quarta-feira, 15 de abril de 2026

Um Salto para a Felicidade

 

Um Salto para a Felicidade. Overboard. De Garry Marshall, 1987.

Antes do Donald Trump ser uma verdade havia apenas a vontade do americano médio em ver uma desforra do caipira contra o elitismo cosmopolita...

Comédia divertida que mostra a reconfiguração e uma novaiorquina elitista e esnobe que após sofrer uma amnésia se vê forçada a viver entre caipiras da região do Oregon.

Inicialmente a elitista dama (interpretada por Goldie Hawn) reluta com a vida de dona de casa, mas acaba descobrindo os prazeres dos afazeres domésticos, tendo como (suposto) marido um grosseirão boa pinta e bem intencionado (Kurt Russel).

O filme dá vez a cosmovisão interiorana, simplória, amigável, sensível, mas um pouco grosseira que ao receber estímulos civilizatórios externos desponta.

O filme acerta ao mostrar o desprezo da sociedade norte-americana pelo white trash, isto é, o pobre branco com baixa escolaridade. Mas acerta mesmo na química – um tanto forçada – entre Hawn e Russel.

O diretor Gary Marshall já antecipa alguns motes de Pretty Woman, como o amor pura interclassista. Ao fim e ao cabo o elitismo novaiorquino precisa aprender com os grosseirões que nada refresca mais que uma boa cerveja.

Pois é, lá atrás isso era uma fantasia divertida. A pergunta a ser feita é: quem está rindo agora?

Cotação☕☕☕

terça-feira, 31 de março de 2026

O que deixamos para trás


O que deixamos para trás
. His house. De Remi Weekes, 2020.

Interessante filme de terror-dramático que apresenta a perspectiva de refugiados sudaneses na Inglaterra. A narrativa aborda as dificuldades de um casal (que perdeu a filha durante a fuga do Sudão) em se adaptar à nova vida. Após conseguirem uma autorização provisória para permanecerem no país, Bol e Rial, são instalados em uma casa na periferia de Londres. No entanto, a casa parece conter fantasmas e entidades relacionados a um bruxo africano. São seres que estão cobrando a conta pelas ações anteriores de Bol.

A sensação de isolamento é ampliada pelo fato deles contarem com pouca boa vontade dos locais, incluindo do serviço social. Eles sentem-se compungidos a passar uma imagem positiva para os ingleses, mas são antagonizados pelo preconceito social e racial. Bol, o marido, parece mais disposto à integração, enquanto Rial lida com seus traumas (intensos!) de maneira diferente. Mas há algo interno à casa e a eles próprios que os fragilizam ainda mais – colocando em risco o status de refugiado.

O filme funciona bem como drama existencial, reflexão intimista dos asilados e até representação do folclore africano. Mas como terror propriamente dito carece de maior constância. Não é muito difícil prever o desdobramento e as revelações, bem como antever o desfecho levemente otimista para vidas que sofreram com a guerra fratricida. Como bem postula Rial, em um momento de discussão com o marido, ela não teria medo de “fantasmas”, pois o verdadeiro perigo são os vivos.

Na perspectiva de refugiados africanos, nada mais verdadeiro...

Cotação: ☕☕☕

domingo, 22 de março de 2026

Maggie: a Transformação


Maggie: a Transformação
Maggie. De Henry Hobson, 2015.

O filme retrata um futuro pós-apocalíptico no qual um patógeno Necroambulist virus tem causado impacto mundial, transformando pessoas em zumbis. Wade Vogel, interpretado por Arnold Schwarzenegger, precisa proteger sua filha infectada e desenganada.

O principal objeto do filme é a relação entre Wade e Maggie, um fazendeiro e uma adolescente interiorana, em um mundo no qual os laços sociais estão se desconstruindo. Embora os mortos-vivos apareçam em alguns momentos, colocando o filme dentro do gênero de George Romero, a dimensão de uma dramática distopia é o que prevalece.

Trata-se de um mundo cinzento e sem esperança, algo recuperado pela própria fotografia. O vírus não atingiu apenas os humanos, mas animais e plantas. Os fazendeiros precisam incendiar as plantações, por isso a fumaça espalhada acentuando o aspecto sem cor. A paleta morta com tons amadeirados também favorece uma narrativa lúgubre.

O filme funciona muito bem como metáfora da desestruturação comunitária. As cidades destruídas e as áreas urbanas abandonadas lembram um contexto de guerra civil. Maggie, retirada da zona de quarentena por seu pai tem uma percepção apurada do que está acontecendo não só com ela, mas o mundo. Seu fim – reconhecidamente prematuro – se aproxima e ela tenta resolver suas questões antes que sua desumanização se complete. A figura protetora e angustiada do pai, ciente de sua obrigação quando a transformação se completar, observa o processo com firmeza inabalável (mas internamente desesperado).

O filme poderia desenvolver melhor o lore daquele universo, profundamente promissor. É uma narrativa curta, um cinema independente, que preserva o núcleo essencial. Nos dias de hoje estaria serializado em diversas temporadas, com inúmeros cliffhangers.

Está bem situado entre o terror e o drama. A impressão que fica é que faltou material para melhor dimensionar esse universo. A relação de Maggie com os amigos é apresentada de forma sucinta, mas eficaz. Não resvala, nem de leve, no dramalhão adolescente. A ligação da moça com a madrasta e os meios-irmãos também funciona, mesmo com poucos elementos.

A principal falta é a caracterização da ameaça zumbi: como aconteceu e de que forma foi controlada, se é que o foi. Mas aí, reconheço, seria um filme totalmente diferente. De qualquer forma, os zumbis aparecem, mas sem destaque.

Com um desfecho trágico e levemente conveniente, Maggie satisfaz o espectador desejoso de ver um filme de zumbis em um diapasão mais melancólico.

Cotação: ☕☕☕