O principal mérito do filme é que a distopia vendida não está lá no futuro, ele é agora. Olhos grudados na tela, perda de humanidade e imbecilidade geral é o problema contra o qual um soldado maluco do futuro terá que lutar.
Brincando com o insustentável absurdo que o capitalismo de nuvem nos colocou, Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra apresenta a possibilidade (pequena, frisa-se) de insurreição contra a inteligência artificial.
Em um mundo no qual as Big techs se tornam praticamente oniscientes cabe a um grupo de excêntricos liderados por um maluco fazer a revolução partindo de um café em Los Angeles cercado por policiais. Por que exatamente ali, e porque daquele jeito o roteiro nunca explica adequadamente. Só fica a rápida certeza de que viagens no tempo e ciclos de repetição (algo do tipo: morreu-voltou) embaralham, embaralham e não levam a lugar nenhum...
Assim, se a proposta é revolucionária, a resposta é reacionária. Se as I.As se transformaram no deus desse novo capitalismo a nós nada restará se não a ilusão de escape. Nesse sentido, as referências a filmes como O exterminador do futuro (1984), Os 12 macacos (1995), Donnie Darko (2001) mostram-se cruéis e estéreis. Isso sem mencionar a triologia Matrix que teve um recente descarrilhamento temático ao garantir que o eterno retorno ao mundo da opressão é a lei.
Com pitadas de humor negro e ficção científica, o filme se compõem de arcos do tipo Black Mirror que se integram à narrativa principal. Uma história envolvente, mas cujo principal risco é perenizar o bordão “There Is No Alternative” de Margaret Thatcher.
Se esse é o tipo de discurso que prega a resistência tenho em me deparar com o derrotismo alarmista vendido aos montes por aí. Boa morte, aquiete-se, não sofra.
Cotação: ☕☕☕

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