segunda-feira, 4 de maio de 2026

Um certo assassino

Um certo assassinoAru koroshi ya. De Kazuo Mori, 1967. 

Mesmo sendo um filme do final da década de 1960, as marcas traumáticas dos efeitos da Segunda Guerra Mundial fazem-se sentir. Abrindo o começo da projeção vemos os planos gerais de um aterro, um estaleiro isolado e um cemitério. Um cenário que alegoriza a necessidade de reconstrução a partir dos restos e dos escombros.

Esses resíduos podem ser vistos socialmente como a máfia, os criminosos comuns e as prostitutas – o material humano que será mobilizado para a reconstrução de um país modernos. Porém o universo social no qual a marginalidade trafega é caracteristicamente ambíguo, influenciado pela pobreza e pelos traumas das experiências históricas recentes.

Com uma fotografia “limpa” o filme não investe no visual “noir”, embora possa ser considerado um representante nipônico do estilo. Embora o jogo de luz e sombra se faça presente, caracteriza muito mais a representação dos ambientes centrais e periféricos.

É nesse contexto que um cozinheiro, ex-combatente (possivelmente um ex-kamikaze), trabalha como um habilidoso assassino, seus parceiros são uma prostitua e um membro subalterno da yakuza.

A ganância, as idas e vindas e o desfecho profundamente melancólico lembram “O tesouro de Sierra madre” do John Huston de 1948. Ambos são profundamente antimoralistas embora tenham uma leitura bem cristalina acerca dos efeitos da ganância.

O Kazuo Mori foi um diretor de estudo que trabalhou com gêneros populares, tais como ação e filmes de samurais. A movimentação coreografada das brigas entre o assassino e os criminosos da yakuza revelam os traços desse cinema mais popular.

Um certo assassino visita o universo da criminalidade japonesa em um momento no qual o país tentava uma nova repactuação rumo à modernidade capitalista. Transformar o lodo em ouro era uma operação dificultosa e ambígua dependente da dialética entre criminosos e homem de negócios. Um interessante vislumbre das dificuldades ali vivenciadas.

Cotação: ☕☕☕☕

sábado, 18 de abril de 2026

Anaconda

Anaconda. De Tom Gormican, 2025.

O filme se justifica apenas pela despretensão e pela vontade de dialogar com estereótipos inofensivos: losers que não querem ser losers. O humor é irregular e dependente dos recursos de autoparodia. Uma pilantragem cinematográfica caracterizada na persona do Jack Black sempre disposto a interpretar o sujeito mediano em busca da autorrealização (Nacho Libre, Escola do Rock). Desta vez ele é um trabalhador frustrado do audiovisual que decide fazer um remake na floresta amazônica.

As subtramas são frágeis e não levam a lugar nenhum. O filme insiste de forma metalinguística em sua desimportância, parece ter pouca convicção em revisitar o subgênero “cobra gigante”. E, por isso, tenta outras amarrações, como o tema da crise da meia-idade. Na versão original, a fragilidade do roteiro não era objeto de preocupação: o terror e a ação se intercalavam sem mea culpas. Mas como um produto perfeito da época em que se vive, a melancolia acaba habitando a nova projeção, uma vez que todos parecem estar cientes da impossibilidade de o “remake” superar o original (não que de fato fosse grande coisa).

Os personagens partem para a floresta amazônica tentando fazer um filme de cobras gigantes e, eventualmente, são perseguidos por cobras gigantes... Há figuras vilanescas e astros decadentes que fazem rápidas aparições, mas não esperem muito das reviravoltas. Elas cumprem a função de aumentar o tempo de projeção abrindo espaço para gags de gosto duvidoso, como na cena em que o grupo precisa urinar no personagem de Black. Soa como tentativa de arrancar risadas no ato final.

Como exercício de metalinguagem cinematográfica Anaconda lembra um pouco Os picaretas de 1999 (com Eddie Murphy e Steve Martin) e Trovão tropical de 2008 (com Robert Downey, Ben Stiller e o próprio Jack Black). Esses dois, no entanto, como comédias bem atualizadas para a época eram orgânicos, buscavam as risadas a partir de um humor que realmente se propunha a ironizar a indústria cinematográfica. O atual Anaconda optar por ironizar a autoparódia, em vez de alfinetar Hollywood.

Alternando entre o piloto automático e boas sequências, Anaconda 2025 é um ponto máximo do que a comédia hoje pode nos entregar. Em um mundo no qual tudo está envelhecendo rapidamente, precisamos acreditar que ainda há juventude em Jennifer Lopez e Ice Cube que lá atrás aceitaram protagonizar o Anaconda original.

Parece que finalmente Hollywood está sentindo o peso da idade.

Cotação: ☕☕


quarta-feira, 15 de abril de 2026

Um Salto para a Felicidade

 

Um Salto para a Felicidade. Overboard. De Garry Marshall, 1987.

Antes do Donald Trump ser uma verdade havia apenas a vontade do americano médio em ver uma desforra do caipira contra o elitismo cosmopolita...

Comédia divertida que mostra a reconfiguração e uma novaiorquina elitista e esnobe que após sofrer uma amnésia se vê forçada a viver entre caipiras da região do Oregon.

Inicialmente a elitista dama (interpretada por Goldie Hawn) reluta com a vida de dona de casa, mas acaba descobrindo os prazeres dos afazeres domésticos, tendo como (suposto) marido um grosseirão boa pinta e bem intencionado (Kurt Russel).

O filme dá vez a cosmovisão interiorana, simplória, amigável, sensível, mas um pouco grosseira que ao receber estímulos civilizatórios externos desponta.

O filme acerta ao mostrar o desprezo da sociedade norte-americana pelo white trash, isto é, o pobre branco com baixa escolaridade. Mas acerta mesmo na química – um tanto forçada – entre Hawn e Russel.

O diretor Gary Marshall já antecipa alguns motes de Pretty Woman, como o amor pura interclassista. Ao fim e ao cabo o elitismo novaiorquino precisa aprender com os grosseirões que nada refresca mais que uma boa cerveja.

Pois é, lá atrás isso era uma fantasia divertida. A pergunta a ser feita é: quem está rindo agora?

Cotação☕☕☕