O principal mérito do filme é que a distopia vendida não está lá no futuro, ele é agora. Olhos grudados na tela, perda de humanidade e imbecilidade geral é o problema contra o qual um soldado maluco do futuro terá que lutar.
domingo, 23 de agosto de 2026
Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra
sábado, 25 de julho de 2026
Saint-Amour – na rota do vinho
Saint-Amour – na rota do vinho. Saint-Amour. De Benoît Delépine e Gustave Kervern, 2017.
Considerando nossa empatia por pessoas em situações embaraçosas, Saint-Amour é uma comédia melancólica com um sutil humor corporal. O filme sugere o desprezo na França pelos camponeses, retratados negativamente como “caipiras” e “agricultores”.
domingo, 5 de julho de 2026
Os infelizes
Os Infelizes. De helaasheid der dingen. De Felix Van Groeningen, 2009.
No
cinema, a marginalidade exerce uma atração pela capacidade de conectar seres
humanos que, a princípio, pareceriam detestáveis. Este é o fundamento do filme “Os
infelizes”, baseado na literatura de Dimitri Verhulst (escritor belga contemporâneo).
A partir de tal efeito vemos uma família basicamente masculina de alcóolatras e
encrenqueiros que criam um rapaz chamado Gunther, filho de um deles, de uma
forma negligente, abusiva e, contraditoriamente, amorosa.
terça-feira, 30 de junho de 2026
Pecadores
Pecadores. Sinners. De Ryan Coogler, 2025.
Parte de uma nova fase do cinema negro,
Pecadores ecoa as atuais preocupações dos cineastas em representar
questões sociais por meio do terror. Embora os filmes não sejam exatamente
obras-manifestos, em muitos casos mostram-se reflexivos em relação aos dilemas
enfrentados hodiernamente. A escolha do terror parece ser propícia por agudizar
de forma mais ou menos didática inquietações coletivas.
domingo, 21 de junho de 2026
Os tradutores
Os Tradutores. Les Traducteurs. De Régis Roinsard, 2019.
Excelente filme que faz a
brincadeira de gato e rato típica das histórias policiais. Os Tradutores
dialoga tanto com as narrativas policiais quanto com as histórias de bastidores
do mundo da arte. A questão da
fetichização da obra e da autoria mostra-se o eixo principal da narrativa.
sábado, 13 de junho de 2026
Os curados
Os
curados. The Cured. De David Freyne, 2018.
Lúbugbre,
triste e com poucas possibilidades de escapes.
O
filme aborda o tenso processo de adaptação dos infectados pelo vírus Maze à
vida civil em um cenário pós-apocalíptico no qual o caos não se extinguiu por
completo. Produzido e filmado na Irlanda, o projeto parece metaforizar traumas como os conflitos entre o IRA e o Reino Unido, o 11 de Setembro
e a própria xenofobia contra minorias étnicas. Porém há uma atualização
histórica no que se refere ao populismo de direita.
sábado, 6 de junho de 2026
Obsessão
Obsessão. Obsession. De Curry Barker, 2026.
Meninas, não confiem nos garotos!
Bruxos ou mágicos suas varinhas sempre vão falhar. Este é, pelo menos, o andar
sub-reptício desta narrativa na qual o pobre rapaz perseguido é o perseguidor! Spoiler?
Não, apenas uma tendência cultural contemporânea.
Como lidar com o terror que se abre
ao masculino dos dias de hoje? Haverá ainda a legitimidade para um filme no
qual um homem seja a vítima? Ou devemos tomá-lo como o eterno vitimizador?
quinta-feira, 4 de junho de 2026
Blue my mind
segunda-feira, 4 de maio de 2026
Um certo assassino
Mesmo
sendo um filme do final da década de 1960, as marcas traumáticas dos efeitos da
Segunda Guerra Mundial fazem-se sentir. Abrindo o começo da projeção vemos os
planos gerais de um aterro, um estaleiro isolado e um cemitério. Um cenário que
alegoriza a necessidade de reconstrução a partir dos restos e dos escombros.
Esses
resíduos podem ser vistos socialmente como a máfia, os criminosos comuns e as
prostitutas – o material humano que será mobilizado para a reconstrução de um país
modernos. Porém o universo social no qual a marginalidade trafega é
caracteristicamente ambíguo, influenciado pela pobreza e pelos traumas das
experiências históricas recentes.
Com uma
fotografia “limpa” o filme não investe no visual “noir”, embora possa
ser considerado um representante nipônico do estilo. Embora o jogo de luz e
sombra se faça presente, caracteriza muito mais a representação dos ambientes
centrais e periféricos.
É nesse
contexto que um cozinheiro, ex-combatente (possivelmente um ex-kamikaze),
trabalha como um habilidoso assassino, seus parceiros são uma prostitua e um
membro subalterno da yakuza.
A ganância,
as idas e vindas e o desfecho profundamente melancólico lembram “O tesouro
de Sierra madre” do John Huston de 1948. Ambos são profundamente antimoralistas
embora tenham uma leitura bem cristalina acerca dos efeitos da ganância.
O Kazuo
Mori foi um diretor de estudo que trabalhou com gêneros populares, tais como
ação e filmes de samurais. A movimentação coreografada das brigas entre o
assassino e os criminosos da yakuza revelam os traços desse cinema mais
popular.
Um
certo assassino visita o universo da criminalidade japonesa em um momento
no qual o país tentava uma nova repactuação rumo à modernidade capitalista. Transformar
o lodo em ouro era uma operação dificultosa e ambígua dependente da dialética
entre criminosos e homem de negócios. Um interessante vislumbre das
dificuldades ali vivenciadas.
Cotação:
☕☕☕☕
sábado, 18 de abril de 2026
Anaconda
Anaconda. De Tom Gormican, 2025.
O
filme se justifica apenas pela despretensão e pela vontade de dialogar com estereótipos
inofensivos: losers que não querem ser losers. O humor é
irregular e dependente dos recursos de autoparodia. Uma pilantragem
cinematográfica caracterizada na persona do Jack Black sempre disposto a
interpretar o sujeito mediano em busca da autorrealização (Nacho Libre, Escola
do Rock). Desta vez ele é um trabalhador frustrado do audiovisual que
decide fazer um remake na floresta amazônica.
As
subtramas são frágeis e não levam a lugar nenhum. O filme insiste de forma metalinguística
em sua desimportância, parece ter pouca convicção em revisitar o subgênero “cobra
gigante”. E, por isso, tenta outras amarrações, como o tema da crise da meia-idade.
Na versão original, a fragilidade do roteiro não era objeto de preocupação: o
terror e a ação se intercalavam sem mea culpas. Mas como um produto
perfeito da época em que se vive, a melancolia acaba habitando a nova projeção,
uma vez que todos parecem estar cientes da impossibilidade de o “remake”
superar o original (não que de fato fosse grande coisa).
Os
personagens partem para a floresta amazônica tentando fazer um filme de cobras
gigantes e, eventualmente, são perseguidos por cobras gigantes... Há figuras
vilanescas e astros decadentes que fazem rápidas aparições, mas não esperem muito
das reviravoltas. Elas cumprem a função de aumentar o tempo de projeção abrindo
espaço para gags de gosto duvidoso, como na cena em que o grupo precisa urinar
no personagem de Black. Soa como tentativa de arrancar risadas no ato final.
Como
exercício de metalinguagem cinematográfica Anaconda lembra um pouco Os
picaretas de 1999 (com Eddie Murphy e Steve Martin) e Trovão tropical
de 2008 (com Robert Downey, Ben Stiller e o próprio Jack Black). Esses dois, no
entanto, como comédias bem atualizadas para a época eram orgânicos, buscavam as
risadas a partir de um humor que realmente se propunha a ironizar a indústria
cinematográfica. O atual Anaconda optar por ironizar a autoparódia, em
vez de alfinetar Hollywood.
Alternando
entre o piloto automático e boas sequências, Anaconda 2025 é um ponto máximo do
que a comédia hoje pode nos entregar. Em um mundo no qual tudo está envelhecendo
rapidamente, precisamos acreditar que ainda há juventude em Jennifer Lopez e
Ice Cube que lá atrás aceitaram protagonizar o Anaconda original.
Parece
que finalmente Hollywood está sentindo o peso da idade.
Cotação: ☕☕
quarta-feira, 15 de abril de 2026
Um Salto para a Felicidade
Um Salto para a Felicidade. Overboard. De Garry Marshall, 1987.
Antes do Donald Trump ser uma
verdade havia apenas a vontade do americano médio em ver uma desforra do
caipira contra o elitismo cosmopolita...
Comédia divertida que mostra a reconfiguração
e uma novaiorquina elitista e esnobe que após sofrer uma amnésia se vê forçada
a viver entre caipiras da região do Oregon.
Inicialmente a elitista dama (interpretada
por Goldie Hawn) reluta com a vida de dona de casa, mas acaba descobrindo os
prazeres dos afazeres domésticos, tendo como (suposto) marido um grosseirão boa
pinta e bem intencionado (Kurt Russel).
O filme dá vez a cosmovisão
interiorana, simplória, amigável, sensível, mas um pouco grosseira que ao
receber estímulos civilizatórios externos desponta.
O filme acerta ao mostrar o
desprezo da sociedade norte-americana pelo white trash, isto é, o pobre
branco com baixa escolaridade. Mas acerta mesmo na química – um tanto forçada –
entre Hawn e Russel.
O diretor Gary Marshall já antecipa
alguns motes de Pretty Woman, como o amor pura interclassista. Ao fim e ao cabo
o elitismo novaiorquino precisa aprender com os grosseirões que nada refresca
mais que uma boa cerveja.
Pois é, lá atrás isso era uma
fantasia divertida. A pergunta a ser feita é: quem está rindo agora?
Cotação:
terça-feira, 31 de março de 2026
O que deixamos para trás
O que deixamos para trás. His house. De Remi Weekes, 2020.
Interessante filme de terror-dramático
que apresenta a perspectiva de refugiados sudaneses na Inglaterra. A narrativa
aborda as dificuldades de um casal (que perdeu a filha durante a fuga do Sudão)
em se adaptar à nova vida. Após conseguirem uma autorização provisória para
permanecerem no país, Bol e Rial, são instalados em uma casa na periferia de Londres.
No entanto, a casa parece conter fantasmas e entidades relacionados a um bruxo
africano. São seres que estão cobrando a conta pelas ações anteriores de Bol.
A sensação de isolamento é
ampliada pelo fato deles contarem com pouca boa vontade dos locais, incluindo do
serviço social. Eles sentem-se compungidos a passar uma imagem positiva para os
ingleses, mas são antagonizados pelo preconceito social e racial. Bol, o
marido, parece mais disposto à integração, enquanto Rial lida com seus traumas (intensos!)
de maneira diferente. Mas há algo interno à casa e a eles próprios que os
fragilizam ainda mais – colocando em risco o status de refugiado.
O filme funciona bem como
drama existencial, reflexão intimista dos asilados e até representação do folclore
africano. Mas como terror propriamente dito carece de maior constância. Não é
muito difícil prever o desdobramento e as revelações, bem como antever o
desfecho levemente otimista para vidas que sofreram com a guerra fratricida.
Como bem postula Rial, em um momento de discussão com o marido, ela não teria
medo de “fantasmas”, pois o verdadeiro perigo são os vivos.
Na perspectiva de refugiados
africanos, nada mais verdadeiro...
Cotação: ☕☕☕
domingo, 22 de março de 2026
Maggie: a Transformação
Maggie: a Transformação. Maggie. De Henry Hobson, 2015.
O
filme retrata um futuro pós-apocalíptico no qual um patógeno Necroambulist
virus tem causado impacto mundial, transformando pessoas em zumbis. Wade Vogel,
interpretado por Arnold Schwarzenegger, precisa proteger sua filha infectada e
desenganada.
O
principal objeto do filme é a relação entre Wade e Maggie, um fazendeiro e uma
adolescente interiorana, em um mundo no qual os laços sociais estão se desconstruindo.
Embora os mortos-vivos apareçam em alguns momentos, colocando o filme dentro do
gênero de George Romero, a dimensão de uma dramática distopia é o que prevalece.
Trata-se
de um mundo cinzento e sem esperança, algo recuperado pela própria fotografia. O
vírus não atingiu apenas os humanos, mas animais e plantas. Os fazendeiros
precisam incendiar as plantações, por isso a fumaça espalhada acentuando o
aspecto sem cor. A paleta morta com tons amadeirados também favorece uma
narrativa lúgubre.
O
filme funciona muito bem como metáfora da desestruturação comunitária. As
cidades destruídas e as áreas urbanas abandonadas lembram um contexto de guerra
civil. Maggie, retirada da zona de quarentena por seu pai tem uma percepção apurada
do que está acontecendo não só com ela, mas o mundo. Seu fim – reconhecidamente
prematuro – se aproxima e ela tenta resolver suas questões antes que sua
desumanização se complete. A figura protetora e angustiada do pai, ciente de
sua obrigação quando a transformação se completar, observa o processo com firmeza
inabalável (mas internamente desesperado).
O
filme poderia desenvolver melhor o lore daquele universo, profundamente
promissor. É uma narrativa curta, um cinema independente, que preserva o núcleo
essencial. Nos dias de hoje estaria serializado em diversas temporadas, com inúmeros
cliffhangers.
Está
bem situado entre o terror e o drama. A impressão que fica é que faltou
material para melhor dimensionar esse universo. A relação de Maggie com os
amigos é apresentada de forma sucinta, mas eficaz. Não resvala, nem de leve, no
dramalhão adolescente. A ligação da moça com a madrasta e os meios-irmãos também
funciona, mesmo com poucos elementos.
A
principal falta é a caracterização da ameaça zumbi: como aconteceu e de que
forma foi controlada, se é que o foi. Mas aí, reconheço, seria um filme
totalmente diferente. De qualquer forma, os zumbis aparecem, mas sem destaque.
Com
um desfecho trágico e levemente conveniente, Maggie satisfaz o espectador desejoso
de ver um filme de zumbis em um diapasão mais melancólico.
Cotação: ☕☕☕
domingo, 1 de março de 2026
28 Anos Depois
Excelente
filme para tematizar o populismo e suas bases religiosas, além de abordar a
capacidade de adaptação dos humanos às mais duras situações. No entanto, como
filme de zumbis, é forçoso concordar que não há muita condição de considerá-lo
um... filme de zumbis.
Templos
dos Ossos parece ser mais um arco de conflitos sociais e ideológicos
dentro de uma longa série de zumbis. Assustador e desolador, mas voltado para a
compreensão da lógica humana de dominação. As hordas de motos estão ausentes,
aparecem alguns desgarrados que não são verdadeiras ameaças aos
fundamentalistas religiosos, esses sim, os verdadeiros vilões.
A
contraposição ciência-religião (zumbis são infectados ou são pragas de satanás)
é excessivamente didática e a proposta de uma cura para os raivosos leva o
filme para outro plano de considerações. A trilogia do Danny Boyle não é sobre
mortos-vivos no sentido clássico, mas sim sobre um tipo de raiva que ao pular
dos macacos para os homens gerou o apocalipse na Inglaterra.
De qualquer forma, como um horror angustiante, o filme cumpre bem o propósito.
Cotação: ☕☕☕☕
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026
We bury the dead
Enterramos os mortos. We bury the dead. De Zak Hilditch, 2025.
O filme não convence muito bem com suas premissas: mandar civis resgatar os corpos das vítimas de um experimento militar que podem ou não despertar a qualquer instante. Não são exatamente zumbis, mas também não deixam de sê-los. Afinal, para que mandar os militares limparem os erros deles se há civis despreparados e angustiados para isso...
Em We bury the dead temos que executar um pouco de boa vontade para acompanhar as desventuras de Ava (Daisy Ridley) que decide ir para Tasmânia a fim de recuperar o corpo do marido, vítima de um acidente militar. O problema é que alguns corpos estão voltando à vida e parte deles demonstram sinais de agressividade. Mas Ava tem assuntos não resolvidos e ao invés de pagar um terapeuta de luta (como faria um sujeito normal) decide embarcar em um survive road movie.
É pouco convincente a escolha de cidadãos comuns para isso – sobretudo porque a maioria dos voluntários estão lá para resgatar os corpos de seus familiares. Além disso, não recebem nenhum tipo de treinamento. É um pretexto limitado para justificar a presença de Ava em meio aos destroços de uma ilha inundada por cadáveres.
A metáfora do zumbi como um assunto inacabado é até interessante, no entanto tal temática já foi tratada quase que a exaustão. Em melhor medida podemos citar o livro Handling the Undead (2005) do sueco John Ajvide Lindqvist que, recentemente, virou filme. Há outras séries que abordam essas questões como a francesa Les Revenants (2012) e a inglesa In the Flesh (2013-2014). Isso sem falar em Maggie (2015), aquele filme no qual Arnold Schwarzenegger recusa-se a abandonar a filha em processo de zumbificação.
A direção é bastante irregular, nem sempre conseguindo dar um tom de terror pós-apocalítico. Há pequenas pitadas de humor negro e uma melancolia onipresente que se apresenta na fotografia, fortalecendo assim a ideia de que não são exatamente os mortos que têm assuntos inacabados, mas os vivos que recusam a deixá-los descansar.
Cotação: ☕☕☕














