terça-feira, 30 de junho de 2026

Pecadores

Pecadores. Sinners. De Ryan Coogler, 2025.

Parte de uma nova fase do cinema negro, Pecadores ecoa as atuais preocupações dos cineastas em representar questões sociais por meio do terror. Embora os filmes não sejam exatamente obras-manifestos, em muitos casos mostram-se reflexivos em relação aos dilemas enfrentados hodiernamente. A escolha do terror parece ser propícia por agudizar de forma mais ou menos didática inquietações coletivas.

domingo, 21 de junho de 2026


Os Tradutores
. Les Traducteurs. De Régis Roinsard, 2019.

Excelente filme que faz a brincadeira de gato e rato típica das histórias policiais. Os Tradutores dialoga tanto com as narrativas policiais quanto com as histórias de bastidores do mundo da arte.  A questão da fetichização da obra e da autoria mostra-se o eixo principal da narrativa.

sábado, 13 de junho de 2026

Os curados


Os curados. The Cured. De David Freyne, 2018.

Lúbugbre, triste e com poucas possibilidades de escapes.

O filme aborda o tenso processo de adaptação dos infectados pelo vírus Maze à vida civil em um cenário pós-apocalíptico no qual o caos não se extinguiu por completo. Produzido e filmado na Irlanda, o projeto parece metaforizar traumas como os conflitos entre o IRA e o Reino Unido, o 11 de Setembro e a própria xenofobia contra minorias étnicas. Porém há uma atualização histórica no que se refere ao populismo de direita.

sábado, 6 de junho de 2026

Obsessão

Obsessão. Obsession. De Curry Barker, 2026.

Meninas, não confiem nos garotos! Bruxos ou mágicos suas varinhas sempre vão falhar. Este é, pelo menos, o andar sub-reptício desta narrativa na qual o pobre rapaz perseguido é o perseguidor! Spoiler? Não, apenas uma tendência cultural contemporânea.

Como lidar com o terror que se abre ao masculino dos dias de hoje? Haverá ainda a legitimidade para um filme no qual um homem seja a vítima? Ou devemos tomá-lo como o eterno vitimizador?

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Blue my mind


Blue my mind
. De Lisa Brühlmann, 2017.

Uma garota de 15 anos entra na adolescência virando um peixinho... Sim, Blue my mind não nos poupa da trivialidade metafórica de amadurecimento como processo de aceitação da "monstruosidade".

Antes uma goldenfish de aquário, depois uma linda sereia.

Entre o horror body movie e o teen movie somos presenteados com o drama de Mia, a menina suíça que tem pacto com o oceano. A descoberta de sua sexualidade exuberante se dá em um ambiente nada propício a isso: a toxicidade grassa horrores nas escolas do Uncle Switzerland. Ser adolescente não está fácil para ninguém.

Com uma bela fotografia em tons frios e azulados, mas com uma narrativa lenta, o filme é medroso ao explorar as dimensões horríficas da narrativa. Há alguns flertes com o horror, mas é o drama juvenil que dá o tom; e quando ele se abre para os elementos do fantástico é para facilitar o desfecho.

O filme argumenta que cada mulher precisa aceitar a sereia dentro de si, esfregando sua longa, longa, longa barbatana na cara da sociedade.

Cotação: ☕☕

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Um certo assassino

Um certo assassinoAru koroshi ya. De Kazuo Mori, 1967. 

Mesmo sendo um filme do final da década de 1960, as marcas traumáticas dos efeitos da Segunda Guerra Mundial fazem-se sentir. Abrindo o começo da projeção vemos os planos gerais de um aterro, um estaleiro isolado e um cemitério. Um cenário que alegoriza a necessidade de reconstrução a partir dos restos e dos escombros.

Esses resíduos podem ser vistos socialmente como a máfia, os criminosos comuns e as prostitutas – o material humano que será mobilizado para a reconstrução de um país modernos. Porém o universo social no qual a marginalidade trafega é caracteristicamente ambíguo, influenciado pela pobreza e pelos traumas das experiências históricas recentes.

Com uma fotografia “limpa” o filme não investe no visual “noir”, embora possa ser considerado um representante nipônico do estilo. Embora o jogo de luz e sombra se faça presente, caracteriza muito mais a representação dos ambientes centrais e periféricos.

É nesse contexto que um cozinheiro, ex-combatente (possivelmente um ex-kamikaze), trabalha como um habilidoso assassino, seus parceiros são uma prostitua e um membro subalterno da yakuza.

A ganância, as idas e vindas e o desfecho profundamente melancólico lembram “O tesouro de Sierra madre” do John Huston de 1948. Ambos são profundamente antimoralistas embora tenham uma leitura bem cristalina acerca dos efeitos da ganância.

O Kazuo Mori foi um diretor de estudo que trabalhou com gêneros populares, tais como ação e filmes de samurais. A movimentação coreografada das brigas entre o assassino e os criminosos da yakuza revelam os traços desse cinema mais popular.

Um certo assassino visita o universo da criminalidade japonesa em um momento no qual o país tentava uma nova repactuação rumo à modernidade capitalista. Transformar o lodo em ouro era uma operação dificultosa e ambígua dependente da dialética entre criminosos e homem de negócios. Um interessante vislumbre das dificuldades ali vivenciadas.

Cotação: ☕☕☕☕

sábado, 18 de abril de 2026

Anaconda

Anaconda. De Tom Gormican, 2025.

O filme se justifica apenas pela despretensão e pela vontade de dialogar com estereótipos inofensivos: losers que não querem ser losers. O humor é irregular e dependente dos recursos de autoparodia. Uma pilantragem cinematográfica caracterizada na persona do Jack Black sempre disposto a interpretar o sujeito mediano em busca da autorrealização (Nacho Libre, Escola do Rock). Desta vez ele é um trabalhador frustrado do audiovisual que decide fazer um remake na floresta amazônica.

As subtramas são frágeis e não levam a lugar nenhum. O filme insiste de forma metalinguística em sua desimportância, parece ter pouca convicção em revisitar o subgênero “cobra gigante”. E, por isso, tenta outras amarrações, como o tema da crise da meia-idade. Na versão original, a fragilidade do roteiro não era objeto de preocupação: o terror e a ação se intercalavam sem mea culpas. Mas como um produto perfeito da época em que se vive, a melancolia acaba habitando a nova projeção, uma vez que todos parecem estar cientes da impossibilidade de o “remake” superar o original (não que de fato fosse grande coisa).

Os personagens partem para a floresta amazônica tentando fazer um filme de cobras gigantes e, eventualmente, são perseguidos por cobras gigantes... Há figuras vilanescas e astros decadentes que fazem rápidas aparições, mas não esperem muito das reviravoltas. Elas cumprem a função de aumentar o tempo de projeção abrindo espaço para gags de gosto duvidoso, como na cena em que o grupo precisa urinar no personagem de Black. Soa como tentativa de arrancar risadas no ato final.

Como exercício de metalinguagem cinematográfica Anaconda lembra um pouco Os picaretas de 1999 (com Eddie Murphy e Steve Martin) e Trovão tropical de 2008 (com Robert Downey, Ben Stiller e o próprio Jack Black). Esses dois, no entanto, como comédias bem atualizadas para a época eram orgânicos, buscavam as risadas a partir de um humor que realmente se propunha a ironizar a indústria cinematográfica. O atual Anaconda optar por ironizar a autoparódia, em vez de alfinetar Hollywood.

Alternando entre o piloto automático e boas sequências, Anaconda 2025 é um ponto máximo do que a comédia hoje pode nos entregar. Em um mundo no qual tudo está envelhecendo rapidamente, precisamos acreditar que ainda há juventude em Jennifer Lopez e Ice Cube que lá atrás aceitaram protagonizar o Anaconda original.

Parece que finalmente Hollywood está sentindo o peso da idade.

Cotação: ☕☕


quarta-feira, 15 de abril de 2026

Um Salto para a Felicidade

 

Um Salto para a Felicidade. Overboard. De Garry Marshall, 1987.

Antes do Donald Trump ser uma verdade havia apenas a vontade do americano médio em ver uma desforra do caipira contra o elitismo cosmopolita...

Comédia divertida que mostra a reconfiguração e uma novaiorquina elitista e esnobe que após sofrer uma amnésia se vê forçada a viver entre caipiras da região do Oregon.

Inicialmente a elitista dama (interpretada por Goldie Hawn) reluta com a vida de dona de casa, mas acaba descobrindo os prazeres dos afazeres domésticos, tendo como (suposto) marido um grosseirão boa pinta e bem intencionado (Kurt Russel).

O filme dá vez a cosmovisão interiorana, simplória, amigável, sensível, mas um pouco grosseira que ao receber estímulos civilizatórios externos desponta.

O filme acerta ao mostrar o desprezo da sociedade norte-americana pelo white trash, isto é, o pobre branco com baixa escolaridade. Mas acerta mesmo na química – um tanto forçada – entre Hawn e Russel.

O diretor Gary Marshall já antecipa alguns motes de Pretty Woman, como o amor pura interclassista. Ao fim e ao cabo o elitismo novaiorquino precisa aprender com os grosseirões que nada refresca mais que uma boa cerveja.

Pois é, lá atrás isso era uma fantasia divertida. A pergunta a ser feita é: quem está rindo agora?

Cotação☕☕☕

terça-feira, 31 de março de 2026

O que deixamos para trás


O que deixamos para trás
. His house. De Remi Weekes, 2020.

Interessante filme de terror-dramático que apresenta a perspectiva de refugiados sudaneses na Inglaterra. A narrativa aborda as dificuldades de um casal (que perdeu a filha durante a fuga do Sudão) em se adaptar à nova vida. Após conseguirem uma autorização provisória para permanecerem no país, Bol e Rial, são instalados em uma casa na periferia de Londres. No entanto, a casa parece conter fantasmas e entidades relacionados a um bruxo africano. São seres que estão cobrando a conta pelas ações anteriores de Bol.

A sensação de isolamento é ampliada pelo fato deles contarem com pouca boa vontade dos locais, incluindo do serviço social. Eles sentem-se compungidos a passar uma imagem positiva para os ingleses, mas são antagonizados pelo preconceito social e racial. Bol, o marido, parece mais disposto à integração, enquanto Rial lida com seus traumas (intensos!) de maneira diferente. Mas há algo interno à casa e a eles próprios que os fragilizam ainda mais – colocando em risco o status de refugiado.

O filme funciona bem como drama existencial, reflexão intimista dos asilados e até representação do folclore africano. Mas como terror propriamente dito carece de maior constância. Não é muito difícil prever o desdobramento e as revelações, bem como antever o desfecho levemente otimista para vidas que sofreram com a guerra fratricida. Como bem postula Rial, em um momento de discussão com o marido, ela não teria medo de “fantasmas”, pois o verdadeiro perigo são os vivos.

Na perspectiva de refugiados africanos, nada mais verdadeiro...

Cotação: ☕☕☕

domingo, 22 de março de 2026

Maggie: a Transformação


Maggie: a Transformação
Maggie. De Henry Hobson, 2015.

O filme retrata um futuro pós-apocalíptico no qual um patógeno Necroambulist virus tem causado impacto mundial, transformando pessoas em zumbis. Wade Vogel, interpretado por Arnold Schwarzenegger, precisa proteger sua filha infectada e desenganada.

O principal objeto do filme é a relação entre Wade e Maggie, um fazendeiro e uma adolescente interiorana, em um mundo no qual os laços sociais estão se desconstruindo. Embora os mortos-vivos apareçam em alguns momentos, colocando o filme dentro do gênero de George Romero, a dimensão de uma dramática distopia é o que prevalece.

Trata-se de um mundo cinzento e sem esperança, algo recuperado pela própria fotografia. O vírus não atingiu apenas os humanos, mas animais e plantas. Os fazendeiros precisam incendiar as plantações, por isso a fumaça espalhada acentuando o aspecto sem cor. A paleta morta com tons amadeirados também favorece uma narrativa lúgubre.

O filme funciona muito bem como metáfora da desestruturação comunitária. As cidades destruídas e as áreas urbanas abandonadas lembram um contexto de guerra civil. Maggie, retirada da zona de quarentena por seu pai tem uma percepção apurada do que está acontecendo não só com ela, mas o mundo. Seu fim – reconhecidamente prematuro – se aproxima e ela tenta resolver suas questões antes que sua desumanização se complete. A figura protetora e angustiada do pai, ciente de sua obrigação quando a transformação se completar, observa o processo com firmeza inabalável (mas internamente desesperado).

O filme poderia desenvolver melhor o lore daquele universo, profundamente promissor. É uma narrativa curta, um cinema independente, que preserva o núcleo essencial. Nos dias de hoje estaria serializado em diversas temporadas, com inúmeros cliffhangers.

Está bem situado entre o terror e o drama. A impressão que fica é que faltou material para melhor dimensionar esse universo. A relação de Maggie com os amigos é apresentada de forma sucinta, mas eficaz. Não resvala, nem de leve, no dramalhão adolescente. A ligação da moça com a madrasta e os meios-irmãos também funciona, mesmo com poucos elementos.

A principal falta é a caracterização da ameaça zumbi: como aconteceu e de que forma foi controlada, se é que o foi. Mas aí, reconheço, seria um filme totalmente diferente. De qualquer forma, os zumbis aparecem, mas sem destaque.

Com um desfecho trágico e levemente conveniente, Maggie satisfaz o espectador desejoso de ver um filme de zumbis em um diapasão mais melancólico.

Cotação: ☕☕☕

domingo, 1 de março de 2026

28 Anos Depois

28 Anos Depois: Templo dos Ossos. 28 Years Later: The Bone TempleDe Nia DaCosta, 2026.

Excelente filme para tematizar o populismo e suas bases religiosas, além de abordar a capacidade de adaptação dos humanos às mais duras situações. No entanto, como filme de zumbis, é forçoso concordar que não há muita condição de considerá-lo um... filme de zumbis.

Templos dos Ossos parece ser mais um arco de conflitos sociais e ideológicos dentro de uma longa série de zumbis. Assustador e desolador, mas voltado para a compreensão da lógica humana de dominação. As hordas de motos estão ausentes, aparecem alguns desgarrados que não são verdadeiras ameaças aos fundamentalistas religiosos, esses sim, os verdadeiros vilões.

A contraposição ciência-religião (zumbis são infectados ou são pragas de satanás) é excessivamente didática e a proposta de uma cura para os raivosos leva o filme para outro plano de considerações. A trilogia do Danny Boyle não é sobre mortos-vivos no sentido clássico, mas sim sobre um tipo de raiva que ao pular dos macacos para os homens gerou o apocalipse na Inglaterra.

De qualquer forma, como um horror angustiante, o filme cumpre bem o propósito.

Cotação: ☕☕☕

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

We bury the dead


Enterramos os mortos
. We bury the dead. De Zak Hilditch, 2025.

O filme não convence muito bem com suas premissas: mandar civis resgatar os corpos das vítimas de um experimento militar que podem ou não despertar a qualquer instante. Não são exatamente zumbis, mas também não deixam de sê-los. Afinal, para que mandar os militares limparem os erros deles se há civis despreparados e angustiados para isso...

Em We bury the dead temos que executar um pouco de boa vontade para acompanhar as desventuras de Ava (Daisy Ridley) que decide ir para Tasmânia a fim de recuperar o corpo do marido, vítima de um acidente militar. O problema é que alguns corpos estão voltando à vida e parte deles demonstram sinais de agressividade. Mas Ava tem assuntos não resolvidos e ao invés de pagar um terapeuta de luta (como faria um sujeito normal) decide embarcar em um survive road movie.

É pouco convincente a escolha de cidadãos comuns para isso – sobretudo porque a maioria dos voluntários estão lá para resgatar os corpos de seus familiares. Além disso, não recebem nenhum tipo de treinamento. É um pretexto limitado para justificar a presença de Ava em meio aos destroços de uma ilha inundada por cadáveres.

A metáfora do zumbi como um assunto inacabado é até interessante, no entanto tal temática já foi tratada quase que a exaustão. Em melhor medida podemos citar o livro Handling the Undead (2005) do sueco John Ajvide Lindqvist que, recentemente, virou filme. Há outras séries que abordam essas questões como a francesa Les Revenants (2012) e a inglesa In the Flesh (2013-2014). Isso sem falar em Maggie (2015), aquele filme no qual Arnold Schwarzenegger recusa-se a abandonar a filha em processo de zumbificação.

A direção é bastante irregular, nem sempre conseguindo dar um tom de terror pós-apocalítico. Há pequenas pitadas de humor negro e uma melancolia onipresente que se apresenta na fotografia, fortalecendo assim a ideia de que não são exatamente os mortos que têm assuntos inacabados, mas os vivos que recusam a deixá-los descansar.

Faltou o esforço de compreensão das reais angústias dos mortos-vivos – eles sofrem? Eles têm raiva? Por que alguns atacam e outros não? Estão adquirindo a consciência? Esses aspectos foram deixados de lado para a angulação do luto pouco convincente de Ava. É uma história mediana de zumbis dentro de um filme que poderia ter se esforçado mais.

Cotação: ☕☕☕

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Retrospectiva 2025 - filmes assistidos


Com eventuais omissões e uma tristeza por ter desistido das resenhas, esses foram os filmes que eu assisti em 2025. Foi um ano de relativa atividade cinéfila. Espero explorar, em 2026, o acervos que eu tenho, adentrando nos clássicos e terror.

Total de filmes assistidos: XX.

Filmes vistos em 2025:

  • Extermínio: A evolução. 28 Years Later. De Danny Boyle.
  • Um dia fora do controle. Playdate. De Luke Greenfield, 2025.
  • A mulher da cabine 10The Woman in Cabin 10. De Simon Stone, 2025.
  • O macaco. The monkey. De Osgood Perkins, 2025.
  • A Hora do Mal. Weapons. De Zach Cregger, 2025.
  • Meus 84m284jegobmiteo. De Kim Tae-joon, 2025.
  • Tempo de guerra. Warfare. De Alex Garland, 2025.
  • Demon City. Demon City. De Seiji Tanaka, 2025.
  • Sorria 2. Smile 2. De Parker Finn, 2024.
  • Um Homem Diferente. A Different Man. De Aaron Schimberg. 2024.
  • Sociedade dos Talentos Mortos. Dead Talents Society. De John Hsu, 2024.
  • Guerra Civil. Civil War. De Alex Garland, 2024.
  • Querido Papai NoelDear Santa. De Bobby Farrelly, 2024.
  • Arquivos da Perversão: Escotismo, Acusações e Silêncio. Scouts Honor: The Secret Files of the Boy Scouts of America. De Brian Knappenberger, 2023.
  • Astérix & Obélix: O Reino do Meio. Astérix & Obélix: L’Empire du Milieu. De Guillaume Canet, 2023.
  • Meu amigo. Robot Dreans. De Pablo Berger, 2023.
  • As OutrasLas Demás. De Alexandra Hyland, 2023.
  • Rosalina. Rosaline. De Karen Maine, 2022.
  • A Oitava Noite.  Je8ileui Bam. De Kim Tae-hyoung, 2021.
  • O gangster, o policial e o diablo한국어. De Lee Won-tae, 2019.
  • Corrente do Mal. It Follows. De David Robert Mitchell, 2014.
  • Os suspeitos. Prisioners. De Denis Villeneuve, 2013.
  • Uma noite em 1967. De Renato Terra e Ricardo Calil, 2010.
  • Fúria de Titãs. Class of Titans. De Louis Leterrier, 2010.
  • A filha do general. The General's Daughter. De Simon West, 1999.
  • O Turista AcidentalThe Accidental Tourist. De Lawrence Kasdan, 1988.
  • O predador. Predator. De John McTiernan, 1987.
  • Totalmente Selvagem. Something Wild. De Jonathan Demme, 1986.
  • Sundelbolong. De Sisworo Gautama Putra, 1981.
  • Heróis do Oriente. Zhonghua Zhangfu. De Lau Kar-leung, 1978.
  • Pesadelo Perfumado. Perfumed Nightmare. De Kidlat Tahimik, 1977.
  • Trinity e seus companheirosUn genio, due compari, un pollo. De Damiano Damiani, 1975.
  • Meu nome é ninguém. Il mio nome è Nessuno. De Tonino Valério, 1973.
  • Meu Nome Ainda É Trinity. Trinity Is Still My Name. De Enzo Barboni, 1971.
  • Trinity é o meu nomeLo chiamavano TrinitàDe Enzo Barboni, 1971.
  • Os abutres têm fome. Two mules for Sister Sara, 1970.
  • Poker de Sangue. Five Card Stud. De Henry Hathaway, 1968.
  • A Fuga do Passado. Kiga Kaikyō. De Tomu Uchida, 1965.
  • As 7 Faces do Dr. Lao7 Faces of Dr. Lao. De George Pal, 1964.
  • A face oculta. One-Eyed Jacks. De Marlon Brando, 1961.
  • A chegada do outono. Aki tachinu. De Mikio Naruse, 1960.
  • A Canoa VirouDon't Give Up the Ship. De Norman Taurog, 1959.
  • A Bolha Assassina. The Blob. De Irvin Yeaworth, 1958.
  • A Soldo do Diabo. Man in Shadow. De Jack Arnold, 1957.
  • Irmão, irmã. Ani Imôto. De Mikio Naruse, 1953.
  • Uma aventura na África. The African Queen. De John Huston, 1951.
  • Festim Diabólico. Rope. De Alfred Hitchcock, 1948.
  • As Damas do Bois de BoulogneLes Dames du Bois de Boulogne. De Robert Bresson, 1945.
  • A regra do jogo. La Règle du jeu. De Jean de Renoir, 1939.
  • CamaradasLa Belle Équipe. De Julien Duvivier, 1936.
  • White Zombie. De Victor Halperindo, 1932.

sábado, 18 de outubro de 2025

A Regra do jogo


A regra do jogo. 
La Règle du jeu. De Jean de Renoir, 1939.

A narrativa La Règle du jeu assemelha-se a uma ferina comédia teatral. Os atos são bem definidos, de forma quase esquemática: uma festa realizada em uma mansão aristocrática do interior da França. Os personagens situam-se em três planos: os ricos, os empregados e os amigos/agregados empobrecidos.

Os flertes e ciúmes funcionam como aperetivos para o banquete farscesco: traições e vinganças. Os triângulos amorosos acirram o senso de decadentismo. Christine tem como marido Robert, um marquês, e como amante André Jurieux, um aviador. Do lado dos empregados há Lisette, fascinada com o modo de vida dos ricos, casada com o guarda-caça Schumacher e interessada em um novo empregado.

Embora as dimensões da história tendem para um intimismo, a interioridade dos personagens pesa pouco. Suas motivações parecem estar lastreadas no tédio e autopiedade.

Um dos pontos de contato é Octave, um diletante amargurado (que carrega secretamente a paixão por Christine). O embate entre o marido traído e o amante da esposa dá o tom de gravidade à narrativa. Ao mesmo tempo, o ciúme de Schumacher e seu descontrole compõem o arpejo geral do enredo cujo desenlace é tanto uma tragédia quanto um ato de cinismo.

A ambientação na casa de campo reflete as sobreposições entre os mundos burguês e aristocrático. Os conflitos e as dinâmicas seriam a inspiração para o filme de Robert Altman Gosford Park (2001). Nas duas películas, a ação dos empregados é o solucionador dos impasses pseudo-existenciais dos empregadores.

Filme interessante para compreendermos as tensões sociais da França na década de 1930. Seu diálogo inconsciente com o fascismo e sua crítica aguda, mas apolítica, às classes dominantes sintetizam o contexto cultural de então. Na ótica de Renoir parece inexistir uma alternativa à anomia vigente. Se as classes dirigentes estão carcomidas, não há muito o que se esperar dos trabalhadores.

A Regra do jogo não vacila em delinear a futilidade da sociedade francesa expondo a artificialidade do heroísmo militarista pós-1918. Funciona como preâmbulo de impasses coletivos que seriam resolvidos tragicamente (e naquele mesmo ano) com a invasão alemã.

Em suma, a ácida comédia de Renoir tomo o riso como o prenúncio de um desesperado: a farsa é a antessala do trágico: eis que a Europa de então dançava sobre o próprio abismo.


Cotação: ☕☕☕☕

 

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

As 7 Faces do Dr. Lao

As 7 Faces do Dr. Lao. 7 Faces of Dr. Lao. De George Pal, 1964.

Filme excepcional para recuperar o potencial fantástico do cinema americano e da própria cultura circense dos freaks shows: as diferentes personas do estranho mágico chamado Dr. Lao prometem um show sem precedentes.

O filme recupera é uma fábula moral anticapitalista e comunalista. A temática circense tem recorrência no cinema norte-americano. Vale explorá-la por seu potencial metalinguístico e autorreflexivo, além do imaginário arraigado da estupefação perante a arte itinerante.

Mas neste filme em específico o que vemos é a chegada de um circo dirigido por um personagem supostamente chinês conhecido como Dr. Lao. Aliás, ênfase no “supostamente”, já que o ator se chama Tony Randall, interpretando tanto o Dr. Lao como as suas demais faces:

  • Mago Merlim, um mago cansado;
  • Apolônio de Tiana, um implacável adivinho;
  • Uma serpente com traços antropomórficos;
  • Abominável homem das neves, sem participação relevante;
  • Medusa, a personagem mais assustadora do circo;
  • Pan, despertando o desejo de uma professora reprimida;
  • O monstro do lago Ness, disfarçado em um peixe.

Estes sete seres são importantes transmutações do mágico chinês, cuja atuação releva as ambivalências e hipocrisias da cidade de Abalone. O perigo que paira é o de se render a um especulador local em sua tentativa de comprar as terras dos moradores.

As técnicas de stop motion impressionam em retrospecto, mas para os padrões da época já eram limitadas. A maquiagem renderia, em 1965, um Oscar honorário (categoria especial) ao maquiador William J. Tuttle.

Com um visual maravilhoso (embora limitado) e uma moralidade ingênua “As 7 faces do Dr. Lao” revela-se eficaz na fusão de arquétipos duradouros das culturas mítica e circense com as traquinices do cinema comercial.

Cotação: ☕☕☕☕

segunda-feira, 23 de junho de 2025

Irmão, Irmã

Irmão, irmã. Ani imoto. De Mikio Naruse, 1953.

O filme aborda as difíceis relações dentro de uma família camponesa enfatizando o embate entre três irmãos: Mon, a moça mais velha que acaba se envolvendo com a prostituição, San, a filha mais nova que tenta um casamento e Inokichi, o rapaz mais velho que almeja ser o polo disciplinador da família. Seus pais mais idosos operam como observadores passivos, incapazes de coordenar as tensões internas.

Um simbolismo recorrente é a contraposição entre a água e as pedras, sugerindo a tensão entre permanência e transformação. A cena inicial é um resumo visual da narrativa. As pedras simbolizam os valores tradicionais e masculinos, a ordem patriarcal resistente à transformação: o pai decadente e nostálgico e o filho bruto e hipócrita. O riacho, por sua vez, é a mudança, o elemento que flui e precisa se adaptar, tratando-se da representação do anseio feminino[DR1]  pela autonomia.

Outra imagem visual forte é a barragem, modificando a relação dos barqueiros e dos pescadores com a água. Tais imagens são sintéticas. Naruse resume bem o papel da personagem feminina: em um mundo rígido, terroso, ela precisa encontrar a fluidez. A correlação entre esses dois elementos, firmeza e flexibilidade, pode fornecer a resposta para a fundação de um Japão moderno que não faça a tábula rasa do passado.

O pano de fundo sociológico enquadra a vida das pessoas comuns. No cinema japonês esse tipo de melodrama é reconhecido como Shōshimin-eiga, constituindo-se uma variação dos filmes Gendai-geki: dramas urbanos e rurais contemporâneos. Os embates internos são duros e relevam a fragmentação da ordem familiar, representação da própria sociedade japonesa do pós-guerra.

Como expressão cinematográfica o filme revela uma força quase teatral, não economiza nas expressões dramáticas para culminar na agressão de Inokichi a Mon. San é a possibilidade de equilíbrio, uma operação feita, no entanto, com sacrifícios individuais. Ani imoto constitui-se assim, um exemplar precioso do cinema de Mikio Naruse e do esforço da cinematografia nipônica em se autorrepresentar.

Cotação: ☕☕☕☕☕

sexta-feira, 20 de junho de 2025

A chegada do outono

A chegada do outono. Aki tachinu. De Mikio Naruse, 1960.

Mikio Naruse (1906–1969) é um dos grandes nomes do cinema clássico japonês, cuja filmografia atravessa diferentes momentos da história do Japão contemporâneo. Em A chegada do outono, acompanhamos o processo de amadurecimento de Hideo, uma criança que, após ser abandonada pela mãe – que foge com um cliente da pousada onde trabalhava –, passa a viver com os tios em Tóquio.

O filme articula-se ao drama familiar, temática recorrente na obra de Naruse, mas também se aproxima de reflexões sobre a infância – uma preocupação presente tanto no Cinema clássico quanto na Nouvelle Vague japonesa. A narrativa busca representar como um menino de dez anos reelabora suas experiências ao se deslocar do interior para a capital. Hideo carrega o peso do estigma social da pobreza e da rejeição materna, sentindo-se um fardo para os tios. Apesar das dificuldades, tenta se adaptar à nova vida, desenvolvendo uma amizade com Junko, filha da proprietária da pensão onde sua mãe trabalhava.

O contexto social retratado no filme é o de um Japão em transformação, quase duas décadas após o fim da Segunda Guerra. A cidade de Tóquio surge como um espaço de descobertas, mas ainda atravessado por fortes moralismos. A família de Hideo reflete os conflitos geracionais de uma sociedade em mudança: seus primos mais velhos buscam se afastar do controle paterno, o que intensifica ainda mais as tensões dentro da casa.

O filme também revela as contradições de uma sociedade que se moderniza, mas preserva estruturas tradicionais. A figura da mulher fora dos modelos vigentes aparece como uma espécie de ameaça silenciosa às convenções. Prova disso é a situação da mãe de Junko, que vive como “segunda esposa”: uma relação extraconjugal marginalizada, mas que era mais comum na realidade do que os discursos conservadores admitiam.

A fantasia de Junko de que Hideo se tornasse seu irmão reforça o seu próprio sentimento de abandono da figura paterna. A amizade dos dois é o ponto alto do filme revelando o a dialética entre o desabrochar e o permanecer. Eles percorrem Tóquio descobrindo-se como amigos e como rejeitados. A cidade aparece como um substituto para as lacunas familiares.

A fotografia em preto e branco, marcada pela luminosidade dos dias de verão, privilegia espaços abertos, planos gerais e uma notável profundidade de campo. Embora trate de uma temática melancólica, o filme capta com sensibilidade o otimismo resiliente da infância, sem deixar de lado os momentos de tristeza e desconforto que marcam a trajetória de Hideo. O uso do cinemascope é particularmente eficaz: ao mesmo tempo em que estabelece uma certa distância confortável para o espectador, também permite uma imersão empática na vivência do garoto, reforçando sua condição de pequeno dentro da imensidão urbana.

Ao longo do filme, Hideo se empenha em capturar um besouro-rinoceronte para presentear Junko – um gesto que carrega o desejo de manter viva sua identidade e seus vínculos com o mundo rural de onde veio. No entanto, seus esforços se perdem no ritmo incessante da vida na cidade, produzindo um sentimento agridoce que perpassa toda a narrativa.

Assim, A chegada do outono não é apenas um retrato da infância, mas também uma delicada crônica sobre os afetos, as rupturas familiares e as contradições de um Japão em processo de transformação.

Cotação: ☕☕☕☕☕

quinta-feira, 19 de junho de 2025

Sundelbolong

Sundelbolong. De Sisworo Gautama Putra, 1981.

Um dos maiores desafios na construção de uma sensibilidade cinéfila é a ruptura com os padrões estéticos norte-americanos, que são, via de regra, formativos. Assistindo a este clássico do cinema indonésio, somos capazes de perceber como as conexões com o chamado sul global são reais. A tendência inicial seria tomar o filme como de mau gosto, fruto de um olhar treinado pelo viés estético ocidental. No entanto, em vários sentidos, a película lembra os próprios esforços brasileiros na construção de uma cinematografia própria.

O filme aborda a história de uma ex-prostituta que foi estuprada a mando de sua antiga empregadora. Alissa desfrutava de sua vida de recém-casada, aguardando o retorno de seu marido de uma viagem, quando foi atacada. Ela não resiste ao julgamento moral de uma sociedade conservadora e crítica, acabando por se suicidar. Seu espírito retorna como Sundel bolong, uma criatura do folclore indonésio, resultado do sincretismo entre tradições asiáticas e a religião islâmica.

A construção do filme como narrativa de terror funciona, embora faça incursões no drama e, ocasionalmente, na comédia. A noção de um gênero cinematográfico rigidamente organizado em categorias estanques nem sempre é uma preocupação das tradições cinematográficas marginais. Assim, tornam-se evidentes as proximidades com os filmes de José Mojica Marins, especialmente no universo do Zé do Caixão.

A produção transpira improvisação e ausência do apuro técnico típico dos grandes estúdios, sobretudo nas maquiagens, que revelam rostos realistas e cheios de imperfeições – algo muito diferente dos rostos assépticos de Hollywood. As aparições e os tormentos provocados pela criatura são engenhosos, com soluções típicas do horror de alto nível, embora haja exageros, como os raios disparados por Alissa nos momentos de enfrentamento com um feiticeiro.

O filme é revelador de como as representações dos fantasmas asiáticos foram mescladas às tradições religiosas islâmicas. A imagem do fantasma japonês – como a personagem Sadako, de Ringu, por exemplo – é facilmente identificável. Nesse sentido, Sundelbolong é mais uma porta de entrada para o cinema oriental.

A assombração da mulher é o elemento angular do filme. No Oriente, essas entidades são chamadas de onryō, espíritos vingativos femininos. A dor e o sofrimento inviabilizam o descanso dessas almas, levando-as a perpetuar a violência contra os vivos, criando outras vítimas e alimentando o ciclo vicioso. No filme, tais imagens são contrapostas por religiosos islâmicos, que as combatem como forças demoníacas — seres perdidos que precisam da proteção e do perdão de Alá. Tal elemento confere ao filme uma complexidade narrativa, embora a naturalidade com que os personagens aceitam a Sundel bolong seja um tanto desconcertante. Tudo se acomoda fácil demais, sem as ambivalências psicológicas comuns ao gênero.

[Olha aí a bisavó da Samara...]

Ainda assim, o filme não se limita a ser uma curiosidade cultural, possuindo uma organização autônoma, com simbolismos próprios. Merece destaque a contraposição entre Alissa e Cinta, duas versões da entidade Sundel bolong, sendo uma maligna e a outra benigna. A narrativa é concisa, apesar de não ser um filme curto, e apresenta um desenvolvimento linear coerente, embora marcado por interpretações melodramáticas, próprias das telenovelas da época. Apesar de apresentar algumas inconsistências narrativas e derrapagens nas situações cômicas, o conjunto é funcional. Surpreende, inclusive, o desfecho sóbrio, que evidencia as conexões da cultura local com o islamismo.

O filme, no entanto, não deixa de dialogar com o cinema ocidental, parecendo inspirar-se no horror norte-americano, inclusive com elementos do slasher. Sundelbolong foi um dos responsáveis pela consolidação da fama do horror oriental e contou com a presença da scream queen indonésia, a atriz Suzzanna, uma mulher cuja vida esteve sempre envolta em mistérios.

Enfim, Sundelbolong é um clássico cult que, quando analisado sem o viés ocidentalizante, revela-se um achado precioso.

Cotação: ☕☕☕☕

sexta-feira, 13 de junho de 2025

Pesadelo Perfumado

Pesadelo Perfumado. Perfumed Nightmare. De Kidlat Tahimik, 1977.

Importante referência do cinema pós-colonial, Pesadelo Perfumado foi roteirizado, dirigido e editado de forma quase “artesanal” pelo cineasta filipino Kidlat Tahimik. Em muitos sentidos, sua proposta se aproxima da de Glauber Rocha e do Cinema Novo brasileiro — uma versão local do anticolonialismo estético.

Mas há nuances significativas entre eles. Pesadelo Perfumado explora com mais ênfase o humor, adicionando elementos de nonsense e absurdo. O filme acompanha um personagem que vive na zona rural de uma aldeia filipina, fascinado pela exploração espacial norte-americana e entusiasta da tecnologia moderna.

Kidlat tem então a oportunidade de viajar para a França, onde conhece o chamado mundo civilizado. Inicialmente, mostra-se fascinado pela tecnologia, por uma sociedade que entrega resultados concretos — uma sociedade com “muitas pontes”, como ele repete, empolgado e, por vezes, atônito.

A metáfora das pontes é central para entender o filme. Trata-se de uma ponte ao mesmo tempo frágil e resistente, que conecta sua aldeia ao resto do mundo. Ao mesmo tempo, Kidlat deseja ser, ele próprio, essa ponte entre seu universo local e o mundo moderno. Lança mão de diversos elementos simbólicos de conexão — correspondências, transmissões radiofônicas, automóveis —, mas seu real desejo é atravessar essa ponte e habitar o outro lado.

Superada a euforia inicial, o personagem se depara com as mazelas do mundo capitalista: desperdício, individualismo, obsolescência programada e racionalidade instrumental. Nesse processo, começa a reconsiderar a equação entre arcaico e moderno, questionando se, afinal, não seriam os civilizados aqueles que precisam atravessar a ponte em direção aos saberes e valores que perderam.

Alternando entre humor e um viés etnográfico — sobretudo no arco inicial da aldeia —, o filme constrói um discurso potente e contundente. É uma expressão vibrante do cinema não hegemônico da década de 1970.

A fotografia é assumidamente experimental, tensionando constantemente a fronteira entre registro antropológico e intervenção subjetiva, de forma a questionar a própria ontologia da imagem. Permanecem questões em aberto: até que ponto o colonizado pode representar-se sem ser atravessado pelas lentes e olhares do colonizador? É possível mostrar a alteridade sem convertê-la em fetiche visual, domesticada sob o selo do exotismo?

O filme suscita essas reflexões, mas mantém, ao mesmo tempo, uma potência narrativa capaz de envolver o espectador na trajetória de um personagem ingênuo, mas arguto, que busca — metaforicamente — construir pontes entre a cultura ocidental e o mundo não hegemônico. Trata-se de um filme-potência: entretém, provoca e produz o desconforto necessário para nos arrancar da McDonaldização da sétima arte.

Poucas experiências cinematográficas são tão cativantes quanto acompanhar a trajetória de um sonhador filipino tentando atravessar, literal e simbolicamente, a ponte entre sua aldeia e o mundo ocidental. Assim, Pesadelo Perfumado não é apenas um filme sobre a Filipinas, mas sobre o contraponto entre a sedutora promessa do progresso e a indiferença do capitalismo global.

Cotação: ☕☕☕☕☕

segunda-feira, 9 de junho de 2025

A Filha do General

A Filha do General. The General's Daughter. De Simon West, 1999.

Um thriller policial com ação e todos os elementos característicos do cinema dos anos 1990. Conhecido por seus filmes de ação, Simon West aposta novamente em personagens durões e outsiders. Aqui, temos John Travolta como um investigador da polícia militar, designado para elucidar o assassinato de uma oficial do exército: a capitã Elizabeth Campbell, encontrada amarrada e, possivelmente, estuprada.

Elizabeth é filha de um general prestigiado e em ascensão política, cotado inclusive para a presidência dos Estados Unidos, adicionando, assim, mais tensão e urgência à narrativa. A partir desse ponto, a misoginia das Forças Armadas americanas começa a se revelar.

Se a premissa é promissora, seu desenvolvimento deixa a desejar. O filme até funciona, mas exige boa vontade do espectador. Travolta, com seu estilo canastrão hipertrofiado, encarna bem o papel: um sargento e investigador que não segue as regras. A condição de investigador militar parece lhe conferir certa liberdade para burlar a hierarquia, mas isso nem sempre soa verossímil – como na cena em que prende um coronel sem grandes consequências. É um exagero típico do gênero, mas que enfraquece a credibilidade da trama.

Essa liberdade narrativa em torno do herói determinado a se contrapor ao sistema não é muito realista. Investigadores militares, especialmente de baixa patente, não teriam tanto autonomia para interrogar ou prender oficiais superiores. O filme conta com a suspensão de descrença da audiência média. Esse tipo de personagem não é exatamente os anti-heróis que vemos hoje, mas é o mais próximo que se tinha na época; eram frequentes no gênero policial (vide Máquina Mortífera).

O filme busca criar um clima de tensão crescente. A pressão sobre os investigadores e o receio de que o caso escape da jurisdição militar para cair nas mãos do FBI são bem traduzidos pela fotografia: com baixa saturação e textura granulada, a imagem transmite a atmosfera insuportável em que vivem os personagens. Estão sempre transpirando e seus rostos molhados e ofegantes reforçam a sensação de calor opressivo, como se a própria instituição estivesse febril diante da possibilidade de escândalo.

Porém, as cenas de ação são insuficientes para um público apreciador de embates mais diretos. As rotinas de investigação não convencem plenamente e, para contornar isso, o roteiro recorre a situações forçadas – como a presença de uma investigadora civil desguarnecida em um cenário hostil, exposta aos militares. O médio oficialato também é representado de forma apequenada, sem se manifestar como contraponto adequado ao sargento durão de Travolta.

A temática é relevante, especialmente por abordar a posição delicada das mulheres no ambiente militar. Mas, como era comum nos anos 1990, elas aparecem pouco e quase sempre como coadjuvantes ou vítimas. Não são totalmente passivas, mas continuam presas a estruturas que não controlam. Toda a agência cabe ao personagem de Travolta, que sai metendo o pé em todas as portas até encontrar, meio ao acaso, os verdadeiros culpados.

Para o espectador atual, o filme tem valor limitado, mas serve como peça de época. É um exemplar de um momento em que o “cinemão” buscava narrativas mais adultas, ainda distante da era dos super-heróis e do predomínio dos efeitos visuais. De certo modo, o filme oferece um mergulho no universo militar norte-americano, com tintas políticas, mas termina mirando na denúncia institucional e acertando numa ferida mais íntima: a figura paterna ausente e a solidão traumática da filha do general. O desfecho é triste, pouco redentor, mas coerente com esse cenário em que as Forças Armadas dos Estados Unidos tentavam tornar-se mais inclusivas.

Cotação: ☕☕☕