Os Infelizes. De helaasheid der dingen. De Felix Van Groeningen, 2009.
No
cinema, a marginalidade exerce uma atração pela capacidade de conectar seres
humanos que, a princípio, pareceriam detestáveis. Este é o fundamento do filme “Os
infelizes”, baseado na literatura de Dimitri Verhulst (escritor belga contemporâneo).
A partir de tal efeito vemos uma família basicamente masculina de alcóolatras e
encrenqueiros que criam um rapaz chamado Gunther, filho de um deles, de uma
forma negligente, abusiva e, contraditoriamente, amorosa.
Embora
a narrativa não invista na contextualização, fica perceptível que os excluídos
sociais precisam desenvolver camadas extras de proteção a fim de se preservarem
de todo o antagonismo ao redor. Considerados partes da escória, a família Strobbe
tem uma camaradagem masculina e uma disfuncionalidade características. Por mais
que eles se amem, acabam ferindo-se mutuamente.
A solidariedade
do clã pode ser autoconsoladora, mas limitada. Álcool, sexo, bicicleta e brigas
não são substitutos adequados ao amor materno. Ghunter cresce longe da mãe, amparado
pela vó paterna que cuida, não só do neto, mas dos filhos adultos. Unidos nas
brigas e nas bebedeiras, eles atuam como um clã. É o jovem que vai percebendo
as contradições de tal estilo de vida, buscando (no início, de forma inconsciente)
uma saída. A principal solução seria uma ruptura com tal ambiente familiar,
mudando-se para um internato, mas o pai se opõe fortemente.
Trazendo
uma narrativa que alterna entre o humor negro e o drama socio-existencial, “Os
infelizes” remete às difíceis conexões familiares, tal como em “Castelo
de vidro” e “Capitão Fantástico”. Mas aqui temos uma narrativa mais
seca e até menos convencional, o marginal é entendido como um sujeito que, apesar
de seus esforços, nem sempre vai conseguir fugir das armadilhas que o circundam,
sejam elas externas ou internas.
Cotação: ☕☕☕☕

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