domingo, 21 de junho de 2026


Os Tradutores
. Les Traducteurs. De Régis Roinsard, 2019.

Excelente filme que faz a brincadeira de gato e rato típica das histórias policiais. Os Tradutores dialoga tanto com as narrativas policiais quanto com as histórias de bastidores do mundo da arte.  A questão da fetichização da obra e da autoria mostra-se o eixo principal da narrativa.

A ideia de reunir vários tradutores é uma situação propícia para mistérios detetivescos. Presos em um bunker, para que páginas não sejam vazadas com antecedência, tradutores de várias línguas e nacionalidades precisam descobrir qual deles está conseguindo de alguma maneira vazar parte da história para a internet. Nesse momento, o refúgio intelectual vira, de fato, uma prisão – inclusive com direito a carcereiros agressivos.

A abordagem crítica ao mercado literário aparece de forma divertida ao explorar a tensão entre ser escritor (o que cria) e ser o autor (o que recebe a autoria). Além disso, os ressentimentos dos tradutores, sempre subestimados, aparecem e são parte da trama.

A fragilidade do filme reside em sua dificuldade de manter a narrativa no bunker: vários flashbacks e cortes levam o espectador para outros lugares e momentos. A dimensão claustrofóbica do bunker foi sugerida rapidamente, mas nunca trabalhada a contento.

Autores como J. K. Rowling e Dan Brown já foram alvos de teorias conspiratórias na internet, acusados de serem “escritores-fachadas” sustentados por uma tropa de ghostwriters. No filme, a curiosidade em torno da autoria do misterioso escritor Oscar Brach movimenta boa parte da trama. Para o espectador a solução do mistério se revela rapidamente, apesar da reviravolta final. Mas para os personagens torna-se importante identificar a verdadeira identidade do escritor.

Mesmo com chantagens, planos mirabolantes e mortes, o filme é sobre um livro vazado antes do lançamento. Seu esforço em evocar temas das narrativas policiais (há uma referência explícita ao Expresso do Oriente de Agatha Christie) é pouco eficaz. O antagonista tem uma formulação confusa – suas características vilanescas só se consolidam no ato final. Também faltou desenvolver a real motivação dos envolvidos na trama do vazamento: dinheiro, fama ou ressentimento intelectual?

O filme diverte mesmo com um final mais melancólico do que o necessário. Mas como uma incursão pela apropriação mercantil e pelo culto da personalidade no mundo literário funciona bem.

Cotação☕☕☕

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