Mesmo
sendo um filme do final da década de 1960, as marcas traumáticas dos efeitos da
Segunda Guerra Mundial fazem-se sentir. Abrindo o começo da projeção vemos os
planos gerais de um aterro, um estaleiro isolado e um cemitério. Um cenário que
alegoriza a necessidade de reconstrução a partir dos restos e dos escombros.
Esses
resíduos podem ser vistos socialmente como a máfia, os criminosos comuns e as
prostitutas – o material humano que será mobilizado para a reconstrução de um país
modernos. Porém o universo social no qual a marginalidade trafega é
caracteristicamente ambíguo, influenciado pela pobreza e pelos traumas das
experiências históricas recentes.
Com uma
fotografia “limpa” o filme não investe no visual “noir”, embora possa
ser considerado um representante nipônico do estilo. Embora o jogo de luz e
sombra se faça presente, caracteriza muito mais a representação dos ambientes
centrais e periféricos.
É nesse
contexto que um cozinheiro, ex-combatente (possivelmente um ex-kamikaze),
trabalha como um habilidoso assassino, seus parceiros são uma prostitua e um
membro subalterno da yakuza.
A ganância,
as idas e vindas e o desfecho profundamente melancólico lembram “O tesouro
de Sierra madre” do John Huston de 1948. Ambos são profundamente antimoralistas
embora tenham uma leitura bem cristalina acerca dos efeitos da ganância.
O Kazuo
Mori foi um diretor de estudo que trabalhou com gêneros populares, tais como
ação e filmes de samurais. A movimentação coreografada das brigas entre o
assassino e os criminosos da yakuza revelam os traços desse cinema mais
popular.
Um
certo assassino visita o universo da criminalidade japonesa em um momento
no qual o país tentava uma nova repactuação rumo à modernidade capitalista. Transformar
o lodo em ouro era uma operação dificultosa e ambígua dependente da dialética
entre criminosos e homem de negócios. Um interessante vislumbre das
dificuldades ali vivenciadas.
Cotação:
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