são frágeis e não levam a lugar nenhum. O filme insiste de forma metalinguística em sua desimportância, parece ter pouca convicção em revisitar o subgênero “cobra gigante”. E, por isso, tenta outras amarrações, como o tema da crise da meia-idade. Na versão original, a fragilidade do roteiro não era objeto de preocupação: o terror e a ação se intercalavam sem mea culpas. Mas como um produto perfeito da época em que se vive, a melancolia acaba habitando a nova projeção, uma vez que todos parecem estar cientes da impossibilidade de o “remake” superar o original (não que de fato fosse grande coisa).

Os personagens partem para a floresta amazônica tentando fazer um filme de cobras gigantes e, eventualmente, são perseguidos por cobras gigantes... Há figuras vilanescas e astros decadentes que fazem rápidas aparições, mas não esperem muito das reviravoltas. Elas cumprem a função de aumentar o tempo de projeção abrindo espaço para gags de gosto duvidoso, como na cena em que o grupo precisa urinar no personagem de Black. Soa como tentativa de arrancar risadas no ato final.

Como exercício de metalinguagem cinematográfica Anaconda lembra um pouco Os picaretas de 1999 (com Eddie Murphy e Steve Martin) e Trovão tropical de 2008 (com Robert Downey, Ben Stiller e o próprio Jack Black). Esses dois, no entanto, como comédias bem atualizadas para a época eram orgânicos, buscavam as risadas a partir de um humor que realmente se propunha a ironizar a indústria cinematográfica. O atual Anaconda optar por ironizar a autoparódia, em vez de alfinetar Hollywood.

Alternando entre o piloto automático e boas sequências, Anaconda 2025 é um ponto máximo do que a comédia hoje pode nos entregar. Em um mundo no qual tudo está envelhecendo rapidamente, precisamos acreditar que ainda há juventude em Jennifer Lopez e Ice Cube que lá atrás aceitaram protagonizar o Anaconda original.

Parece que finalmente Hollywood está sentindo o peso da idade.

Cotação: ☕☕


quarta-feira, 15 de abril de 2026

Um Salto para a Felicidade

 

Um Salto para a Felicidade. Overboard. De Garry Marshall, 1987.

Antes do Donald Trump ser uma verdade havia apenas a vontade do americano médio em ver uma desforra do caipira contra o elitismo cosmopolita...

Comédia divertida que mostra a reconfiguração e uma novaiorquina elitista e esnobe que após sofrer uma amnésia se vê forçada a viver entre caipiras da região do Oregon.

Inicialmente a elitista dama (interpretada por Goldie Hawn) reluta com a vida de dona de casa, mas acaba descobrindo os prazeres dos afazeres domésticos, tendo como (suposto) marido um grosseirão boa pinta e bem intencionado (Kurt Russel).

O filme dá vez a cosmovisão interiorana, simplória, amigável, sensível, mas um pouco grosseira que ao receber estímulos civilizatórios externos desponta.

O filme acerta ao mostrar o desprezo da sociedade norte-americana pelo white trash, isto é, o pobre branco com baixa escolaridade. Mas acerta mesmo na química – um tanto forçada – entre Hawn e Russel.

O diretor Gary Marshall já antecipa alguns motes de Pretty Woman, como o amor pura interclassista. Ao fim e ao cabo o elitismo novaiorquino precisa aprender com os grosseirões que nada refresca mais que uma boa cerveja.

Pois é, lá atrás isso era uma fantasia divertida. A pergunta a ser feita é: quem está rindo agora?

Cotação☕☕☕

terça-feira, 31 de março de 2026

O que deixamos para trás


O que deixamos para trás
. His house. De Remi Weekes, 2020.

Interessante filme de terror-dramático que apresenta a perspectiva de refugiados sudaneses na Inglaterra. A narrativa aborda as dificuldades de um casal (que perdeu a filha durante a fuga do Sudão) em se adaptar à nova vida. Após conseguirem uma autorização provisória para permanecerem no país, Bol e Rial, são instalados em uma casa na periferia de Londres. No entanto, a casa parece conter fantasmas e entidades relacionados a um bruxo africano. São seres que estão cobrando a conta pelas ações anteriores de Bol.

A sensação de isolamento é ampliada pelo fato deles contarem com pouca boa vontade dos locais, incluindo do serviço social. Eles sentem-se compungidos a passar uma imagem positiva para os ingleses, mas são antagonizados pelo preconceito social e racial. Bol, o marido, parece mais disposto à integração, enquanto Rial lida com seus traumas (intensos!) de maneira diferente. Mas há algo interno à casa e a eles próprios que os fragilizam ainda mais – colocando em risco o status de refugiado.

O filme funciona bem como drama existencial, reflexão intimista dos asilados e até representação do folclore africano. Mas como terror propriamente dito carece de maior constância. Não é muito difícil prever o desdobramento e as revelações, bem como antever o desfecho levemente otimista para vidas que sofreram com a guerra fratricida. Como bem postula Rial, em um momento de discussão com o marido, ela não teria medo de “fantasmas”, pois o verdadeiro perigo são os vivos.

Na perspectiva de refugiados africanos, nada mais verdadeiro...

Cotação: ☕☕☕