domingo, 5 de julho de 2026

Os infelizes

Os Infelizes. De helaasheid der dingen. De Felix Van Groeningen, 2009.

No cinema, a marginalidade exerce uma atração pela capacidade de conectar seres humanos que, a princípio, pareceriam detestáveis. Este é o fundamento do filme “Os infelizes”, baseado na literatura de Dimitri Verhulst (escritor belga contemporâneo). A partir de tal efeito vemos uma família basicamente masculina de alcóolatras e encrenqueiros que criam um rapaz chamado Gunther, filho de um deles, de uma forma negligente, abusiva e, contraditoriamente, amorosa.

Embora a narrativa não invista na contextualização, fica perceptível que os excluídos sociais precisam desenvolver camadas extras de proteção a fim de se preservarem de todo o antagonismo ao redor. Considerados partes da escória, a família Strobbe tem uma camaradagem masculina e uma disfuncionalidade características. Por mais que eles se amem, acabam ferindo-se mutuamente.

A solidariedade do clã pode ser autoconsoladora, mas limitada. Álcool, sexo, bicicleta e brigas não são substitutos adequados ao amor materno. Ghunter cresce longe da mãe, amparado pela vó paterna que cuida, não só do neto, mas dos filhos adultos. Unidos nas brigas e nas bebedeiras, eles atuam como um clã. É o jovem que vai percebendo as contradições de tal estilo de vida, buscando (no início, de forma inconsciente) uma saída. A principal solução seria uma ruptura com tal ambiente familiar, mudando-se para um internato, mas o pai se opõe fortemente.

Trazendo uma narrativa que alterna entre o humor negro e o drama socio-existencial, “Os infelizes” remete às difíceis conexões familiares, tal como em “Castelo de vidro” e “Capitão Fantástico”. Mas aqui temos uma narrativa mais seca e até menos convencional, o marginal é entendido como um sujeito que, apesar de seus esforços, nem sempre vai conseguir fugir das armadilhas que o circundam, sejam elas externas ou internas.

Cotação: ☕☕☕☕

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