domingo, 22 de março de 2026

Maggie: a Transformação


Maggie: a Transformação
Maggie. De Henry Hobson, 2015.

O filme retrata um futuro pós-apocalíptico no qual um patógeno Necroambulist virus tem causado impacto mundial, transformando pessoas em zumbis. Wade Vogel, interpretado por Arnold Schwarzenegger, precisa proteger sua filha infectada e desenganada.

O principal objeto do filme é a relação entre Wade e Maggie, um fazendeiro e uma adolescente interiorana, em um mundo no qual os laços sociais estão se desconstruindo. Embora os mortos-vivos apareçam em alguns momentos, colocando o filme dentro do gênero de George Romero, a dimensão de uma dramática distopia é o que prevalece.

Trata-se de um mundo cinzento e sem esperança, algo recuperado pela própria fotografia. O vírus não atingiu apenas os humanos, mas animais e plantas. Os fazendeiros precisam incendiar as plantações, por isso a fumaça espalhada acentuando o aspecto sem cor. A paleta morta com tons amadeirados também favorece uma narrativa lúgubre.

O filme funciona muito bem como metáfora da desestruturação comunitária. As cidades destruídas e as áreas urbanas abandonadas lembram um contexto de guerra civil. Maggie, retirada da zona de quarentena por seu pai tem uma percepção apurada do que está acontecendo não só com ela, mas o mundo. Seu fim – reconhecidamente prematuro – se aproxima e ela tenta resolver suas questões antes que sua desumanização se complete. A figura protetora e angustiada do pai, ciente de sua obrigação quando a transformação se completar, observa o processo com firmeza inabalável (mas internamente desesperado).

O filme poderia desenvolver melhor o lore daquele universo, profundamente promissor. É uma narrativa curta, um cinema independente, que preserva o núcleo essencial. Nos dias de hoje estaria serializado em diversas temporadas, com inúmeros cliffhangers.

Está bem situado entre o terror e o drama. A impressão que fica é que faltou material para melhor dimensionar esse universo. A relação de Maggie com os amigos é apresentada de forma sucinta, mas eficaz. Não resvala, nem de leve, no dramalhão adolescente. A ligação da moça com a madrasta e os meios-irmãos também funciona, mesmo com poucos elementos.

A principal falta é a caracterização da ameaça zumbi: como aconteceu e de que forma foi controlada, se é que o foi. Mas aí, reconheço, seria um filme totalmente diferente. De qualquer forma, os zumbis aparecem, mas sem destaque.

Com um desfecho trágico e levemente conveniente, Maggie satisfaz o espectador desejoso de ver um filme de zumbis em um diapasão mais melancólico.

Cotação: ☕☕☕

domingo, 1 de março de 2026

28 Anos Depois

28 Anos Depois: Templo dos Ossos. 28 Years Later: The Bone TempleDe Nia DaCosta, 2026.

Excelente filme para tematizar o populismo e suas bases religiosas, além de abordar a capacidade de adaptação dos humanos às mais duras situações. No entanto, como filme de zumbis, é forçoso concordar que não há muita condição de considerá-lo um... filme de zumbis.

Templos dos Ossos parece ser mais um arco de conflitos sociais e ideológicos dentro de uma longa série de zumbis. Assustador e desolador, mas voltado para a compreensão da lógica humana de dominação. As hordas de motos estão ausentes, aparecem alguns desgarrados que não são verdadeiras ameaças aos fundamentalistas religiosos, esses sim, os verdadeiros vilões.

A contraposição ciência-religião (zumbis são infectados ou são pragas de satanás) é excessivamente didática e a proposta de uma cura para os raivosos leva o filme para outro plano de considerações. A trilogia do Danny Boyle não é sobre mortos-vivos no sentido clássico, mas sim sobre um tipo de raiva que ao pular dos macacos para os homens gerou o apocalipse na Inglaterra.

De qualquer forma, como um horror angustiante, o filme cumpre bem o propósito.

Cotação: ☕☕☕

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

We bury the dead


Enterramos os mortos
. We bury the dead. De Zak Hilditch, 2025.

O filme não convence muito bem com suas premissas: mandar civis resgatar os corpos das vítimas de um experimento militar que podem ou não despertar a qualquer instante. Não são exatamente zumbis, mas também não deixam de sê-los. Afinal, para que mandar os militares limparem os erros deles se há civis despreparados e angustiados para isso...

Em We bury the dead temos que executar um pouco de boa vontade para acompanhar as desventuras de Ava (Daisy Ridley) que decide ir para Tasmânia a fim de recuperar o corpo do marido, vítima de um acidente militar. O problema é que alguns corpos estão voltando à vida e parte deles demonstram sinais de agressividade. Mas Ava tem assuntos não resolvidos e ao invés de pagar um terapeuta de luta (como faria um sujeito normal) decide embarcar em um survive road movie.

É pouco convincente a escolha de cidadãos comuns para isso – sobretudo porque a maioria dos voluntários estão lá para resgatar os corpos de seus familiares. Além disso, não recebem nenhum tipo de treinamento. É um pretexto limitado para justificar a presença de Ava em meio aos destroços de uma ilha inundada por cadáveres.

A metáfora do zumbi como um assunto inacabado é até interessante, no entanto tal temática já foi tratada quase que a exaustão. Em melhor medida podemos citar o livro Handling the Undead (2005) do sueco John Ajvide Lindqvist que, recentemente, virou filme. Há outras séries que abordam essas questões como a francesa Les Revenants (2012) e a inglesa In the Flesh (2013-2014). Isso sem falar em Maggie (2015), aquele filme no qual Arnold Schwarzenegger recusa-se a abandonar a filha em processo de zumbificação.

A direção é bastante irregular, nem sempre conseguindo dar um tom de terror pós-apocalítico. Há pequenas pitadas de humor negro e uma melancolia onipresente que se apresenta na fotografia, fortalecendo assim a ideia de que não são exatamente os mortos que têm assuntos inacabados, mas os vivos que recusam a deixá-los descansar.

Faltou o esforço de compreensão das reais angústias dos mortos-vivos – eles sofrem? Eles têm raiva? Por que alguns atacam e outros não? Estão adquirindo a consciência? Esses aspectos foram deixados de lado para a angulação do luto pouco convincente de Ava. É uma história mediana de zumbis dentro de um filme que poderia ter se esforçado mais.

Cotação: ☕☕☕