Pecadores. Sinners. De Ryan Coogler, 2025.
Parte de uma nova fase do cinema negro,
Pecadores ecoa as atuais preocupações dos cineastas em representar
questões sociais por meio do terror. Embora os filmes não sejam exatamente
obras-manifestos, em muitos casos mostram-se reflexivos em relação aos dilemas
enfrentados hodiernamente. A escolha do terror parece ser propícia por agudizar
de forma mais ou menos didática inquietações coletivas.
O filme de Ryan Coogler parece
seguir, ao menos em um primeiro momento, esta toada. Os personagens que
desfilam no primeiro plano são homens e mulheres negros querendo não apenas
sobreviver, mas viver. Smoock e Stack (ambos interpretados por Michael B.
Jordan) são os irmãos gêmeos que decidem criar um clube de Blues e jogatina no Mississipi
dos anos trinta. Terão como empecilho as dificuldades criadas pela segregação,
a Klu-Klux-Klan que paira sobre todos os negros e a infestação de vampiros...
Assemelhando-se ao cult Um drink
no inferno de Robert Rodriguez, Pecadores consegue introduzir as
criaturas de forma repentina e orgânica. A ambientação leva o espectador a
supor um filme de época, mas a irrupção das criaturas desloca a narrativa para
o terreno do horror. Nesse momento de mudança de arco, o caráter transcendente
da música negra, já apresentado, possibilita a transição do drama histórico para
o terror. O filme explora o embate entre a cultura dos africanos e a coletivização
dos vampiros, seres que aparecem pregando não a destruição, mas a união.
Os vampiros se manifestam como
entidades cujo propósito é a criação de uma Internacional vampírica ao propor uma
união pós-morte. O clã que eles almejam construir promete o fim da segregação, da
discriminação e da dor, mas colocando-os todos sobre a batuta de um irlandês
cuja origem trabalhadora é rapidamente sugerida. Possivelmente um trabalhador
explorado e sequiado de suas esperanças quando vivo.
Os vampiros almejam escapar do
sofrimento por meio de uma morte ritualística e os negros apostam na força da
cultura como resistência. Não sucumbir ao mal se dá pela ancestralidade africana,
com pouquíssimas concessões à religiosidade cristã. A música permanece como a
principal via de escape para os protagonistas não apenas sobreviverem, mas
viverem.
O título do filme alude a atuação
dos irmãos que aliciam seus funcionários e clientes por meio das tentações
mundanas. O sexo, o álcool e o dinheiro são os chamarizes para um clube que propõe
o pecado, mas na prática gera a união. Os vampiros, por sua vez, propõem um
tipo de renúncia radical – abandonar a própria vida – e nesse sentido são tão castradores
quanto a religião cristã e o segregacionismo brutal da Klu-Klux-Klan. O
verdadeiro pecado parece ser, não o prazer, mas o abandono da vida, por dura
que ela seja.
O desfecho resolve-se com alguma
dificuldade, a resolução é boa, mas se estende a ponto de reduzir o impacto dos
últimos conflitos travados antes do nascer do sol. As contradições que os vampiros
apontam na proposta do clube de blues é mais do que uma conversa mansa, ela vai
ao âmago das dificuldades enfrentadas pelos negros. A narrativa não rechaça adequadamente
os problemas aventados pelos sanguessugas. O clube já estava condenado antes
deles mostrarem seus dentes e garras. O aparecimento dos supremacistas em um quase
prólogo a la Rambo fortalece este ponto.
Pecadores cria problemas que não necessariamente
dá conta de resolver. A pujança da cultura negra seria forte o suficiente para
se contrapor aos fazendeiros que em vários sentidos são mais mortais que os
vampiros? Os brancos sulistas se dizem cristãos, fazem tudo às claras e, ao
contrário dos morcegos, não temem, mas ostentam, o sinal da cruz.
Cotação: ☕☕☕☕

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