sábado, 13 de junho de 2026

Os curados


Os curados. The Cured. De David Freyne, 2018.

Lúbugbre, triste e com poucas possibilidades de escapes.

O filme aborda o tenso processo de adaptação dos infectados pelo vírus Maze à vida civil em um cenário pós-apocalíptico no qual o caos não se extinguiu por completo. Produzido e filmado na Irlanda, o projeto parece metaforizar traumas como os conflitos entre o IRA e o Reino Unido, o 11 de Setembro e a própria xenofobia contra minorias étnicas. Porém há uma atualização histórica no que se refere ao populismo de direita.

Senan é curado e passa a morar com o sobrinho e a esposa do irmão que despareceu durante a epidemia. Incapaz de esquecer suas ações no período de infecção, Senan ainda se coloca sob a influência de outro ex-infectado que pretende instrumentalizar o descontentamento dos curados para propósitos políticos. Curiosamente, o filme mostra-se exageradamente didático ao apresentar um líder mal intencionado conduzindo uma horda de zumbis enfurecidos.

A fotografia do filme é acinzentada, com pouca luz e cenários internos sombrios e claustrofóbicos. Não há muita esperança, pois a discriminação e a radicalização política parecem eliminar possibilidades de diálogo. Mesmo tendo plot e background interessantes, o desenvolvimento dos atos é bem previsível. A cunhada de Senan, por exemplo, Abbie (interpretada por Elliot Page) é uma jornalista, mas nãos esforça para divulgar as informações que ela recolheu da sede dos infectados.

O principal ponto de tensão é justamente o destino dos infectados que são resistentes à cura. A eutanásia e a custódia são as opções na mesa, reverberando discussões atuais sobre a reintegração ou extermínio daqueles considerados perigosos. Mas os desdobramentos revelam um roteiro preguiçoso: em alguns momentos as autoridades são rígidas, em outros não percebem infectados se infiltrando nos centros de detenção. Estes últimos, a depender da perspectiva que se adote, podem ou não ser considerados terroristas.

Esta camada de conflitualidade remete ao filme Maggie e à série In the Flesh (cuja temática é muito parecida). Trata-se de uma fábula da política contemporânea interessante, provocativa e pessimista, mas faltou fôlego para explorar essas nuanças com um pouco de brilhantismo.

Cotação: ☕☕☕

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