Café com Cinema
Um blog dedicado à crítica cinematográfica amadora.
quinta-feira, 4 de junho de 2026
Blue my mind
segunda-feira, 4 de maio de 2026
Um certo assassino
Mesmo
sendo um filme do final da década de 1960, as marcas traumáticas dos efeitos da
Segunda Guerra Mundial fazem-se sentir. Abrindo o começo da projeção vemos os
planos gerais de um aterro, um estaleiro isolado e um cemitério. Um cenário que
alegoriza a necessidade de reconstrução a partir dos restos e dos escombros.
Esses
resíduos podem ser vistos socialmente como a máfia, os criminosos comuns e as
prostitutas – o material humano que será mobilizado para a reconstrução de um país
modernos. Porém o universo social no qual a marginalidade trafega é
caracteristicamente ambíguo, influenciado pela pobreza e pelos traumas das
experiências históricas recentes.
Com uma
fotografia “limpa” o filme não investe no visual “noir”, embora possa
ser considerado um representante nipônico do estilo. Embora o jogo de luz e
sombra se faça presente, caracteriza muito mais a representação dos ambientes
centrais e periféricos.
É nesse
contexto que um cozinheiro, ex-combatente (possivelmente um ex-kamikaze),
trabalha como um habilidoso assassino, seus parceiros são uma prostitua e um
membro subalterno da yakuza.
A ganância,
as idas e vindas e o desfecho profundamente melancólico lembram “O tesouro
de Sierra madre” do John Huston de 1948. Ambos são profundamente antimoralistas
embora tenham uma leitura bem cristalina acerca dos efeitos da ganância.
O Kazuo
Mori foi um diretor de estudo que trabalhou com gêneros populares, tais como
ação e filmes de samurais. A movimentação coreografada das brigas entre o
assassino e os criminosos da yakuza revelam os traços desse cinema mais
popular.
Um
certo assassino visita o universo da criminalidade japonesa em um momento
no qual o país tentava uma nova repactuação rumo à modernidade capitalista. Transformar
o lodo em ouro era uma operação dificultosa e ambígua dependente da dialética
entre criminosos e homem de negócios. Um interessante vislumbre das
dificuldades ali vivenciadas.
Cotação:
☕☕☕☕
sábado, 18 de abril de 2026
Anaconda
Anaconda. De Tom Gormican, 2025.
O
filme se justifica apenas pela despretensão e pela vontade de dialogar com estereótipos
inofensivos: losers que não querem ser losers. O humor é
irregular e dependente dos recursos de autoparodia. Uma pilantragem
cinematográfica caracterizada na persona do Jack Black sempre disposto a
interpretar o sujeito mediano em busca da autorrealização (Nacho Libre, Escola
do Rock). Desta vez ele é um trabalhador frustrado do audiovisual que
decide fazer um remake na floresta amazônica.
As
subtramas são frágeis e não levam a lugar nenhum. O filme insiste de forma metalinguística
em sua desimportância, parece ter pouca convicção em revisitar o subgênero “cobra
gigante”. E, por isso, tenta outras amarrações, como o tema da crise da meia-idade.
Na versão original, a fragilidade do roteiro não era objeto de preocupação: o
terror e a ação se intercalavam sem mea culpas. Mas como um produto
perfeito da época em que se vive, a melancolia acaba habitando a nova projeção,
uma vez que todos parecem estar cientes da impossibilidade de o “remake”
superar o original (não que de fato fosse grande coisa).
Os
personagens partem para a floresta amazônica tentando fazer um filme de cobras
gigantes e, eventualmente, são perseguidos por cobras gigantes... Há figuras
vilanescas e astros decadentes que fazem rápidas aparições, mas não esperem muito
das reviravoltas. Elas cumprem a função de aumentar o tempo de projeção abrindo
espaço para gags de gosto duvidoso, como na cena em que o grupo precisa urinar
no personagem de Black. Soa como tentativa de arrancar risadas no ato final.
Como
exercício de metalinguagem cinematográfica Anaconda lembra um pouco Os
picaretas de 1999 (com Eddie Murphy e Steve Martin) e Trovão tropical
de 2008 (com Robert Downey, Ben Stiller e o próprio Jack Black). Esses dois, no
entanto, como comédias bem atualizadas para a época eram orgânicos, buscavam as
risadas a partir de um humor que realmente se propunha a ironizar a indústria
cinematográfica. O atual Anaconda optar por ironizar a autoparódia, em
vez de alfinetar Hollywood.
Alternando
entre o piloto automático e boas sequências, Anaconda 2025 é um ponto máximo do
que a comédia hoje pode nos entregar. Em um mundo no qual tudo está envelhecendo
rapidamente, precisamos acreditar que ainda há juventude em Jennifer Lopez e
Ice Cube que lá atrás aceitaram protagonizar o Anaconda original.
Parece
que finalmente Hollywood está sentindo o peso da idade.
Cotação: ☕☕


