Os Tradutores. Les Traducteurs. De Régis Roinsard, 2019.
Excelente filme que faz a
brincadeira de gato e rato típica das histórias policiais. Os Tradutores
dialoga tanto com as narrativas policiais quanto com as histórias de bastidores
do mundo da arte. A questão da
fetichização da obra e da autoria mostra-se o eixo principal da narrativa.
A ideia de reunir vários tradutores
é uma situação propícia para mistérios detetivescos. Presos em um bunker, para
que páginas não sejam vazadas com antecedência, tradutores de várias línguas e
nacionalidades precisam descobrir qual deles está conseguindo de alguma maneira
vazar parte da história para a internet. Nesse momento, o refúgio intelectual
vira, de fato, uma prisão – inclusive com direito a carcereiros agressivos.
A abordagem crítica ao mercado
literário aparece de forma divertida ao explorar a tensão entre ser escritor (o
que cria) e ser o autor (o que recebe a autoria). Além disso, os ressentimentos
dos tradutores, sempre subestimados, aparecem e são parte da trama.
A fragilidade do filme reside em
sua dificuldade de manter a narrativa no bunker: vários flashbacks e cortes levam
o espectador para outros lugares e momentos. A dimensão claustrofóbica do
bunker foi sugerida rapidamente, mas nunca trabalhada a contento.
Autores como J. K. Rowling e Dan
Brown já foram alvos de teorias conspiratórias na internet, acusados de serem “escritores-fachadas”
sustentados por uma tropa de ghostwriters. No filme, a curiosidade em
torno da autoria do misterioso escritor Oscar Brach movimenta boa parte da trama.
Para o espectador a solução do mistério se revela rapidamente, apesar da reviravolta
final. Mas para os personagens torna-se importante identificar a verdadeira
identidade do escritor.
Mesmo com chantagens, planos
mirabolantes e mortes, o filme é sobre um livro vazado antes do lançamento. Seu
esforço em evocar temas das narrativas policiais (há uma referência explícita ao
Expresso do Oriente de Agatha Christie) é pouco eficaz. O antagonista
tem uma formulação confusa – suas características vilanescas só se consolidam no
ato final. Também faltou desenvolver a real motivação dos envolvidos na trama
do vazamento: dinheiro, fama ou ressentimento intelectual?
O filme diverte mesmo com um final
mais melancólico do que o necessário. Mas como uma incursão pela apropriação
mercantil e pelo culto da personalidade no mundo literário funciona bem.
Cotação: ☕☕☕☕

Nenhum comentário:
Postar um comentário