Visitando a história dos três porquinhos em um universo do qual os três porquinhos são desprovidos de senso mínimo de autopreservação.
À primeira vista Creep pode ser considerado a história de um psicopata esquisito com fixação na figura de lobos. Mas na verdade é uma história de um imbecil que se dispõe a entrar na toca do lobo não uma, não duas, mas várias vezes.
O found footage só funciona se você pressupor que os personagens têm maior preocupação em manter uma câmera na mão do que em lutar pela própria vida. Embora em 2026 isso seja bem provável, em 2014 ainda não estava sim. Então quando vemos um jovem adulto correndo de um lado para o outro com uma câmera na mão ao invés de pegar qualquer objeto para enfrentar o lobinho somos obrigados a reconhecer que há algo errado nos registros de verossimilhança.
O filme acompanha o cameraman Aaron que aceita um job para filmar um desconhecido na cabana. A princípio tudo parece normal, mas as coisas vão ficando estranhas à medida em que Josef vai se tornando mais instável e violento.
O filme tem uma falha estrutural grave porque Aaron consegue escapar no momento em que tudo parecia perdido. Trata-se do verdadeiro clímax, rapidamente descartado em outro arco que se inicia com o cinegrafista em segurança. As perseguições, no entanto, continuam e nosso pobre porquinho não toma as medidas básicas que qualquer homem normal tomaria. Lembrando que estamos falando dos Estados Unidos onde é mais fácil comprar uma arma de fogo do que uma aspirina.
Poderíamos buscar um subtexto homoerótico de repressão sexual, sair do armário, banheira em forma de coração, máscaras de animais peludos, lobão e lobinho etc. Mas seria levar a sério demais uma proposta que atropela até convenções básicas. Da mesma forma as relações incestuosas sugeridas entre Josef e sua suposta irmã/esposa nada tem a acrescentar a não ser a boa vontade da vítima em não procurar a polícia.
Com tomadas muito inverossímeis (há determinadas cenas que não seria possível segurar a câmera e lutar pela sobrevivência) o filme quer te colocar em primeira pessoa para você sentir o medo de Aaron. Mas isso não é possível, porque nem as scream girls seriam tapadas a esse ponto.
Toc, toc, toc.
- Quem é?
- É o lobo, posso entrar?
- Pode porque você está sozinho e um lobo solitário nunca seria perigo para ninguém.
É isso aí, confia.
Cotação: ☕

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