domingo, 15 de outubro de 2023

30 dias de noite

Crítica a jato✈


30 dias de noite (30 Days of Night), 2007. De David Slade

Antes de Eclipse (2010) David Slade nos brindou com essa história vampirosa de sanguessugas...

Vampiros que tendo a vantagem de atacar por 30 dias seguidos conseguem, ainda, deixar uma pá de humaninhos escaparem...

E vejam, não estou aqui sendo o chato de garrocha ao falar que NEM todo mundo morre no final. Só estou ressaltando o absurdo de que em uma cidade no Alasca no qual o inverno resulta em 30 dias sem a luz do sol os vampiros não dão conta de fazer o dever de casa. E não estamos falando de caçadores como aqueles cowboys do asfalto de John Carpenter, tampouco de um Blade da vida.

Não meus caros, os humanos que se safam são uns patetões que correm a esmo pela cidade, trombam uns nos outros, gritam quando é para fazer silêncio, fogem se prendendo em lugares apertados e se mostram incapazes de qualquer comunicação minimamente inteligente. É claro que esses humanos devem ter lá seus superpoderes para enxergar normalmente no escuro polar, mesmo com toda iluminação natural e artificial suprimida. Mas não vamos pedir coerência de um filme no qual os personagens são rasos, as sequências de ação absolutamente artificiais e o carisma dos heróis e vilões inexistente.

Se vocês querem relembrar aquela boa época que íamos às locadoras e voltávamos com uma batata quente na sacola está aí uma ótima oportunidade de revival.

Filme que caiu no esquecimento, mas que vez ou outra é bom dar uma revisada só para não perdemos o costume da crítica mal humorada.

Cotação:☕


domingo, 27 de agosto de 2023

Doutor Sono


Crítica a jato✈

Doutor Sono (Doctor Sleep), 2019. De Mike Flanagan

Por se tratar da continuação de O iluminado seria muito despropositado tecer grandes expectativas. No entanto a adaptação do novo filme de Stephen King falha miseravelmente. O terror é atenuado, sobretudo, porque Abra Stone a sucessora de Dan Torrance, a garotinha afro-americana (yep!) é muito overpower.

Em momento nenhum Abra fica realmente em perigo, quem tateia em busca de ajuda é Dan, o outrora iluminado só manteve uma pequena parcela do seu brilho. Vagueando pelos Estados Unidos ele tenta lidar com sua depressão e alcoolismo. O encontro dele com Abra é forçado e muito mal explicado, resultado de uma narrativa fílmica absolutamente sem sal.

Esse, aliás, é o principal problema do filme, uma tentativa de adaptar uma extensa obra literária em duas horas de projeção e ainda com a obrigação de fazer conexão com a história anterior.

Para além do hotel amaldiçoado, os antagonistas são um grupo de vampiros psíquicos liderados por uma bela e perigosa assassina. Uma criatura maligna, poderosíssima, mas que é feita de gato e sapato por Abra Stone.

Seja como desfecho ou como obra independente, o filme Doutor Sono é limitado. Os arcos são até interessantes, mas explorados com excessiva pressa a fim de dar liga aos vários capítulos. Priorizar Abra em detrimento de Dan prejudica a temática do iluminado ao substituí-la por uma versão dark de Matilda (1996).

Cotação: ☕☕☕

Que horas eu te pego?


Que horas eu te pego?
(No hard feelings), 2023. De Gene Stupnitsky

Os tempos mudaram para melhor? Não sei dizer, mas tenho inclinação pessimista para todas as coisas do mundo. Desse modo não esperem de mim grandes loiros para as vocações contemporâneas. E é nesse espírito que apresenta a reviravolta das comédias picantes juvenis com um tempero e um caldo da década de 2020.

Que horas eu te pego?” segue as novas riscas da contemporaneidade. Homens fracos e mulheres fortes. Aqui não temos mais o rapaz querendo perder sua virgindade a todo custo, pelo contrário: eis o meninão de 19 anos resignado com sua fobia social e sem maiores interesses por incursões nessa terra de ninguém chamada corpo feminino. Caberá a trintona Maddie (interpretada por Jennifer Lawrence) a tarefa de introduzir o rapaz neste novo continente. Ela faz um acordo com os pais do garoto em troca de um carro, pois precisa do motor para trabalhar de Uber e assim manter sua casa em um bairro assolado pela especulação imobiliária. Por ser herança da mãe (e de um pai ausente) ela não quer perder a propriedade.

É tão triste que sinto vontade de chorar, vontade de chorar pela inação do menino Percy (19 anos minha gente) incapaz de receber as dádivas que secretamente seus pais controladores atiraram em seu colo. E eles atiraram foi a Lawrence que já chega chegando querendo liberar geral. Mas o garoto se assusta: teme o rapto (quando a esmola é demais...), busca previamente uma ligação sentimental e, pasmem, tem reação alérgica à xo... digo, a chocha brincadeira de Adão e Eva.

Os rapazes (igualmente imbecis) de America Pie mandam lembranças: vocês ralavam, oh guerreiros, por uma coisa que hoje os pais encomendam pelos filhos em aplicativos de celular...

Minha má vontade se justifica também pelas premissas absurdas. Um dos amigos de Maddie questiona esse plano de tirar a virgindade do rapaz em troca do carro prometido pelos pais good vibes, sugere alugar alguns quartos da casa pelo Airbnb. Mas ela responde que não se sentia bem em deixar estranhos em sua casa. Ele retorque “não aluga a casa, mas aluga a xereca?”. A mesa feminina o cala imediatamente. Ele ainda sugere “Não seria melhor o OnlyFãs”. A mesa de “apoiadoras de apoiadoras” retumba: “maridinho meu, o que você entende de OnlyFãs?”. Ali é prudente se calar.

Não estou aqui para criticar personagens secundários caricatos, faz parte do gênero. Se bem que quando a única frase sensata sai do clássico bufão é de fato o mundo de pontas às cabeças. Me surpreende o neoplatonismo vendido: o rapaz apto a perder a virgindade só após uma ligação sentimental – enquanto Percy se apaixona, Maddie descobre o valor de manter alguns valores afora os valores (materiais) que pretende receber...

Não há verborragia no parágrafo acima. Realço que em meio a aparência libertina esconde uma vontade insuportável de castração do masculino. Trata-se de uma nova abordagem de educação sexual: a personagem feminina aparece como disposta ao sexo casual, eventualmente até remunerado. Já o rapaz é constrangido a perder a virgindade, mas para isso deve descobrir algo além de um prazer carnal.

E essa dialética cripto-cristã dará a toada até o final. A sexualidade exuberante feminina não é tão resolvida assim – e haverá algum ponto de inflexão que jogará o rapaz nos braços de uma menina anódina (conclusão com extrapolação). Porque as beldades "10 de 10" não são “consumo” mas para admiração.

Afinal, é o capitalismo, nem tudo que desejamos podemos ter.

Cotação: ☕☕


domingo, 21 de fevereiro de 2021

Eu me importo


Eu me importo
(I care a lot). De J Blakson, 2020.

https://www.netflix.com/browse?jbv=81350429

Acabei de assistir “Eu me importo” estreia do Netflix. O filme é curioso e estabelece o espírito anti-masculino que atravessa a cultura contemporânea. As protagonistas consistem em casal de lésbicas inescrupulosas que lesam idosos ao se tornarem tutoras legais para se apropriarem dos bens das vítimas.

O primeiro arco do filme caracteriza as personagens como cínicas, frias e cruéis, conquistando a antipatia imediata do espectador. Elas sentem um prazer especial em humilhar os homens, entendimento verbalizado várias vezes ao longo da projeção. Contando com uma rede de outras mulheres elas aplicam golpes nos limites da lei, conseguindo, desse modo, amealhar fortuna sob os aplausos de um juiz bobalhão. O modus operandi das vigaristas despertam fácil antipatia ao telespectador (sobretudo para o público brasileiro que não se sente tão bem em descartar os velhinhos). De qualquer forma, o clímax deste arco é a cena de sexo para comemorar a rapina de uma nova vítima.

A intenção é explícita: são mulheres fortes (malvadas) que odeiam os homens (idiotas) e se aproveitam dos idosos (porque a sociedade é uma eterna competição de explorados contra exploradores).

Bem, mas veja aí... elas são as mocinhas.

Sim. Porque se existe mulher ruim, com certeza há homens piores.

Após um golpe bem sucedido elas atraem a atenção da máfia russa, cujo maligno e temido e monstruoso e assustador e, claro, fálico líder decide fazer a vida dessas gentis tranbiqueiras (que se amam) um inferno. Esse másculo (not) mafioso tem uma certa deficiência física que metaforicamente representa a castração do masculino pelo feminino. Caramba! Esses barbados, vamos percebendo ao longo dos arcos, são mais tétricos que as golpistas especializadas em extorquir idosos!

A partir do embate entre o mafioso e a golpista a estrutura narrativa vai absolvendo as moças. A ideia é justificar a agressividade feminina como escudo para um mundo controlado pelos homens. Mas pela força que elas demonstram tudo sai muito inverossímil. São lésbicas que não temem a morte,  a dor, a tortura, o ácido, o afogamento, o tiro, o chumbo, a lei, os homens, os fal... esquece. Não temem nada. Nothing!

Mulheres tão poderosas e decididas e inteligentes, mas cuja única forma de sucesso consiste justamente em explorar e abusar de pessoas frágeis.

Mas se ideia é a celebração da Strong Woman, posso garantir que o tiro sai pela culatra. Pois a mesquinharia e o arrivismo das nossas damas de ferro servem mais para denunciar o ultra-individualismo de um feminismo que elegeu os homens (e não a desigualdade) como inimigos.

A noção de humor ácido se esvai na celebração de uma sororidade (elas amam essa palavra!) cujos vínculos se dão apenas entre mulheres jovens e independentes que fazem do sexo e do dinheiro o vínculo de sociabilidade. As idosas, por exemplo, são atiradas à própria sorte e deixadas para morrer abandonadas.

É o “Female American Dream” vendido como empoderamento mas instrumentalizado como competição sem limites, fazendo uso dos subterfúgios legais a fim de criar pontos de falsa equidade para que moças sedutoras e sedentas por sexo (com mulheres) possam tomar do mundo o quinhão que a força e tenacidade delas merecem.

Em suma, não são heroínas ou anti-heroínas, são cowgirls disparando contra os novos nativos: os homens caras de trouxas...

*Cotação:* Fraco

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Netflix é anti-cinema


Netflix
trabalha muito bem contra o cinema. Seu catálogo de filmes é reduzido. A relevância das suas obras é baixa e a aposta em séries desproporcional. Lançamentos fracos e bem aquém do Telecine Play.

Tal serviço de Streaming se coaduna com a letargia do espectador comum, que tem preguiça de procurar filmes relevantes, optando por consumir o que estiver a menos de um clique de distância.

Estou cada vez mais convicto que as locadoras virtuais - nas quais se pagaria por filme - seriam opções melhores.

Eu preciso de 50 minutos de busca para encontrar uma opção razoável no Netflix. Vinte anos atrás era isso que eu precisava para ir e voltar da locadora do bairro com um lançamento e duas opções razoáveis.

domingo, 7 de abril de 2019

Infantilismo do cinema contemporâneo


O cinema atual é infantil, é ruim. Adultos afluem até as salas em busca de super-heróis acompanhando as sequências como garotos de doze anos colecionavam figurinhas em um álbum. Bem indicativo de um estado de espírito coletivo no qual destroiers voadores, equipes multiculturais (mas orquestradas por americanos puro-sangue) dão o tom da diversão pública e da cultura de massa.

Narrativas propositadamente incompletas elaboram sentimento de uma luta ad infinitum contra o mau. O desfecho é sempre jogado para a produção seguinte, um exercício para manter bilheterias em altas cifras. Os adultos seguem o jogo infantilmente com torcidas para a aparição do herói purpurinado da vez.

Há também uma obsessão com a adolescência. Trintões interpretando jovens secundaristas, a high school elevada à condição de microcosmo de toda uma sociedade e todo um modo de vida. As próprias dinâmicas dos adultos passam a ser lidas com os chavões das gatinhas e dos gatões: ênfase nas paqueras e nos dates, embates com os valentões, desinteresse por tudo que não seja ensimesmamento. Enfim, olhar para o umbigo como um paradigma de vida.

Narrativas comprometidas até a medula com valores liberais multiculturais – lacração para alguns, politicamente correto para outros –, e que produzem receituários e cotas de representação a fim de resguardar minorias políticas. Há um esforço considerável para destacar idiossincrasias particulares e considerá-las o mais belo produto do mundo moderno. Narrativas opressoras que elevam lutas de indivíduos contra estruturas opressoras. Causa um mal-estar o maniqueísmo vendido que toma conflitos realmente sérios pelo prisma da condenação moral ao anacronismo do patriarcado.

É infantil esse cinema, pois ele impõe uma noção ideológica de que o real existe para satisfação dos nossos desejos. Todos entraves, obstáculos, deslocamentos e desentendimentos transparecem como um mundo ser removido por metodologias pós-modernas. Não cabe reflexão, mas apenas engajamento tribal, por vezes, com nuances de seita.

Isso explica o fascínio pelos super-heróis já que a eles nada é vetado, seus poderes o elevam para além da vida ordinária. Isso explica o fascínio pela adolescência, pois estes são especialistas em negar imprudentemente os limites da realidade.

Circuitos comerciais ou alternativos, não importa, os filmes estão ruins.

Precisamos crescer e nos libertar dessa voga millenial.

O retorno dos malditos


O retorno dos malditos
(The hills have eyes 2), 2007. De Martin Weisz.

Antes de ser fascista ou racista, trata-se de algo simplesmente americano, talvez eticamente incorreto, mas também mera expressão de mau gosto. Os americanos têm um apreço pelo freak, pelo estranho e anormal. Os circos de aberrações são tão americanos quanto a torta de maçã.

Há uma tradição literária e cinematográfica de qualidade “B” que mantém como tema principal a existência de monstros no coração da América. Lendas que partem de um fundo histórico real, pois no processo de colonização dos Estados Unidos, sobretudo com a expansão para o Oeste, muitas famílias ficaram isoladas nas novas terras ocupadas, sendo comuns os relatos de relações incestuosas e enlouquecimentos.

Visão construída pelo leste urbano e cosmopolita sobre o oeste provinciano. Muito antes de representar o preconceito contra os negros ou os mexicanos, prevalecia o senso de desvalorização do pobre branco, o caipira.

Em relação ao cinema podemos citar filmes como O massacre da serra elétrica (original e remake), O homem de Palha (original e remake), Viagem Maldita (original e remake), além do Padrasto, Pânico na Floresta, Rejeitados pelo Diabo e muitos outros. A mensagem em todos esses filmes é a mesma, fora das cidades, das rodovias principais, existem pequenos povoados, regidos por outra racionalidade que não a judaico-cristã.

Os mutantes canibais devoradores de pessoas incautas constituem personagens recorrentemente visitados, temática muito coerente com as tendências eugenistas que permearam a história intelectual dos Estados Unidos. Acontece uma equivalência entre a deformidade física e a mental, com clara sugestão de que aqueles que não possuem a simetria bilateral, a pele clara, os olhos azuis, os cabelos loiros e lisos estão singularmente predispostos à brutalidade. Em suma, o monstro é o não branco.

Portanto, O retorno dos malditos, continuação do remake de um clássico faz parte dessa tradição, você pode até não gostar, mas deve entender sua proposta e situá-la no cinema de terror/horror americano. Pesa contra este filme, especificamente um tom proto-fascista indisfarçável, uma imbecilidade profunda no roteiro e a total incapacidade de criar empatia com o público.

O mais estúpido pelotão em treinamento de todo o exército americano (sendo mais preciso, da Guarda Nacional) vai parar nas colinas onde existe uma família canibal. Com coletes, capacetes, fuzis, e outras bugigangas militares, esses soldados conseguem levar uma inexplicável surra dos mutantes assassinos do mau das trevas.

Inexplicável em termos, pois quando conhecemos os integrantes tudo fica claro... O pseudo protagonista é um soldado magricela que é pacifista, há um baixinho latino esquentadinho, um negro bom de briga meio sinistro, uma loira gostosa que não sei o que está fazendo nas Forças Armadas e uma latina idiota que no meio do território inimigo vai sozinha atrás da pedra fazer um xixizinho toda despreocupada.

Ah me poupa, se eu chamar os moleques da minha rua organizo um pelotão melhor.

O único que tinha um pouco de habilidade era o sargento, mas que, na primeira oportunidade, foi fuzilado acidentalmente por um dos seus próprios soldados – maneira preguiçosa e chinfrim que o roteirista achou de deixar a situação mais cabeluda para os pobres recrutas. No mais o filme é a representação da deformidade como mal, o elogio do branco americano e demonstração da incrível incapacidade dos militares americanos.

Território inimigo, desconhecido, cheio de crateras, montanhas, relevo acidentado. Os soldados decidem se dividir em pequenos grupos (de certo para facilitar a ação dos seus captores), param, conversam, colocam as armas ao lado, discutem uns com os outros, enfiam as cabeças nos buracos. Seria mais previdente brincarem de roleta russa.

Um soldado branco, uma soldada loira, um subsoldado latino, um subsoldado negro. Acontece um incidente e se forma uma dupla e um casal... quem fica com quem?
Quem morre: o casal ou a dupla? Quem sofre na mão dos algozes, a linda moça loira ou a moça latina? Viram, é disso que estou falando...

Dá preguiça.

Cotação: Péssimo.


domingo, 28 de maio de 2017

War Machine




War Machine, 2017. EUA. De David Michôd.

Conforme dito no texto inaugural da temporada de críticas 2017, há algumas recorrências que pretendo discutir nesse blog.

Um elemento a ser problematizado é o progressivo enfraquecimento da comédia como elogio ao absurdo. O rareamento dos talentos cômicos faz parte de um processo mais amplo que vê na comédia cinematográfica a mera sequência de situações triviais ao estilo de esquetes bem comportadas. Ao deixar de tematizar o absurdo da vida moderna, o humor explosivo e audacioso do gênero desmanchou-se em road movies alusivos à harmonia familiar ou ao encontro com o “eu” interior.

Nesse sentido, cabem méritos ao War Machine, produção Netflix, capaz de tematizar o absurdo da guerra moderna em suas diversas dimensões, inclusive a midiática. O general Glen (Brad Pitt) com sua obtusidade é a representação perfeita dos Estados Unidos da América: incontestável, mas ao mesmo tempo, patético, belicista e narcisista. O garoto entusiasmado com o falo.

Glen se presta ao controle das forças militares no Afeganistão, tentando levar democracia e outras benesses ocidentais. Porém, em função da xenofobia ianque, os afegãos sempre aparecem como insurgentes e inimigos, impossibilitando as tropas e o alto comando de fornecer alguma ajuda efetiva. O general tem a percepção desse problema, mas ele não se furta à possibilidade da glória militar, incluindo a participação nos meios de comunicação.

Glen é o novo Patton, porém menos trágico e complexo. Trata-se de um filme com um personagem só; a interpretação de Brad Pitt segura a produção ao criar uma caricatura arrogante, determinada e cheias de boas intenções (mas sem efeitos práticos). Ao fim e ao cabo, Glen é mais um generaleco interessado em arrancar 15 minutos de fama.

Bem Kinsgley, fazendo o papel de um líder títere do Afeganistão, também é uma boa escalação. Presidente Karzai sabe o exato significado da “proteção” (invasão!) americana...

A crítica é contundente, mas falta humor. Com uma proposta semelhante, Queime depois de ler (2008) dos irmãos Cohen elaborou um cotidiano da CIA no qual o viés absurdo e paranoico estava bem impresso na narrativa, tratando-se, portanto, de uma comédia mais eficiente. De qualquer forma, War Machine é uma chamada à reflexão, uma lembrança de que o exército americano não é uma equipe de super-heróis com a missão de patrulhar o mundo. Mesmo que eles pensem o contrário.

Cotação: Bom.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Alien Covenant


Alien Covenant, 2017. EUA. De Ridley Scott

Conforme dito no texto inaugural da temporada de críticas 2017 há algumas recorrências que pretendo discutir nesse blog.

Um dos aspectos a serem tematizados é o “empoderamento feminino” transformado em paradigma de Hollywood. Trata-se do corolário político (derrotado) de Hillary Clinton como uma boa pedida. Significa, por outro lado, uma castração do elemento masculino, pois os personagens do sexo neo-frágil são fracos e desinteressantes.

De fato, há uma galeria de homens incapazes de agir racionalmente. O novo capitão da nave, “homem dotado de fé”, é o melhor exemplo... Quantas saudades de um Kirk ou mesmo um Picard. Vários personagens descartáveis, incluindo as femininas, povoam a narrativa esperando o momento certo de cair nas garras dos bichões espaciais (outrora considerados inspirações de imagens fálicas). O destaque fica para a ativa cientista Daniels (interpretada por Katherine Waterston) e os “sintéticos” (androides) David e Walter interpretados por Michael Fassbender.

Os aliens são um mero pretexto para que possamos acompanhar as desventuras de uma nave por esse sertão galáctico e o verdadeiro antagonista esconde-se no masculino arrogante com as suas criações artificiais. No entanto, é difícil compreender como exploradores espaciais podem ser tão amadores, dando-se ao luxo de agir pela fé, pela raiva e pelo impulso. Assim, cabe ao logos feminino a premência de contornar um amontoado de disparates.

Daniels é vítima da vez, não obstante seu protagonismo. As criaturas alienígenas são brutais, mas apenas isso. Nessa “franquia” há pouco espaço para o otimismo e não deixa de ser curioso que em ambiente vasto (um planeta) prevaleça o ângulo claustrofóbico.

Mesmo assim, o terror não se firma e a heroína percorre sua trajetória com um vigor desperdiçado.

Cotação: ☕☕

Darkman


Darkman, 1990. EUA. De Sam Raimi

Conforme dito no texto inaugural da temporada de críticas 2017 há algumas recorrências que pretendo discutir nesse blog.

Um dos aspectos a serem discutidos é o apego aos heróis como os únicos agentes sociais possíveis. Trata-se de um hiper-realismo no qual toda a ação encontra-se dependente do desprendimento, altruísmo e nacionalismo de seleto grupo de super-seres. Os elementos podem ser cambiados e há até espaço para os anti-heróis, mas o sentido básico permanece: a atuação está restrita aos escolhidos, usem ou não cueca vermelha sobre a calça.

Nesse sentido a necessidade de retornar ao filme de 1990 de Sam Raimi, no qual havia espaço para exageros gráficos que muito destoam do hiper-realismo atual. Além disso, há algo de trash no filme, como os agressivos travelings e os efeitos visuais irregulares (fracos para os padrões atuais). Além disso, Darkman, o homem sem face, parece mais com o coringa de Jack Nicholson, com uma risada grotesca perante a desfiguração do seu rosto. A deformidade e o desespero psicológico do herói o aproximam das figuras freaks do circo americano.

O roteiro e o desenvolvimento da narrativa são elementares, prevalecendo as motivações absurdas e os vilões estereotipados. Envolvido em uma trama de gangsteres e especuladores imobiliários que não faz muito sentido, Peyton Westlake (Liam Neeson) acaba transmutado em Darkman, do médico ao monstro. Mas isso não importa, pois conforme quero destacar, é um filme que não se leva a sério ao percorrer por variações temáticas já presentes em The Evil Dead (1981) ou Evil Dead II (1987). Mais tarde seriam retomadas em Army of Darkness (1992).

É necessário Destacar que Sam Raimi conhecia muito bem os atrativos do cinema trash, aquele tipo de entretenimento que agradava os adolescentes de então. Contraditoriamente ele é um dos pioneiros na nobilitação do subgênero de super-herói com Homem-aranha (2002).

Portanto, compete apontar que o atual hiper-realismo dos filmes de super-heróis têm origens no trash juvenil dos anos oitenta. Façam as conexões! Vejamos sobre quais bases estéticas repousam a atual sensibilidade cinematográfica.

Cotação: não se aplica