terça-feira, 30 de junho de 2026

Pecadores

Pecadores. Sinners. De Ryan Coogler, 2025.

Parte de uma nova fase do cinema negro, Pecadores ecoa as atuais preocupações dos cineastas em representar questões sociais por meio do terror. Embora os filmes não sejam exatamente obras-manifestos, em muitos casos mostram-se reflexivos em relação aos dilemas enfrentados hodiernamente. A escolha do terror parece ser propícia por agudizar de forma mais ou menos didática inquietações coletivas.

O filme de Ryan Coogler parece seguir, ao menos em um primeiro momento, esta toada. Os personagens que desfilam no primeiro plano são homens e mulheres negros querendo não apenas sobreviver, mas viver. Smoock e Stack (ambos interpretados por Michael B. Jordan) são os irmãos gêmeos que decidem criar um clube de Blues e jogatina no Mississipi dos anos trinta. Terão como empecilho as dificuldades criadas pela segregação, a Klu-Klux-Klan que paira sobre todos os negros e a infestação de vampiros...

Assemelhando-se ao cult Um drink no inferno de Robert Rodriguez, Pecadores consegue introduzir as criaturas de forma repentina e orgânica. A ambientação leva o espectador a supor um filme de época, mas a irrupção das criaturas desloca a narrativa para o terreno do horror. Nesse momento de mudança de arco, o caráter transcendente da música negra, já apresentado, possibilita a transição do drama histórico para o terror. O filme explora o embate entre a cultura dos africanos e a coletivização dos vampiros, seres que aparecem pregando não a destruição, mas a união.

Os vampiros se manifestam como entidades cujo propósito é a criação de uma Internacional vampírica ao propor uma união pós-morte. O clã que eles almejam construir promete o fim da segregação, da discriminação e da dor, mas colocando-os todos sobre a batuta de um irlandês cuja origem trabalhadora é rapidamente sugerida. Possivelmente um trabalhador explorado e sequiado de suas esperanças quando vivo.

Os vampiros almejam escapar do sofrimento por meio de uma morte ritualística e os negros apostam na força da cultura como resistência. Não sucumbir ao mal se dá pela ancestralidade africana, com pouquíssimas concessões à religiosidade cristã. A música permanece como a principal via de escape para os protagonistas não apenas sobreviverem, mas viverem.

O título do filme alude a atuação dos irmãos que aliciam seus funcionários e clientes por meio das tentações mundanas. O sexo, o álcool e o dinheiro são os chamarizes para um clube que propõe o pecado, mas na prática gera a união. Os vampiros, por sua vez, propõem um tipo de renúncia radical – abandonar a própria vida – e nesse sentido são tão castradores quanto a religião cristã e o segregacionismo brutal da Klu-Klux-Klan. O verdadeiro pecado parece ser, não o prazer, mas o abandono da vida, por dura que ela seja.

O desfecho resolve-se com alguma dificuldade, a resolução é boa, mas se estende a ponto de reduzir o impacto dos últimos conflitos travados antes do nascer do sol. As contradições que os vampiros apontam na proposta do clube de blues é mais do que uma conversa mansa, ela vai ao âmago das dificuldades enfrentadas pelos negros. A narrativa não rechaça adequadamente os problemas aventados pelos sanguessugas. O clube já estava condenado antes deles mostrarem seus dentes e garras. O aparecimento dos supremacistas em um quase prólogo a la Rambo fortalece este ponto.

Pecadores cria problemas que não necessariamente dá conta de resolver. A pujança da cultura negra seria forte o suficiente para se contrapor aos fazendeiros que em vários sentidos são mais mortais que os vampiros? Os brancos sulistas se dizem cristãos, fazem tudo às claras e, ao contrário dos morcegos, não temem, mas ostentam, o sinal da cruz.

Cotação: ☕☕☕

 

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