Os
curados. The Cured. De David Freyne, 2018.
Lúbugbre,
triste e com poucas possibilidades de escapes.
O
filme aborda o tenso processo de adaptação dos infectados pelo vírus Maze à
vida civil em um cenário pós-apocalíptico no qual o caos não se extinguiu por
completo. Produzido e filmado na Irlanda, o projeto parece metaforizar traumas como os conflitos entre o IRA e o Reino Unido, o 11 de Setembro
e a própria xenofobia contra minorias étnicas. Porém há uma atualização
histórica no que se refere ao populismo de direita.
Senan é curado e passa a morar com o sobrinho e a esposa do irmão que despareceu durante a epidemia. Incapaz de esquecer suas ações no período de infecção, Senan ainda se coloca sob a influência de outro ex-infectado que pretende instrumentalizar o descontentamento dos curados para propósitos políticos. Curiosamente, o filme mostra-se exageradamente didático ao apresentar um líder mal intencionado conduzindo uma horda de zumbis enfurecidos.
A
fotografia do filme é acinzentada, com pouca luz e cenários internos sombrios e
claustrofóbicos. Não há muita esperança, pois a discriminação e a radicalização
política parecem eliminar possibilidades de diálogo. Mesmo tendo plot e background
interessantes, o desenvolvimento dos atos é bem previsível. A cunhada de Senan,
por exemplo, Abbie (interpretada por Elliot Page) é uma jornalista, mas nãos esforça
para divulgar as informações que ela recolheu da sede dos infectados.
O principal
ponto de tensão é justamente o destino dos infectados que são resistentes à
cura. A eutanásia e a custódia são as opções na mesa, reverberando discussões
atuais sobre a reintegração ou extermínio daqueles considerados perigosos. Mas
os desdobramentos revelam um roteiro preguiçoso: em alguns momentos as
autoridades são rígidas, em outros não percebem infectados se infiltrando nos
centros de detenção. Estes últimos, a depender da perspectiva que se adote, podem
ou não ser considerados terroristas.
Esta
camada de conflitualidade remete ao filme Maggie e à série In the Flesh (cuja temática é muito
parecida). Trata-se de uma fábula da política contemporânea interessante,
provocativa e pessimista, mas faltou fôlego para explorar essas nuanças com um
pouco de brilhantismo.
Cotação: ☕☕☕

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