sábado, 6 de junho de 2026

Obsessão

Obsessão. Obsession. De Curry Barker, 2026.

Meninas, não confiem nos garotos! Bruxos ou mágicos suas varinhas sempre vão falhar. Este é, pelo menos, o andar sub-reptício desta narrativa na qual o pobre rapaz perseguido é o perseguidor! Spoiler? Não, apenas uma tendência cultural contemporânea.

Como lidar com o terror que se abre ao masculino dos dias de hoje? Haverá ainda a legitimidade para um filme no qual um homem seja a vítima? Ou devemos tomá-lo como o eterno vitimizador?

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Blue my mind


Blue my mind
. De Lisa Brühlmann, 2017.

Uma garota de 15 anos entra na adolescência virando um peixinho... Sim, Blue my mind não nos poupa da trivialidade metafórica de amadurecimento como processo de aceitação da "monstruosidade".

Antes uma goldenfish de aquário, depois uma linda sereia.

Entre o horror body movie e o teen movie somos presenteados com o drama de Mia, a menina suíça que tem pacto com o oceano. A descoberta de sua sexualidade exuberante se dá em um ambiente nada propício a isso: a toxicidade grassa horrores nas escolas do Uncle Switzerland. Ser adolescente não está fácil para ninguém.

Com uma bela fotografia em tons frios e azulados, mas com uma narrativa lenta, o filme é medroso ao explorar as dimensões horríficas da narrativa. Há alguns flertes com o horror, mas é o drama juvenil que dá o tom; e quando ele se abre para os elementos do fantástico é para facilitar o desfecho.

O filme argumenta que cada mulher precisa aceitar a sereia dentro de si, esfregando sua longa, longa, longa barbatana na cara da sociedade.

Cotação: ☕☕

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Um certo assassino

Um certo assassinoAru koroshi ya. De Kazuo Mori, 1967. 

Mesmo sendo um filme do final da década de 1960, as marcas traumáticas dos efeitos da Segunda Guerra Mundial fazem-se sentir. Abrindo o começo da projeção vemos os planos gerais de um aterro, um estaleiro isolado e um cemitério. Um cenário que alegoriza a necessidade de reconstrução a partir dos restos e dos escombros.

Esses resíduos podem ser vistos socialmente como a máfia, os criminosos comuns e as prostitutas – o material humano que será mobilizado para a reconstrução de um país modernos. Porém o universo social no qual a marginalidade trafega é caracteristicamente ambíguo, influenciado pela pobreza e pelos traumas das experiências históricas recentes.

Com uma fotografia “limpa” o filme não investe no visual “noir”, embora possa ser considerado um representante nipônico do estilo. Embora o jogo de luz e sombra se faça presente, caracteriza muito mais a representação dos ambientes centrais e periféricos.

É nesse contexto que um cozinheiro, ex-combatente (possivelmente um ex-kamikaze), trabalha como um habilidoso assassino, seus parceiros são uma prostitua e um membro subalterno da yakuza.

A ganância, as idas e vindas e o desfecho profundamente melancólico lembram “O tesouro de Sierra madre” do John Huston de 1948. Ambos são profundamente antimoralistas embora tenham uma leitura bem cristalina acerca dos efeitos da ganância.

O Kazuo Mori foi um diretor de estudo que trabalhou com gêneros populares, tais como ação e filmes de samurais. A movimentação coreografada das brigas entre o assassino e os criminosos da yakuza revelam os traços desse cinema mais popular.

Um certo assassino visita o universo da criminalidade japonesa em um momento no qual o país tentava uma nova repactuação rumo à modernidade capitalista. Transformar o lodo em ouro era uma operação dificultosa e ambígua dependente da dialética entre criminosos e homem de negócios. Um interessante vislumbre das dificuldades ali vivenciadas.

Cotação: ☕☕☕☕