domingo, 1 de setembro de 2024

Longlegs

Longlegs: Vínculo Mortal (Longlegs), 2024. De Oz Perkins

Long Legs = Pernas longas = Pernalonga? melhor se assim o fosse...

Aquele coelhinho era danado, não? Bem, o nome dele no original não é Longlegs, mas sim Bugs Bunny. Não há ligação, embora quando um caçador enfiava uma arma na toca do Pernalonga e puxava o gatilho a carga acertava, misteriosamente, os fundilhos do disparador. E vejam só, isso faz mais sentido do que toda a baboseirada de Longlegs, supostamente o filme mais assustador de 2024.

Estamos falando de um filme no qual a agente especial Dana Scully, digo a agente especial Lee Harker, com uma intuição acima da média (habilidades psíquicas ao estilo Frank Black, também personagem do Chris Charter) inicia uma investigação sobre o misterioso serial killer mesmo demonstrando sinais de instabilidade psicológica, depressão, síndrome do pânico, isolamento social etc. Mas seu consciencioso chefe decide apostar todas as fichas nos poderes mediúnicos (digo, intuição acima da média) da agente.

Polícia científica? Para quê? Nós acreditamos em ocus-pocus.

O assassino autonomeado como Longlegs, por sua vez, é uma figura tão convincente quanto um quadro maneirista do século XVI. Sim, meus caros, Nicholas Cage está overacting; eliminem as texturas, a boa vontade do público e o marketing e teremos apenas uma canastrice. E de pensar que no passado eu já critiquei o coringa de Heath Ledger...

Ao longo da investigação evidencia-se um elo obscuro entre Harker e o Longpernas, uma situação perceptível até para o nada perspicaz chefe da investigadora. Mesmo assim ele não se perturba com pequeníssimo detalhe, afinal Harker tem poderes intuitivos de decodificar instantâneamente cartas satanistas... coisa trivial que se aprende em um curso de verão.

O suspense policial cede lugar ao terror aumentado as fragilildades da narrativa; com a evocação da figura do diabo (não como psicopatia do sujeito, mas como entidade real) tudo fica fácil para os propósitos da trama... Afinal, uma vez delineado um componente sobrenatural para as ações do serial-killer (algo que apenas Lee Harker admite) torna-se apenas uma questão de tempo ver como os propósitos irão se realizar.

[Não adianta tentar me pegar velhinho, disse o Longlegs]

Os norte-americanos levam essa coisa de tinhoso a sério, pois quando ele entra por uma porta o bom senso sai pela janela. Assim, tudo se torna previsível, pois as tentativas de detê-lo irão apenas fortalece-lo. O demônio surge como a representação do mal absoluto e mesmo aqueles que deveriam pará-lo acabam, de um jeito ou de outro, servindo-lhe.

Desculpem-me se repito, mas vejam só: se o caçador enfiar um rifle na toca do Pernalonga e puxar o gatilho estará disparando em si próprio.

Tão óbvio, mas infelizmente quem está na perseguição do Longpernas NÃO sabe disso.

Cotação: ☕☕

Filme assistido em 25 de agosto de 2024.

sábado, 24 de agosto de 2024

Knightriders/Cavaleiros de Aço

Cavaleiros de Aço (Knightriders), 1981. De George Romero.

George Romero, conhecido por seus filmes de zumbis, nos entrega uma pérola em forma de um filme sobre um grupo de motoqueiros itinerantes que vivem segundo os códigos da cavalaria medieval. Uma apreciação positiva da contracultura aliada à denúncia da conspurcação provocada pela sociedade de massas.

Os motoqueiros precisam seguir Billy, o rei, até que este seja derrotado em uma peleja, mas essa não é uma tarefa fácil, porque além dele ser habilidoso existe o séquito de cavaleiros com a função de defende-lo. Os combates são organizados conforme as justas medievais, eles constroem armaduras e armas e tentam se derrubar para delírio do público provinciano.

Ao chegarem nas cidadezinhas americanas os cavaleiros se tornam a sensação local atraindo tanto entusiastas quanto opositores. Com uma arrecadação espontânea conseguem os recursos para continuar as suas atividades, ou seja, trata-se de um estilo de vida até certo ponto anticapitalista. Mas no interior do grupo dissensos aparecem, uma ala passa a questionar o idealismo do rei propondo uma abordagem mais comercial e com maior publicidade.

[Escapismo ou Idealismo?]

O estilo de filmagem de George Romero valoriza ângulos diferentes sobre as motos, optando por manter uma certa distância, reforçando a perspectiva do espectador com o contraste antigo-novo. O mundo moderno aparece ser um elemento intrusivo na história, pois os cavaleiros motociclistas optam por desafiar o consumismo. As comunidades visitadas pela trupe demonstram pobreza espiritual; caipiras conservadores presos à miséria cotidiana.

A banalidade da sociedade norte-americana destoa dos propósitos elevados do grupo, no entanto não há um consenso sobre o que significa ser um cavaleiro nos dias de hoje. Nesse sentido, o filme dialoga com o ultrarromantismo a partir do escapismo de Billy. Interpretado pelo jovem Ed Harris, o rei dos motoqueiros busca um tipo de transcendência ao qual os seus companheiros não conseguem atingir. Sua melancolia, no entanto, enfatiza a resolução do coletivo em ressignificar a vida moderna de forma alternativa.

A disposição ao sacrifício e ao martírio entregam um personagem depressivo, mas apaixonado por uma causa até certo ponto intangível. Nesse sentido parece ser uma despedida dos últimos lampejos da rebeldia não cooptada. A recusa radical em fazer qualquer tipo de concessão é o ponto de inflexão que coloca não só Billy, mas todo o grupo, em crise existencial.

Quase um filme-manifesto Romero parece mostrar, mais uma vez, a existência dos mortos-vivos. Agora não se trata de monstros decompostos e sim da mediocridade suburbana demarcada no excesso de álcool e fast-food, além da violência doméstica e da religiosidade opressiva. Compartilhando temas comuns com o famoso Easy Rider (1969), Knightriders também aposta nas motos como vetor de fuga dos insubmissos e contestadores rumo à autenticidade da vasta América.

Cotação: 

sábado, 17 de agosto de 2024

The Outlaw/O Proscrito

O Proscrito (The Outlaw), 1943. De Howard Hughes.

Dando continuidade a minha imersão no Western chego a esse “clássico maldito”. Uma história, diríamos hoje, de bromancers, tratando-se apenas da velha e genuína sociedade machista dos cowboys. A história se passa no Oeste bravio com as figuras históricas do xerife Pat Garret e dos foras da lei Doc Hollyday e Billy the Kid em uma perseguição um tanto quanto desconexa.

Doc e Billy integram um triângulo amoroso com Rio (interpretada por Jane Russell), embora o pivô da rivalidade entre eles seja a propriedade do cavalo Red. A valorização do animal em detrimento da bela moça (mencionada como uma “mestiça”) constitui-se em um dos elementos cômicos, pois não é ela a causa da contenda.

Trata-se de um universo no qual a sociabilidade masculina prevalece, mesmo com amizade e inimizade andando juntas. Cabe ao feminino a cozinha, o cuidado e o sexo. Rio revela uma das representações femininas recorrentes na história do cinema: bela, voluvél, imprevisível e insensat, capaz de declarar o amor verdadeiro momentos após a flagrante traição. O cavalo, por sua vez, é sempre leal gerando por isso disputas acirradas.

Rio, relegada várias vezes, vinga-se de seus amantes entregando-lhes ao xerife. Há excesso de reviravoltas que prejudica o desenvolvimento da narrativa. O aparecimento dos nativos Mescaleros, por exemplo, acontece somente para abrir o arco final, uma situação reputada como grave para ser descartada logo em seguida.

[O marketing do filme girou em torno dos atributos físicos de Jane russel].

As atuações e os diálogos são típicos desse cinema teatralizado onde não há intenção de naturalidade. Estamos falando da década de 1940 com dramatização trabalhada por meio de frases de efeito e tiradas inteligentes. Assim, o desempenho de Jane Russel é eficaz sobretudo pela contenção. O filme, no fim das contas, tem sua elegância nos enquadramentos e nas alocações dos cenários externos e internos. A câmera, também, mostra-se atenta para acompanhar os rápidos sacar de armas dos atiradores.

O foco da narrativa desloca-se da ação para os conflitos do grupo destacando mais os aspectos psicológicos do que o bang-bang convencional. A tensão (quase sexual, diriam os amigos da Queer Theory) entre Doc e Billy ancora o conjunto da obra. De fato, em verdade, em verdade, dá para ficar em dúvida se Doc e Billy querem se matar ou se beijar. Já Garret age como um marido traído, não perdoando Doc ter se voltado contra ele. O desfecho alimenta a lenda de Billy the Kid, mas diminui a dos outros dois, sobretudo Garret. O filme, afinal, é uma história de parcerias entre homens, armas e cavalos.

A fraternidade é masculina, mas o amor, puro e platônico, equino.

Cotação: 

Assistido em 16/08/2024.

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

John and the Hole/Um Lugar Secreto

Um Lugar Secreto (John and the Hole), 2021. De Pascual Sisto

Para que eu não me acuse de ser um diletante que fica apreciando filmes de bang-bang dos anos 50 propus-me a ver essa picaretagem sugerida pelo algoritmo de um serviço de streaming.

O olhar a partir do interior de um buraco em direção à superfície, um contra-plongé, pode fazer correspondência com o filme O chamado (2002): a visão da garota Samara atirada pela própria mãe para morrer em um poço. O quebra-luz formado pela tampa do poço gera a ilusão de um anel, daí o título original do filme (The Ring).

Em John and the Hole a perspectiva inferior não encontra um círculo, mas um quadrado. A estrutura do bunker, quatro paredes lisas de concreto escondidas em um bosque, é a prisão da família do garoto John. Esse literal enquadramento parece ser uma metáfora perfeita para o filme – filme que não entrega absolutamente nada, apenas um quadrado vazio...

Depressivo, angustiado e com mais algumas psicopatias a serem arroladas pelos profissionais competentes, John decide escapar da dura vida do 1% atirando papai, mamãe e irmãzinha em um bunker parcialmente construído. Mas acho que ninguém pode reclamar, pelo menos não é um poço e nem há por ali fantasmas de garotas japonesas.

O que há é um excesso de metáforas ruins: a família desagregada e disfuncional, os desejos de morte e autodestruição, as mágoas e os ressentimentos presentificados na lama que passa a cobrir os rostos e as roupas dos prisioneiros. Enquanto a família permance no bunker sem entender as reais motivações de John, este tenta parar o tempo, recusando o amadurecimento e a compreensão dos seus sentimentos, sobretudo a sensação de abandono da figura paterna.

Precisando contar com uma alta dose de suspensão da descrença para funcionar, o filme abusa da boa vontade do espectador ao apresentar um caçula franzino e inapto social, mas com habilidades o suficiente para aprisionar os pais e a irmã mais velha. Tudo isso em um universo no qual a polícia não parece se preocupar com o desaparecimento de gente rica.

As conexões entre narrativa e metáfora me fizeram lembrar do filme Calmaria (2019), porém este é mais ousado ao romper com o realismo em proveito de uma alegoria completa da deterioração familiar. Como um trilher intimista John and the Hole fica no banal, embora tente parecer complexo ao inserir uma micronarrativa aparentemente deslocada de uma menininha a fim de explicitar ainda mais as crises internas do John.

Para um suspense com nuanças de terror o filme fracassa, pois John, embora imprevisível, não é propriamente uma figura ameaçadora. Outro filme que pode ser lembrado é o O Buraco (2001) de Nick Hamm, este também se passa em um bunker, porém com desdobramentos bem mais perturbadores. Isso sem falar do satisfatório O Quarto do Pânico (2002) de David Fincher.

E vejam só! Estou identificando uma ramificação do subgênero “home invasion”, eis o “bunker inavsion”. É um medo legítimo, afinal, qualquer um pode ficar preso em seu próprio bunker.

Cotação

Assistido em 14/08/2024

domingo, 11 de agosto de 2024

The Misouri Breaks (Duelo de Gigantes)

Duelo de Gigantes (The Misouri Breaks), 1976. De Arthur Penn.

The Misouri Breaks dialoga com as transformações socioculturais dos anos sessenta e setenta, bem como a influência do movimento cinematográfico conhecido como Nova Hollywood. O filme é estruturado em torno do gênero Western, a morada do cinema americano, com muitas desconstruções de foco narrativo e de protagonismo.

O filme tende a assumir a perspectiva dos bandidos destacando os laços entre eles. São uma guilda fraterna, amigos que se preocupam uns com os outros. Contra eles está o mundo dos poderosos utililzando-se o discurso da lei e da ordem para cometer suas próprias injustiças. Os grandes proprietários agem hipocritamente; condenando nos atuais bandidos o que eles próprios fizeram no passado.

No filme, o bando liderado por Tom Logan (interpretado por Jack Nicholson) é um grupo marginal dedicado ao roubo de cavalos, mas atraem a antipatia de um proprietário que contrata um temido justiceiro chamado Robert Lee Clayton (Marlon Brando) para matá-los. A tensão construída entre o chefe dos bandidos e o caçador de criminosos dimensiona a narrativa. Não é possível afirmar com certeza onde encontra-se a regra da moralidade, pois Logan e Clayton são disruptivos. A presença deles assegura a impossibilidade de delimitar no Oeste selvagem a seperação entre a civilização e a barbárie.

O personagem de Nicholson é um cafajeste, embora tente ser agradável sua conduta charmosa não esconde a violência. Já Brando entrega um personagem extremamente afetado, um justiceiro que alterna entre o bufão e o assassino frio. Seu personagem poderia ser uma das típicas personas de Klaus Kinski: o janotismo, a privação física-corporal, a violência estetizada e o alheamento ao perigo revelam a paradoxal combinação entre leste e oeste.

O embate entre os dois custa chegar as vias de fato. Lee Clayton mostra-se um sádico com sensibilidade de artista; ele faz questão de mostrar sua “genialidade”, Logan mostra-se dividido e seduzido pela possibilidade de se tornar um simples fazendeiro. Além disso ele se envolve com a filha do fazendeiro que encomendou sua morte, acrescentando novos problemas ao plot.

O filme se passa na região de Montana, nas proximidades do rio Misouri trazendo um visual mais frio que árido. Embora a exploração econômica da região não seja o foco, fica evidente as dificuldades de colonização. O roubo de gado é um dos muitos expedientes empregados pelos foras da lei para sobreviverem. Isso não muda muito em relação ao passado, quando os primeiros colonos massacraram os nativos.

As sequências de comédia física utilizam gags para adocicar a visão do público com os fora-da-lei. O humor suaviza a violência (ainda que ela esteja presente durante todo o filme) recuperando o lado mais anárquico da contracultura. Isso pode ser observado em vários momentos; a inabilidade dos criminosos em roubarem um trem ou cavalos da polícia montada canadense acrescenta puerilidade até certo ponto incompatível com o sisudo lado Western do filme. A liberalidade sexual da personagem Jane Braxton também vai nesse sentido, isto é, são os novos valores que emergem.

Heterodoxo o bastante para desagradar os fãs do gênero, The Misouri Breaks tematiza a corrupção e a lealdade, mas sem os mocinhos costumeiros. Cabe ao anti-herói expor as hipocrisias vigentes do capitalismo em ascensão e denunciar a punição dos pequenos em proveito dos grandes parasitas.

Cotação: ☕☕☕☕

Filme assistido em 11 de agosto de 2024.

sábado, 3 de agosto de 2024

Comanche Station (Cavalgada Trágica)

Cavalgada Trágica (Comanche Station), 1960. De Budd Boetticher.

Eis o cinema clássico com colheradas de inquietações autorreflexivas. Personagens questionando-se quanto ao sentido da existência no Velho Oeste com os vilões relutando em serem vilanescos.

Cody (interpretado pelo veterano Randolph Scott) vive uma busca infrutífera na região dos Comanche atrás de sua esposa raptada dez anos atrás. Em uma dessas andanças resgata uma mulher branca recém-sequestrada, a Sra. Lowe, iniciando o retorno rumo à civilização. Um plot bem simples, mas carregado de camadas e nuances. Os Comanches são antagonistas, mas simplesmente reagindo a ataques recentes.

Cody cruza com um antigo desafeto, Lane, que decide acompanha-lo no intuito de receber a recompensa pelo resgate da moça. Lane e seus dois pistoleiros são personagens ambíguos, indivíduos cinzentos; não podem ser equiparados facilmente aos malvadões do Western. Embora terminem por assumir a posição de vilões, encontram-se abertos a reconsiderações. Advinham, inclusive, seus próprios destinos: em um dado momento Cody pergunta a um dos jovens criminosos se ele estaria ciente de seu possível enforcamento ao que o aprendiz de facínora responde “sim”.

No Oeste não há como fugir dos papeis impostos; o solitário está fadado à solidão; e não obstante o seu respeito aos indígenas não lhe cabe outro destino se não matá-los. Os Comanches, por sua vez, são uma força quase natural. Nos limites do Novo México encontram-se reduzidos a uma provação adicional ao herói. A própria Senhora Nancy Lowe, possivelmente violentada pelos indígenas, regressa com uma sensação de impureza, externando o lugar ocupado pela mulher nesse universo masculinizado.

Mas há inflexões geradas pelos ventos das mudanças. Trata-se de uma das muitas remissões do gênero relacionada ao contexto sociocultural dos anos sessenta nos Estados Unidos. O desfecho, com Cody se voltando para o território selvagem, dialoga com a caminhada de John Wayne no filme Rastros de ódio de 1956. Neste último, o plano de fundo exibido são as formações rochosas do Monument Valley ao passo que em Comanche Station são as belíssimas paisagens de Alabama Hills.

Os dois filmes abordam o resgate de brancas abduzidas por Comanches. Ambos reforçam a moral do homem branco em seu dever civilizacional, mas denunciando a destruição das culturas nativas. Tal revisionismo do gênero – miticamente considerado o fim do Western – seria radicalizado anos mais tarde com um outro filme (talvez o mais potente de todos): Once Upon a Time in the West de Sérgio Leone. Ferrovia e telégrafo finalmente ligam leste e oeste atravessando planícies outrora dominadas pelos nativos-americanos. E uma vez concluída a missão civilizatória, pistoleiro e ranger tornam-se obsoletos e desnecessários. Comanche Station prevê tal situação e dita a possibilidade do “bang-bang” se intelectualizar por meio da autorreflexão.

Cotação: ☕☕☕☕

[Alabama Hills, região muito utilizada nas locações de filmes, aparece em Comanche Station].

[Monument Valley, regitão também utilizada nas locações cinematográficas, aparece em The Searches e Once Upon a Time in the West].

segunda-feira, 29 de julho de 2024

Jogos de Apocalipse

Jogos de Apocalipse (After the Dark), 2013. De John Huddles

Este filme tem um título alternativo, The Philosophers, empregado na distribuição para outros lugares fora dos Estados Unidos. Os norte-americanos não gostam muito desse lance de filosofia e pensamento, portanto faz sentido ficarem com um título genérico: After the Dark.

Valeu a pena? Bem, podemos dizer que o filme é um esforço de abordar as temáticas filosóficas na forma de autoconhecimento. Adolescentes multiculturais estudando em Jacarta e oriundos de elites cosmopolitas enfrentam a prova final de um professor de filosofia cujo intuito é analisar as suas respostas individuais diante do fim do mundo. Porém a filosofia apresentada em classe mostra-se restrita a um exercício individualista e narcisista.

No último dia de aula o sr. Eric Zimit impõe um exame surpresa aos seus estudantes. Eles precisam decidir quem vive e morre com base em ocupações fictícias atribuídas pelo professor. Os eleitos deverão ocupar um bunker no decorrer de um ano com o propósito de salvar a raça humana. Nessas especulações os estudantes precisam tomar decisões e arcar com as consequências de suas escolhas. Tudo no faz de conta, claro.

Ao perseguir com ameaças e ridicularizações um aluno chamado James, o sr. Zimit revela-se como o antagonista. Ele mostra-se irritado com o jovem, aparentando ter sentimentos de rivalidade e de ciúmes. Segundo o professor, James é privilegiado e por isso a pressão na disciplina é merecida. Interpondo-se entre os dois está Petra, namorada de James, mas com uma posição ambígua em relação ao Zimit. Detrás dos esforços argumentativos do professor se escondem as dificuldades diante da perda, revelando uma visão bem oposta a uma moralidade estoica que eventualmente ele poderia emular.

E em meio a esse triângulo amoroso (ops.) somos agraciados com uma verborragia vazia sustentada por um suposto pensamento criativo de um curso de Iniciação à Filosofia Ocidental (ou algo do gênero). Partindo da proposta de imaginar realidades possíveis, a narrativa se complica com a inevitável constatação do elitismo sugerido: a salvação do mundo estaria nas mãos de uma dezena de jovens ricos.

O filme se organiza a partir da dramatização de três cenários apocalípticos com resultados distintos. No entanto, ao enfatizar o caráter pedagógico das realidades imaginadas a imersão em cada uma das histórias perde força. Talvez fosse necessário enfatizar linhas de tempo possíveis ao invés de um tipo de RPG educativo. Assim, nos importamos pouco com o destino dos personagens, pois sabemos que nada daquilo é real.

O filme também soa piegas ao defender com muito bom-mocismo as artes como o melhor antídoto para a destruição do mundo. Afinal, depois da escuridão só restariam os filósofos mirins na obrigação de decidirem entre a lógica ou a ética. Mas parece que nesse exercício a questão do sexo e da sexualidade ganha maior destaque do que a reflexão sobre a miséria e a finitude humana.

Mesmo com uma proposta bem intencionada o filme acaba nos entregando apenas um professor babão e uma garotada narcisista. Pensando bem, acho que o título After the Dark foi a melhor escolha mesmo.

Cotação

P.s.: Por dever do ofício docente filme assistido muitas e muitas vezes; a última delas em 29/07/2024.

segunda-feira, 22 de julho de 2024

Popeye the Sailor Man: Blow me down

📺 História da animação

Blow me down, 1933. De Dave Fleischer.

Excelente animação para resgatar um período de maior liberdade criativa dos desenhos animados nos Estados Unidos – porém menos anárquico do que as produções de anos anteriores. Lançado no cinema pela Paramount como parte de uma série de animações curtas, “Blow me down” traz um Popeye brigão, barra pesada aportando com seu barco baleia em uma cidade mexicana. Derrota facilmente os mexicanos com seus chapéus característicos que insistem em entrar no seu caminho. Chegando a um bar do tipo saloon sai no braço com o chefão-mor, o Blutos, o chefe dos bandoleiros.

O personagem mantém proximidade com sua origem cartunesca, mais caçador de confusões do que herói. Olívia faz as vezes de uma dançarina e não é poupada pelo Popeye que ri de suas atrapalhadas. As caricatas representações dos mexicanos nos informam a generalização do estereótipo dos faroeste. A influência do cinema também é perceptível na simulação de um ângulo de câmera alto, quando Popeye sobre as escadas para salvar Olívia, uma solução narrativa bem original.

O estilo dos irmãos Fleischer (1933-1942) é mais seco e objetivo do que a tradição rival inaugurada por Walt Disney. A paleta em preto e branco produzida pela técnica do desenho a mão revela um traço livre da emulação do belo e fiel ao antigo formato de cartoon impresso. Com presença de elementos non-sense (algo comum no período), utiliza as gags visuais como fonte de comicidade. O foco, no entanto, está dado na sucessão de conflitos entre Popeye e o mundo. Torna canônico este episódio a famosa música “I'm Popeye the Sailor Man”, além da bublagem do marinheiro realizada por Willian Costelo.

A força do marinheiro encrenqueiro aparece em várias metonímias e metáforas, enfatizando sua força física: símbolo de outra época e mentalidade. O uso do cachimbo para consumir fumo (algo minorado em períodos posteriores) e de bebida alcóolica revelam outras concepções do adequado à audiência infantil. Nesse momento o personagem estava mais para o bad boy do que para o nice guy.

De fato, esta curta animação (6m19s) pertence a uma das fases mais criativas da franquia Popeye. Rever o episódio é um estímulo para o resgate de uma história do desenho animado.

sexta-feira, 19 de julho de 2024

Sadako vs. Kayako

Sadako vs. Kayako (貞子 vs 伽椰子), 2016. Japão. De Kōji Shiraishi

Sadako mata todos aqueles que assistem uma fita de VHS e Kayako todos os que entram em sua casa. O que aconteceria, porém, se alguém assistisse a fita na casa de Kayako? Adianto que não temos nenhum confronto de gigantes fantasmagóricos, pois o encontro entre as duas  criaturas simplesmente não convence.

O Chamado e O Grito foram apropriações das versões japonesas baseadas, por sua vez, em livros e mangás. Elas até exibem mais frescor e originalidade, porém são menos assustadoras do que as adaptações norte-americanas, com um maior esmero gráfico e visual. A versão de O Chamado de Gore Verbinsky, por exemplo, vale-se de uma ambiência aflitiva e de um horror construído no detalhe, ou seja, em toda a mise-en-scène. Por sua vez, as produções japonesas mostram-se desatentas à construção do universo fílmico.

Sadako vs. Kayako propõe um crossover das duas entidades, porém o filme enfoca mais o arco da primeira do que da segunda. Kayako e a criança Toshio (outro fantasma amaldiçoado) aparecem poucas vezes em uma trama paralela bem pouco convincente. De certa forma, o filme é da Sadako com uma ponta de Kayako.

A trama em si é desinteressante e dada a falta de desenvolvimento dos blocos de sequência resta apenas a sucessão de sustos e mortes de personagens secundários (colocados ali só para morrer mesmo). Tudo muito preguiçoso, preâmbulo para o confronto derradeiro entre as duas japonesinhas fantasmas.

No entanto, o embate final decepciona, tremendo anticlímax. Tudo ocorre muito rápido sem as preocupações de explorar as similitudes e as diferenças entre as duas maldições. O desfecho pode até ser aceitável por se tratar de um filme de terror, mas fica a sensação de que após 98 minutos nada de relevante foi exibido. Se havia alguma boa ideia nessa produção, ela não passou do título.

Assistido em 14/07/2024.

Cotação

sábado, 13 de julho de 2024

Retorno da Lenda

Retorno da Lenda (Old Henry), 2021. De Potsy Ponciroli

Hoje fala-se muito em representatividade, é preciso ter cota para tudo; as mulheres, inclusive, devem aparecer na telinha de projeção como fortes e empoderadas. Em caso contrário a crítica não perdoará. Então como explicar Old Henry que conta apenas com atores masculinos? Simples, o filme se apropria da tão propalada ideia de “toxcidade masculina”. Quer dizer, se deixados à própria os homens se brutalizam, engolem seus sentimentos, agridem-se mutuamente e fazem xixi na cama...

Desprovidos de lealdade e racionalidade eles encontram fadados a um ciclo de violência. Assim, quando um homem ferido aparece na porta de Henry McCarth, este reluta em ajudar o desconhecido, pois sua preocupação maior é com o filho, o jovem Wyatt. A história vai se complicando à medida em que o velho Henry precisa decidir entre abandonar o desconhecido de nome Curry – que pode ser tanto um xerife quanto um fora-da-lei – ou enfrentar o bando que almeja captura-lo.

O mundo masculino é brutal e o fazendeiro Henry traz em seu corpo a gestualidade de um passado de violência e rudeza. Seu jeito austero esconde, na verdade, um pistoleiro temido e procurado, algo que nem seu filho imaginava.

Empregando enquadramentos longos e médios a fim de mostrar a tentativa dos personagens se esconderem na natureza, o filme opta pela estilização em detrimento da verossimilhança. Com uma fotografia limpa e em tons pasteis a projeção contrapõe o modo de vida solitário e brutal do universo masculino com uma natureza que poderia ser apropriada de forma mais criativa. Assim, carcaças de aves depositadas sobre uma mesa indicam o tipo de civilização construída naquele meio e por aqueles personagens. Do mesmo modo, um pássaro entalhado na madeira é a oportunidade perfeita para um disparo a sangue frio.

Destoa desse universo o jovem Waytt em seus questionamentos sobre a escolha do pai por tal modo de vida. Com sentimentos e ambivalências mais profundas ela se conecta à figura da mãe falecida. Apontando para um modelo de conduta que não é masculino – embora ele tente se apropriar dos códigos de virilidade reinantes – Waytt busca uma alternativa para aquele espiral de aridez e violência. O confronto geracional introduz o elemento de desequilíbrio dramático.

Henry McCarthy, por sua vez, é uma figura poderosa demonstrando a perícia dos homens do bang-bang. Contudo, seu deslocamento denuncia o beco sem saída das privações e provações do lugar físico e simbólico do Oeste. Os cowboys e pistoleiros precisam desaparecer. Novamente anunciando um fim para o faroeste clássico, Retorno da Lenda é mais um episódio da “volta dos que não foram”.

Morte aos machões e que venham os rapazes repletos de expressividade. Na narrativa do filme tal temática se encarna no abandono do universo de violência por meio de uma lenta marcha rumo à costa leste. Deste modo, a metáfora inicial da narrativa, dar restos dos porcos aos próprios porcos, recobre todo o sentido ao sugerir uma relação canibalista e autodestrutiva da qual o Western tem dificuldades de se afastar. Mas é esse deslocamento diante das obsolescências que permitirá a chegada do novo.

Um argumento, uma aposta. Está aí. Compre-a quem quiser.

Cotação: 

quinta-feira, 4 de julho de 2024

O Protetor


O Protetor (The Equalizer), 2014. De Antoine Fuqua

Tudo bem, eu reconheço elementos do traço autoral do diretor Antoine Fuqua: apreço pelos personagens ambíguos, ou seja, os sujeitos situados nos limiares da bondade e da maldade. Isso pode ser visto no infame Dia de treinamento (2001) ou n'Os Sete magníficos (2016).

Há, também, uma preferência por heróis, anti-heróis ou, ainda, anti-vilões (personagens cujos propósitos e métodos positivos resultam no mal). Uma visão acrítica da história recente dos Estados Unidos e a busca pelo paladino perfeito disposto a fazer o trabalho sujo necessário completam o pacote: cosmovisão pautada em um tipo mais sofisticado de maniqueísmo.

Particularmente não aprecio.

Mas em O Protetor a construção minimalista do personagem Robert McCall tem seu valor. Um indivíduo bondoso cujas memórias muscular e emocional clamam por situações violentas. Tentando se passar por um simples funcionário de uma loja de construção ele oferece uma ordem ao mundo caótico com conselhos clichês e violência, por vezes, desproporcional.

Coach de dia e Batman de noite. Olha que estávamos em 2014...

O diretor Fuqua gosta da violência visceral, dos conflitos nas ruas, das espreitas e dos regimes de autoridade que prevalecem em paralelo, as leis escritas e as das ruas. O personagem de Denzel Washington não se importa em aceita-las ou confrontá-las, mas sempre conforme a conveniência de sua situação.

Mas é uma construção muito interessante, os TOCs, o estado de constante espera, o método de autoaperfeiçoamento – Robert McCall é uma arma aguardando a ocasião perfeita para ser colocado em ação. Antes de liberar todo seu potencial de justiceiro (ultrapassando sua atuação mais contida de vigilante) McCall necessita do aval do mundo da lei, de um representante do governo ainda que de forma oficiosa.

[A obsessão em orientar e proteger as prostitutas: quase um vício dos vigilantes noturnos. Está tudo certo, eles também são voyeurs.]

Nesse sentido, trata-se de um personagem extremamente conservador. Uma moralidade hipócrita assemelhada às figuras do Juiz Dredd da Marvel e do Morcego da DC. A referência ao universo dos quadrinhos não é despropositada pois o quadrinhesco faz parte da composição de O Protetor.

Um ótimo personagem em um universo ficcional cínico, calculista e violento. Mas mesmo com esse conjunto, ou talvez por isso mesmo, a trama se desenvolve de forma infantil naturalizando expedientes quase mágicos, dependentes de um frágil senso de realismo .

O filme poderia ser mais maduro, exaurindo a ontologia do protagonista e a compreensão de suas ações. Sua vinculação é de fato com a justiça ou com a nostalgia por uma suposta ordem social do passado mítico fundamentada na violência dos bons? Os cowboys solitários não existem já faz muito tempo.

Mas aí eu estou saindo do lugar do resenhista e entrando no restrito patamar do roteirista e argumentista.

Não dá para ser juiz e executor ao mesmo tempo. Disso, até eu mesmo sei.

Cotação: 

sábado, 29 de junho de 2024

Desespero Profundo

Desespero Profundo
(No Way Up), 2024. De Claudio Fäh

Uma ideia interessante na cabeça (de vento).

Vamos fazer um filme claustrofóbico? Mas tem que ser desastre! Um avião em queda! Um avião em queda submergido na água! Sobreviventes dentro de uma bolha de ar no avião precariamente equilibrado no precipício subaquático! Aos poucos o avião se afunda rumo ao abissal profundo. Acho que está inviável o suficiente para que alguém escape com vida, mas que tal se colocarmos tubarões famintos invadindo o avião?

Hey! Not Snakes! But Sharks on the plane!

Um pouco de catástrofe, um pouco de suspense. Convenhamos, o filme certamente é um desastre aéreo. Várias leis da física e do senso comum quebradas. Suspenda a descrença e talvez você possa se divertir com história de um avião dentro d’água e a consequente e enfadonha luta rumo à superfície do autoconhecimento... Personagens unidimensionais interpretados por atores monocórdicos.

[Vai dar trabalho nadar de volta à superfície heim?]

O efeito de totalidade e a possibilidade de roer as unhas (não importa o absurdo) é útil para lembrarmos o amor que temos pelo cinema. O roteirista deve ter desafiado a si próprio em criar uma situação na qual não fosse possível tirar os personagens com vida (ou com os tímpanos estourados por causa da pressão). Aí ele nos aparece com uma solução frouxa e chocha, risinho amarelo entre os dentes.

Mas não dá para reclamar, o avião cai praticamente inteiriço no oceano criando um safe space para meia dúzia de escolhidos. Aviso do comandante da cabine: atenção espectadores, toda picaretagem poderá ser recompensada no reino de deus... deus o Poseidon.

Olha ele aí de novo, de novo não. Agora é um avião. Bem, eles se reinventam...

Cotação: ☕

terça-feira, 25 de junho de 2024

O Regresso


O Regresso (The Renevant), 2015. De Alejandro Gonzáles Iñárritu

Embora o tema principal seja a vingança é inegável como a dimensão da violência ganha destaque em O Regresso. O filme demonstra como a relação entre natureza, animais e pessoas comporta uma atrição: choque entre o meio e as civilizações. O resultado é a dor inscrita nas peles, nos corpos e até nas pedras.

Dessa vez, uma situação de fronteira expressa não no oeste, mas no norte selvagem em direção ao Canadá. O que temos não é o terreno árido e desértico, mas a floresta temperada, densa, fria, abundante em alimentos e repleta de animais ferozes. Em alguns momentos, até os nativos são representados como forças da natureza. Em suma, um filme sobre aventureiros, desbravadores, gente gananciosa e terrível.

A narrativa acompanha a trajetória de Hugh Glass deixado para morrer na floresta após o ataque de um animal selvagem. Ele sobrevive arrastando-se por centenas de quilômetros a fim de se vingar do homem que o abandonou. Glass mostra-se capaz de enfrentar as maiores provações devido ao seu conhecimento sobre a natureza. Um personagem verossímil por ser um “produto” típico desse mundo muito além da civilização.

Os próprios antagonistas escapam da mecânica maniqueísta, pois a brutalidade faz parte daquele modo de vida comum a todos. No limite nem bons e nem maus, apenas seres desesperados em luta pela sobrevivência. A frase dita por um dos personagens “Deus é um suculento esquilo” ilustra o nível mais imediato de existência no qual a realidade paira na preservação da frágil corporeidade humana contra a brutalidade do mundo externo.

A perspectiva filosófica do filme implica no quão pequeno é o homem no quadro da vida ressaltando a pouca importância da vingança. Homens matam-se o tempo todo sejam anglo-americanos, franco-americanos ou nativos-americanos. Enquadramentos da moralidade podem revelar-se, por isso mesmo, mesquinhos e inócuos.

Capaz de perscrutar outras dimensões da realidade (transes ou delírios?) Hugh Glass é tanto agente como produto de um mundo em destruição. Não seria exagero comparar este filme com o posterior O Homem do Norte acerca da saga de vingança de um viking. Estamos falando de proximidades temáticas: natureza opressora, sociabilidade cruel, arcos de vinganças e flertes com uma fuga da realidade por meio do hiper-realismo estetizado. Sobressai-se em O Regresso (e nesse sentido ele é único) a sua capacidade de compor um quadro tanto mítico quanto naturalista. Eis o olhar da câmera que vai da natureza para a corpo e da ferida para a expiação.

Neve e sangue constituem-se em par reconhecedor da provisoriedade da vida. Todo derramamento e trasbordamento acabam absorvidos por uma natureza eligida por meio da destruição. Afinal de contas, ali é a fronteira; e lá os homens não têm valor nenhum.

Assisti em 23/06/2024

Cotação: ☕☕☕

sábado, 15 de junho de 2024

Aloners

Aloners (Honja Saneun Saramdeul), 2021. De Hong Sung-eun

Um filme essencial para apreendermos a lógica da sociedade pós-moderna em suas contradições – um mundo de tecnologia que convive com fantasmas depressivos e reflexivos. A história focaliza o cotidiano solitário e sem alegria de Yu Jina, a atendente de call center misantropa que precisa treinar uma nova funcionária. Jina acabou de perder a mãe e encontra-se em um processo de luto delicado no qual ela nutre suspeitas e relutâncias em relação ao seu pai em um processo de transferência de culpa.

A solidão e o hiper-individualismo são desdobramentos de uma sociedade precarizada (empregos ou subempregos destituídos de sentido) com indivíduos gastando suas vidas em frente às telas. O egoísmo aparece, portanto, como a forma mais sensata de sociabilidade. O acidente ocorrido no apartamento vizinho de Jina (uma pilha de pornografia desabou e matou o rapaz soterrado) evidencia a condição insalubre da grande cidade. Nasce mais um fantasma na cidade, assombrando, antes de tudo, a si mesmo.

Assim, fantasmas rondam à cidade evocando o medo da solidão: vida e morte solitárias. A cidade com sua multidão é o lugar de vazio, aporta-se aí a contradição do mundo pós-moderno. Na visão retangular prevalece o novo recorte da vida: telas de celular e televisão, janela do ônibus e estação do trabalho. Cubículos e bolhas que servem de proteção e afastamento esvaziando todo o sentido de sociabilidade.

A visão de Yu Jina é estreita: não consegue ver nada além dos pequenos retângulos que emolduram sua vida. Seu olhar apreende apenas o que é imediato; assim, a câmera focaliza as imagens pelos retângulos, isto é, sempre uma visão que corta a totalidade, mantendo-se em um nível de egoísmo primário. Esse tipo de enquadramento é literalmente um quadrado, quer dizer, um recorte muito reduzido da realidade que traduzido por uma fotografia em tons acinzentados.

[O recorte retangular da experiência moderna]

Em suma, Aloners traduz para o cinema aquilo que o sociólogo Byung-Chul Han identificou como uma característica das sociedades capitalistas modernas avançadas. As pessoas são cobradas a ter uma positividade mesmo com a desolação do entorno. A autoexpiação liga os vivos e os mortos vinculando Jina ao fumante melancólico. Os fantasmas que esgueiram nas imagens de câmeras ou nos corredores dos prédios de solitários aparecem como uma confirmação enfática de uma crise que é, antes de tudo, existencial.

Cotação: ☕☕☕☕☕

terça-feira, 11 de junho de 2024

Cléo das 5 às 7


Cléo das 5 às 7
(Cléo de 5 à 7), 1962. De Agnès Varda

As cores estão nas cartas, nos presságios, não na vida na qual há suspensão das certezas. O afoitamento da doença e o enigma do cotidiano.

Cleo passa algumas horas esperando o resultado de um exame e nesse sentido sua relação com a cidade é de espera e de ansiedade. O deslocamento pelo ambiente urbano demonstra a força da vida, mas ao mesmo tempo o alheamento pela multidão aos seus dramas individuais. Passando por cafés, lojas, transporte público e parques Cléo lida com a incerteza com seu fluxo de pensamentos revelando a inconstância e a angústia.

Mas Paris paira soberana, com seus códigos e ritmos. Os elementos da cidade podem ser interpretados pela personagem como oráculos, ordálios cujos sinais sutis antcipam o futuro. O filme começa exatamente nesses termos, com a visita a uma cartomante. Mas diante de prenúncios insatisfatórios, a sua busca de revelações continua. Desse modo, situações casuais são tomadas por Cléo como indícios de algo possivelmente negativo que irá se revelar no fim do dia.

A fotografia (restaurada) é belíssima, espelhando a cidade em várias superfícies: vidraças, espelhos, fontes d’água, automóveis e janelas. Os travellings conduzem o olhar do espectador por Paris na perspectiva da personagem. Andar pela cidade, no entanto, pode ser uma fonte de distração, mas não de amparo. Cada rua é um microcosmos com diferentes personagens aos quais suas histórias de vida não podem ser absorvidas por Cléo. Mas esse anonimato sempre será uma via de mão dupla.

A narrativa coloca-nos no lugar de Cléo tensionando a superficialidade da personagem (uma moça vaidosa) a partir dos impactos filosóficos da existência. Revela-se, assim, um traço característico da Nouvelle Vague: cineasta Agnès Varda traz as implicações da finitude para o horizonte de uma jovem mulher. A conflitualidade decorrente de tal situação reverbera na cidade que apesar de tudo mostra-se magnifica . A sensação de solidão é persistente – quando sofremos, sofremos sozinhos – só atenuando-se no arco final quando Cléo encontra um soldado a espera de ser enviado para o conflito na Argélia.

Assim, as duas pessoas que têm a morte como uma possibilidade podem romper as amarras contra a incomunicabilidade e construir um elo em comum. É na humanidade, portanto, e não na cidade que há respostas para a superação da iminente mortalidade. Não há para o casal outro caminho além de confiar no laço recém constituído. Basicamente, a filosofia entra na narrativa fílmica pela temática da morte se resolve com as garantias oferecidas pela amizade e afeto.

Cotação: ☕☕☕☕☕


sexta-feira, 31 de maio de 2024

Abigail

Abigail, 2024. EUA. De Tyler Gillett, Matt Bettinelli-Olpin

Poderia ser mais claustrofóbico, menos inusitado, menos preguiçoso, mas ainda é engraçado.

Bandidões da pesada são incumbidos de sequestrar uma garotinha chamada Abigail, mas as coisas não saem exatamente como deveria já que a mocinha, bem, podemos dizer que ela não é exatamente uma mocinha. Acho que não é novidade para ninguém que os filmes de vampiros se tornaram autorreflexivos...

Inclusive, há um conto de Stephen King chamado “Popsy” sobre uns desavisados que sequestraram o neto de um morcegão. Muito fácil encontrar a associação entre o conto e o filme, ressalvando que Abigail não precisa da ajuda para descer o terror nos incautos. Há um momento no qual uma televisão exibe um episódio de cartoon chamado Pantry Panic (1941) em que um gato famélico tenta comer o Pica-pau, mas este também tem planos de papar o bichano. Bem, é com esse tipo de obviedade que estamos lidando.

O jogo de gato e rato (gatos e morcegos?) sustenta as premissas e a narrativa contanto com citações sobre vampiros e um humor engraçadinho. Devido às várias dicas dadas desde o início, não seria preciso um Sherlock pra intuir sobre a armadilha à espreita. Mas os personagens são bons para o humor ácido e não para o exercício do tutano.

A personagem título ganha a presença de cena no momento adequado, arrebatando seus adversários na ordem certa: dos menos aos mais interessantes. Assim, merecem destaque Joey, a responsável por cuidar da "garotinha", e Frank, o chefe da equipe. Eles precisam liderar os sobreviventes no momento em que o embate com vampira se desnuda. Embora haja sustinhos convenientes, o clima terrir dá a tônica com um ritmo que impede o espectador de ver as pontas soltas do roteiro.

Comicamente a história se sustenta, mesmo com personagens tão desinteressantes que na prática tanto faz torcer pela Abigail ou pelos sequestradores. A metáfora sugerida de ratos x morcegos é válida, afinal, todas elas merecem a dedetização e se entrarem em briga confesso que torço pela briga...

Ficou com dó? Leva para a casa uai... Cotação: ☕☕☕

Observação: O conto do King pode ser conferido no livro Pesadelos e Paisagens Noturnas. V.1

Shin Gojira


Shin Gojira
, 2016. Japão. De Hideaki Anno

O tom nacionalista de Shin Gojira (2016) passou despercebido: uma história sobre a reorganização militar do país a fim de superar as adversidades. Estas podem até ser os desastres naturais, mas a questão nuclear é o ponto inegável.

A abordagem é a política e não a história dos Kaijins em si; nem mesmo o cinema catástrofe domina a projeção. Trata-se da articulação política dos médios escalões do governo para impedir a perda de autonomia do país perante a comunidade internacional ou dos Estados Unidos.  Assim, uma mobilização para destruir a criatura que apareceu no território japonês e salvar vidas choca-se com a hesitação dos políticos convencionais e dos interesses internacionais. Trata-se, portanto, de defender a revitalização do Japão com a substituição da engessada burocracia por uma geração legitimada pelo mérito. A hierarquia e a respeitabilidade tradicionais são entraves à modernização – um mote discursivo que se repete por lá. Quando o mostro emerge, a sequência das decisões tomadas em reuniões regidas por uma pompa e um protocolo denunciam o imobilismo a ser superado pelos “modernos”.

O filme defende as premissas da maioridade do Japão e da sua saída da autônoma em relação dos Estados Unidos. Isso dito de forma explícita e didática, muitos diálogos, inclusive, são pronunciados para a câmera como a preleção de um professor diante da turma. Trata-se de um filme educativo que propõe o rearmamento da nação nipônica, mas tudo com a dita responsabilidade pois a própria arrogância imperial é lembrada.

O filme peca por esse excessivo empreendimento moral, tornando o mostro e mesmo o desastre aspectos quase acessórios. Os personagens são rasos e unidimensionais, estão ali para pensar a melhor solução para o país com uma abnegação típica de propaganda de guerra. Por tomarem decisões a uma distância considerável do monstro, o próprio perigo que correm é reduzido, embora haja, naturalmente, os sacrifícios e as expiações da rodada.

Além disso as cenas de destruição e do próprio monstro são apenas razoáveis. Há um aspecto retrô da criatura, bem em conformidade com um ideário político em si controverso. Os estereótipos japoneses são mostrados a exaustão revelando um filme antigo em roupagens hodiernas.

A representação dos norte-americanos é ambivalente, de um lado são apresentados como autoritários e com exigências exclusivamente favoráveis aos seus próprios interesses, mas, do outro lado, confiam aos japoneses uma solução própria. As menções aos ataques de Hiroshima e Nagasaki ocorrem mais de uma vez e o trauma do ataque nuclear paira durante toda a narrativa. A fim de evitar o pior, Estado e nação precisam da harmonia de modo que modo que o novo e o antigo possam ser integrados.

Enquanto isso, Godzilla vai se movimentando e cientistas, políticos e militares precisam conter seu avanço sobre Tóquio. Depois dos desarranjos iniciais criados pela paralisia política uma resposta técnico-militar é fabricada e colocada a prova. O sucesso dessa empreitada vai garantir a autonomia do país evitando, assim, sua invasão pelos estrangeiros. Os olhos dos Estados Unidos e da Europa estão voltados para a terra do sol nascente, já Rússia e China são colocadas de lado com uma certa suspeição.

A ideologia nacionalista e militarista não são propriamente novidades no Japão, mas esperamos que assim como o Gojira elas continuem adormecidas.

Cotação: ☕☕☕


sábado, 25 de maio de 2024

Miss Zombie

Senhorita Zumbi (Miss Zombie), 2013. Japão. De Yoshiki Kumazawa e Satake Kazumi.

"Devemos ter medo dos vivos, não dos mortos". Essa é uma frase que resume grande parte dos filmes de zumbis. Fido, Warm Bodies, Zombie plage são algumas das associações as quais não me esquivo em fazer.

Filme perturbador. Uma leitura sobre a morte como um estado de perpétua dor e tristeza. A exploração transcende até o pós-vida com o emprego de uma mulher zumbi para a realização de atividades domésticas. Como é de praxe as coisas saem do controle e dessa vez não estou falando de um apocalipse ou surto epidêmico; temos aqui a boa e velha cupidez do ser humano com forte ênfase sobre a violência do patriarcado. Algo do tipo: “Olha, um zumbi, vamos violenta-lo? É seguro, confia!”

Há um subtexto sobre a exploração dos imigrantes, mas subsumido pela temática de uma vivência aristocrática dentro de uma família comandada por um médico insensível. A desumanização do zumbi, como metáfora do estrangeiro, dá o impulso necessário à trama com a tematização do preconceito, da vida precárias e da violência sexual. O filme ingressa no terror pelo sofrimento de Shizuko, a esposa atenta para conduta libidinosa do marido. Além disso, seu filho, Kenichi, acaba se aproximando da criatura ao ser salvo de um acidente potencialmente fatal.

O filme vai constituindo uma cultura necrófila com constantes violações perpetradas contra a moça zumbi. Alguém aí se lembra de “Dogville”? Lar von Trier é você que está aí meu filho?


[Logo acima Nikole Kidman em Dogville, e mais ao alto Ayaka Komatsu em Miss Zombie, as semelhanças são maiores do que o esperado]

Além disso, a casa a qual a Miss Zumbi serve possui uma arquitetura lúgubre e semelhante a uma paisagem tumular. As construções parecem monumentos mortuários, aspecto reforçado pela fotografia preta e branca com gradações fugidias e contrastada por meios tons e pelos jogos de sombra. A luz do sol não consegue atravessar as nuvens opacas realçando o conflito entre o mundo dos vivos e dos mortos. À noite a ambiência torna-se mais desolada. Algo entre uma sepultura reaberta e uma favela terceiro-mundista.

O desenvolvimento da história apresenta furos, a comunidade adapta-se rapidamente a presença da zumbi. Todo modo, a verosimilhança construída é o suficiente, pois o plano geral consegue combinar o horror das relações familiares adoecidas com a proscrição e abandono imposto a alguns seres. A partir desses elementos entende-se a promiscuidade entre os vivos e os mortos.

Cotação: ☕☕☕