domingo, 1 de novembro de 2026

Hope - O primeiro impacto


Hope - O primeiro impacto. Hopeu. De Na Hong-jin, 2026.

São dois filmes pelo preço de um. Temos uma visita ao neoclássico The Host de Bong Joon-ho (diretor de Parasita) com pinceladas de E.T. (Spielberg again...).

O que marca Hope como um fenômeno interessante é a tensão entre a camada inicial – sobrevivência contra monstros – e a reflexão mais profunda acerca da sobrevivência em um mundo hostil. São dois polos distintos, mas bem encaixados que coloca as dificuldades de comunicação como eixo principal.

Na divisa entre as duas coreias, caçadores e autoridades locais deparam-se com uma criatura monstruosa que avança contra a vila causando uma destruição sem precedentes. As autoridades não se mostram preocupadas com a situação da fronteira e a própria comunidade precisa encontrar uma forma de sobrevivência. É uma localidade na qual todos estão militarizados – o que rende as ótimas cenas nas quais o chefe de polícia mostra-se invariavelmente supresso ao ver armamento pesado nas mãos dos civis.

A marca da incomunicabilidade e do estranhamento está para todos os lados, cartazes avisando a presença de minas e a possibilidade de espiões. Como dois países tão próximos, unidos no passado, tornaram-se estrangeiros? Se levarmos em consideração a história das coreias, a invasão monstruosa se clarifica: a incapacidade de compreensão e entendimento entre os envolvidos explica o caos reinante.

O cenário é muito bem construído, articulando uma aldeia isolada (com maioria de idosos) a um cenário de suspeição com relação ao estrangeiro (Coreia do Norte) e a natureza exuberante que funciona com o delimitador natural entre esses mundos. 

Oscilando entre a ação e a horror, o filme consegue se manter como uma reflexão acertada acerca da alteridade. Mas cenas são bem eficazes, embora as cenas de combate com a criatura percam o impacto ao longo da narrativa – mas a estrutura que prepara o espectador para se deparar com monstro é muito eficaz. Ao longo de todo o filme momentos de tensão são balanceados com ligeiros alívios cômicos, embora o timing nem sempre funcione.

Nos capítulos finais o filme introduz uma série de revelações que aumentam a complexidade temática, mas reduz o impacto do horror. As descobertas ocorrem de forma burocrática e parecem não ter efeito real nos personagens já que estes continuam agindo como autômatos. Além disso, é possível questionar como uma série de incidentes na fronteira não despertou maior atenção das autoridades.

O desfecho desloca o filme do terror para a Tragédia (com t maiúsculo) e aposta todas as fichas na incapacidade de compreensão dos seres humanos. No fim das contas, o uso do logos cede lugar às armas como a linguagem básica das relações humanas e inumanas. No entanto, este segundo filme que aparece nos capítulos finais, sugere, tardia ou gratuitamente, um universo que não dá para explorar, funcionando mais como um preâmbulo.

Em função disso não é possível investimos na empatia com os propósitos revelados. Embora é certo que inexista perspectiva de heroicização. Então nesse sentido, o filme é quase pacifista, mas as armas, expressão do desespero e da insegurança, não saem de cena.

Cotação: ☕☕☕☕


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