domingo, 7 de junho de 2009

A mulher invisível


A mulher invisível, 2009. Brasil. De Cláudio Torres

Um dos principais suportes para a projeção e apreensão do modelo ideal da mulher seria através do cinema. Ao bem da verdade, todas as artes já se preocuparam com a figura feminina, definindo seus atributos e as fontes de seus encantos, portanto esse filme tupiniquim trilha um caminho há muito conhecido.

A mulher invisível relata a trajetória do démodé Pedro que ao ser abandonado por sua esposa cria uma consorte imaginária, perfeita em sua corporeidade e personalidade, uma versão bad girl da “Amélia, a mulher de verdade”. No entanto, essa mulher de verdade não é real, mas ideal, ela vive somente no mundo etéreo masculino, já que as senhoras e senhoritas também possuem suas premissas quanto à natureza dos cabras-machos. Divorciar-se de marido é inclusive uma afirmação existencialista, um posicionamento perante à realidade, extirpando desta os elementos que não lhes interessam ou convêm. Justamente nesses encontros e desencontros de expectativas que a vida amorosa dos varões e das donzelas segue-se.

Aí temos a primeira contradição do filme, já que Vitória, essa sim real e vizinha de Pedro, aguarda durante toda da projeção o momento de entrar em cena. Mesmo sendo casada com um crápula não consegue se divorciar, como sua função é a de esperar, cabe a ela uma resignação, até que um infarto fulminante retire o obstáculo que a distanciava do seu “verdadeiro amor”, separados somente por uma parede, algumas alucinações coletivas e sérias fragilidades emocionais de ambas as partes.

O modelo que prevalece de mulher ainda é Amélia, fiel, conformada, amorosa, afeita ao espaço doméstico. De fato, Vitória é uma vitória para os ultrapassados anseios masculinos de controle.

Mas Amanda (hum... nome sugestivo), a mulher imaginária, é a solidificação de todas as fantasias juvenis de Pedro. Além do corpo escultural, Amanda gosta de trabalhos do lar, assistes aos “clássicos da terceirona”, tem um passado que inclui lesbianismos e, claro, sabe ser amorosa e cativante. Seu único defeito é unicamente não existir, ou talvez não, pois se vivesse uma mulher com tais configurações, provavelmente estaríamos falando de um autômato.

Entre Amanda, a que ama incondicionalmente, e Vitória, o verdadeiro troféu masculino, temos outras duas figuras paradigmáticas: Pedro “the nice” e seu amigo Carlos, um cafajeste vindo dos ano oitenta, com aquele bigodinho supostamente charmoso, mas que lembra a face de um glutão interessado em comer almôndegas de frango no bar da esquina.

Os devaneios de Pedro quase pertencem ao reino das esquizofrenias, assim A mulher invisível ficaria entre Eu, eu mesmo e Irene e Uma mente brilhante, ressalvando, no entanto, que não há nenhuma genialidade matemática em Pedro, um humilde controlador de trânsito.

Mas o filme diverte e, o mais importante, tem fôlego, sempre colocando novos desafios para o protagonista. No entanto, as conclusões apresentadas não resolvem satisfatoriamente os problemas decorrentes dos dilemas morais vivenciados pelos personagens. Pedro precisa de terapia, Vitória é uma bisbilhoteira e Carlos é o elo mais fraco da história, uma muleta para facilitar o prosseguimento da narrativa. O “encontro” final entre Pedro, Amanda, Vitória e Carlos possui a consistência de uma apresentação teatral improvisada, um anticlímax, ninguém parece empenhado em dar credibilidade ao ato. Não tem problema, entre tantos devaneios não há por que se cobrar a verossimilhança.

E aqui, o blog acaba.

Cotação: Regular

10 constatações cinematógráficas.


Os negros americanos acham Conduzindo Miss Dayse ultrajante, Morgan Freeman surge como alguém muito auto-condescendente.

Michael Bay nunca deveria ter existido, se houvesse um código de ética no cinema ele estaria longe dos portões de Hollywood. Bem, se existisse um código de ética para o cinema acho que não teríamos Hollywood.

As comédias românticas foram criadas para satisfazer as fraquezas emocionais de adolescentes gordas de 17 anos. As razões pelas quais tal produto caiu no gosto geral ainda não são inteiramente conhecidas.

O cinema americano é capaz de tudo: explosões, combates sangrentos ou anêmicos, canibalismos, insinuações sexuais das jovens lolitas, violência realista ou caricata, pelejas, patriotismo barato, redenção de vingadores, mercantilização dos corpos feminino e masculino. O cinema americano só não é capaz de lidar com a nudez masculina, nem por 10 segundos. Há que se pensar se Hollywood não terá, um dia, que deitar no divã.

A julgar pelo cinema, a América está rodeada de inimigos. Em ordem: alemães, japoneses, russos, chineses, mexicanos e árabes. Certamente, eis o fardo do homem branco (sic).

O cinema de terror/horror está em declínio, as possibilidades de assustar, incomodar e revoltar foram diluídas e adquiriram um novo formato mais palatável aos garotos espinhentos que escutam Red Hot Chili-peppers. Não se esquecer que as loiras peitudas de 18 anos continuam presentes nesse gênero: magrinhas, indefesas e com roupinhas bem insinuantes. Ai, que clichê o imaginário masculino...

A julgar pelo cinema, a América pode contar com poucos aliados. Os únicos confiáveis são os ingleses, uma vez que os franceses não passam de uns “flosôs” (sic).

Jason X nem é tão ruim, a relação fetichista entre o nerd semi-adolescente e sua dróid é bem anos oitenta.

O cinema americano deveria se circunscrever as suas especialidades e parar de biografar os devassos notários. Contos proibidos do Marquês de Sales foi constrangedor, reduziram um pensador iluminista à insanidade. O desaparecimento de Garcia Lorca nos convence do cristianismo e do “bom-moçismo” de um aguerrido dramaturgo anarquista. O Libertino faz desejarmos a monogamia e o sexo com camisinha. Por favor, que não se dediquem às vidas de Nietzsche ou de Marx!

A sala de projeção é mágica, o momento por excelência da realização cinematográfica. Também deve comportar algo de afrodisíaco, pois os casais de namorados frequentemente confundem Cineplex com motel.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Divã


Divã, 2009. Brasil. De José Alvarenga Jr.

Repica Remi, repica!

O cinema brasileiro vai bem, é o que dizem.

Como assim? Bem mal?

Repica Remi, repica!

Salas lotadas e público se identificando com as temáticas brasílicas. Viva! É a retomada do cinema nacional. Por exemplo, em Divã vemos as aventuras e os tropeços de uma respeitável senhora meia idade (sem ofensas), típica classe média. Professora particular, pintora amadora e dedicada esposa. Acompanhamos seus receios (que tédio), suas aflições (saco!) e seus desejos mais íntimos (ih…).

Repica Remi, repica!

Ela e seu marido, ela e seus filhos, ela e seus amantes (nossa, que escândalo), tudo naquela design “moderninho mas comportado”. Enquadramentos medíocres, cortes e diálogos característicos de uma telenovela. Narrativa previsível, encadeamento linear, personagens que amadurecem a partir das escolhas efetuadas e vivências experimentadas.

Repica Remi, repica!

A mulher adormecida em si mesma quer sentir novos prazeres, descobrir outros mundos. Mas e o cinema? Perguntam os desavisados. Onde está a Sétima Arte? A provocação? Quem se importa! Os diálogos são engraçados, carinhas bonitinhas na medida certa. As donas de casa recalcadas terão a oportunidade, nem que em um faz de conta bem vagabundo, de se imaginarem como transgressoras.

O ponto alto do filme: a dedicada Mercedes finalmente encontra um amante a altura. Chego a pensar (que roteiro mal feito!) que é uma de suas fantasias solitárias de 20 minutos. Nada, ela realmente traçou o bonitão do Theo, interpretado pelo Reynaldo Gianecchini, um gentil rapaz que deve visitar os sonhos de muitas quarentonas com alianças na mão esquerda. Consumado o affair, vemos na cena seguinte nossa Dona Ruanita* no salão – feliz como só as mulheres conseguem ser após uma noite de lua de mel – exclamando para seu cabeleireiro:

Repica Remi, repica!

Tão contentinha a ponto de querer um novo corte, mais coerente com sua condição de super-woman.

Repica Remi, repica!

Repica Remi, repica essa película e joga no lixo.

Ah, faz favor, repica.

* Dona Ruanita = Don Ruan

Cotação: péssimo

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Ele não está tão a fim de você


Ele não está tão a fim de você (He's Just Not That Into You), 2009. EUA. De Ken Kwapis

Faz tempo que não escrevo sobre bons filmes, nos últimos posts tenho favorecido essas produções mais insossas, a razão para isso não é o interesse em criar polêmicas ou provocar o espectador médio, mas, confesso, são as nulidades que mais me despertam o fascínio.

O que alguém busca em um filme como esse? Quais os conteúdos ocultos existentes nessas películas?

Parece que estamos falando do amor, mas uma interpretação desse sentimento muito específica, baseada em preceitos próprios de uma sociedade conservadora e de consumo. O velho e desgastado modelo da comédia romântica, com algumas incrustações que iludem o desavisado, a falsa promessa de uma dinâmica mais modernosa.

É um mundo no qual inexiste a pobreza, as únicas preocupações são os beijinhos na boca e o sexo apaixonado. Mulheres buscam o par perfeito, objetivam casar, faz parte da essência feminina; uma das personagens, inclusive, evoca essa lei, ao falar para seu parceiro que o matrimônio é uma etapa obrigatória da vida a dois. Trata-se da naturalização de um modo de vida e da eleição de uma série de valores potencialmente machistas (há a esposa, o marido e as obrigações/funções decorrentes), mas legitimados por um discurso idílico e romântico.

Já os homens estão relutantes em aceitar essa “lei da natureza”, pois são garanhões natos, conquistadores – querem a quantidade e não a qualidade. Quanto mais mulheres passarem pelos seus leitos, melhor. Esforçam para se manterem livres da monotonia do sexo monogâmico, no fim das contas são um presente de Deus para as gentis donzelas.

Na grande batalha dos sexos cabe a mulher um papel fundamental: vencer a áurea cafajeste masculina e impor o desejo de uma vida sob a égide do “... até que a morte os separe”. Jogo da vida, alguns vencem e outros perdem, estes últimos ineptos para os prazeres dos atos conjugais.

Dentro desse universo previsível agem os personagens, que mais parecem autômatos, desde o início condicionados em buscar a “cara metade”, o “par perfeito”, a “alma gêmea”. As personagens femininas são tão estúpidas que realmente merecem a solidão, presas às mentiras masculinas, revelam-se incapazes de escapar do desejo de construir e viver em uma casinha de bonecas. Despendem um bom tempo construindo suas casas (real ou figurativamente), a cenografia diz tudo: “Estamos brincando de The Sims, onde coloco essa cadeira? Qual o ladrilho devo escolher?”.

Os homens são adoráveis vagabundos – com exceção dos pobres coitados que padecem da falta de virilidade e assim não arrebatam as gatinhas mais prendadas, tal como a Scarlett Johansson. Riem da paixão e do casamento até a descoberta do grande amor, nessa ocasião se atirarão encantados em direção aos braços de suas Dulcinéias ou Clementinas. Pelo grau de imaturidade e incapacidade de uma relação responsável com o mundo, todos eles mereceriam câncer de próstata e calvície avançada.

A fórmula do filme segue abaixo.

Ele não está a fim de você. Por quê? É um babaca, um imaturo, não está pronto para o amor, só quer sexo, não quer ter filhos, recusa compromissos, não acredita nos verdadeiros sentimentos. Ele finalmente ficou a fim de você! E aí, o que acontece? Vocês se casam, têm filhos, mudam-se para o subúrbio, andam abraçadinhos e viverão um para o outro.

É um discurso convincente, há sempre um público para acreditar nessas promessas. Mas do ponto de vista da narrativa fílmica percebe-se a previsibilidade e os lugares comuns repletos de moralismos, com implícitos chauvinismos e as homofobias de sempre (mesmo que diluídas em um grau de aceitação social).

Já disse, é a naturalização de um modo de vida, a hipertrofia da esfera privada, o deleite extremo do intimismo. Me fascina a idéia de que tais banalidades tem público cativo, todos os problemas do mundo, dentro de tal perspectiva, findam-se no altar.

Conveniente. Mas para quem? Essa é a pergunta.

Cotação: péssimo

sábado, 4 de abril de 2009

Monstros Vs. Alienígenas



Monstros Vs. Alienígenas (Monsters Vs. Aliens), 2009. EUA. De Rob Letterman e Conrad Vernon

Essa semana o feminismo foi um tema que me veio à tona em várias ocasiões. Lendo um dossiê da Cult sobre o assunto fico sabendo sobre a teologia feminista e o esforço de algumas filósofas para desconstruir a concepção de um Deus patriarcal. Também, meio por acaso, encontrei algumas antigas anotações que eu havia feito sobre O Segundo Sexo de Simone de Beauvoir. Finalmente, entregando-me ao ato ilícito de assistir um Dvd pirata na casa de um amigo, deparo com esse novo produto da DreanWorks.

Produto embaladinho, bem feitinho e divertido, nada demais, mas desta vez colocando uma mocinha na condição de protagonista, o que garante o charme do filme. No dia do seu casamento, Susan é atingida por um meteorito e sofre um processo de gigantismo transformando-se na quase heroína Ginórmica. Desesperada com sua condição, ela é capturada por agentes do governo e trancafiada junto a outros “monstros” (uma barata cientista, uma gosma indestrutível, um anfíbio e um inseto super-gigante).

Criaturas que fogem aos nossos padrões antropormóficos e por isso mesmo devem ser escondidos dos olhares do restante, até que o aparecimento de um malévolo vilão cria uma oportunidade para que os monstros demonstrem seu valor. São os resquícios da Era Shrek de animações: o permanente desejo de aceitação social.

Salva o filme as referências aos clássicos da ficção científica (algumas sutis e outras nem tanto) e a divertidíssima figura do presidente americano retratado como um idiota (estamos cansado de saber disso, mas eles lá não), além, claro, da personagem principal, Susan, a menina de 15 metros.

Inicialmente uma genuína casadoira, frágil e feminina, mas que no decorrer da história se reconhece como capaz, percebe que seu noivo é um cafajeste de pequena grandeza e que sua felicidade não está condicionada a um anelzinho em seu dedo. No final, sua opção é ser uma profissional de sucesso no especialíssimo mercado de defesa planetária. Bem, não sei se isso pode ser chamado de feminismo, mas já é um passo adiante em relação aos finais ultra-açucarados da Disney.



[Ginórmica, uma citação à mulher de 50 pés ou só o atestado já corriqueiro do esgotamento da criatividade em Hollywood?]

Susan é referência direta à personagem do clássico fic-sci Attack of the 50 ft. Woman, uma provocação divertida, mas inofensiva acerca da suposta superioridade masculina. Não estamos falando de sutiãs em chamas ou revisão dos cânones da civilização ocidental, trata-se somente de uma animação que não bate nas mesmas teclas do chauvinismo reinante em produções do gênero. O que já é algum consolo.

Agora, fala sério, que homem em sã consciência dispensaria uma mulher de 15 metros? Vê se isso não é um mulherão...

Cotação: regular

Fome animal


Fome Animal (Dead Alive), 1992. Nova Zelândia. De Peter Jackson

Tem filme que foi feito por cinéfilo e para cinéfilo, o público usual simplesmente não entende qual o fascínio uma produção ao estilo de Fome Animal é capaz de exercer.

Posso dizer que estamos diante de um clássico dos filmes de zumbis, possível e ironicamente o melhor trabalho de Peter Jackson, infelizmente mais conhecido por ter contado uma história sobre garotos descalços, anéis e elfas peitudas...

Um filme cheio de citações divertidíssimas: vemos um rapaz filho de uma mulher castradora, eles moram em uma casa no alto da colina (Psicose). Também vemos um carrinho de bebê meio sinistro, em seu interior esconde-se uma assustadora criatura (O bebê de Rosemary), isso sem falar do diálogo – se voluntário ou ao acaso, isso não importa – com o excelente A morte do demônio de Sam Raimi.

Lionel é um bom rapaz, porém facilmente dominado pelas pessoas, sobretudo se forem mulheres. Além de ser tiranizado pela sua mãe ainda há os encantos da jovem Paquita – cujo nome, carinha e atuação parecem lembrar os atributos de uma atriz pornô.

Entretanto, um raro macaco da Sumatra (!) mordisca o braço da mãe de Lionel, a Senhora Cosgrove, que se transforma em um... isso mesmo, não precisa nem continuar...

Essa grotesca velha desenvolve uma apetência bem incomum, atacando várias pessoas ao seu redor e, naturalmente, infectando-as. Enquanto isso, a versão neozelandesa de Norman Bates (personagem de Psicose) esforça-se para conter sua genitora e as pessoas por ela agredida, mas sua inépcia faz com que os problemas assumam dimensões cada vez mais desastrosas.

Vale lembrar que Peter Jackson se preocupa em fornecer todos os detalhes para o espectador. Um navio negreiro parou em uma Ilha da Sumatra, ratos gigantescos desceram e estupraram as macacas nativas, desse cruzamento surgiu uma rara espécie capaz de transmitir a peste dos mortos vivos. Quando um desses animais é capturado e levado ao zoológico da Nova Zelândia, os problemas começam. A história se passa em 1957, o que acresce um ar especial ao cenário, ao retratar um modo de vida bem ao estilo do American Way of Life.

Os personagens são muito bem desenvolvidos, mesmo aqueles que aparecem em uma única cena cumprem seu papel, ao exemplo do veterinário nazista. Mas bacana mesmo é o padre que decide “Dar porradas nos zumbis em nome de Deus” ou algo do gênero.

Podemos dizer que Lionel Cosgrave é o oposto de Ash Willians, o personagem do já citado A morte do demônio, um conquistador de mulheres que não tem pejos em mandar os possuídos para o outro mundo. O protagonista de Peter Jackson, no entanto, só se aproxima do seu contra-exemplo nos momentos finais quando, de posse de um cortador de gramas, passa a proferir frases de efeito ao estilo do nosso querido Ash.

O confronto final fica por conta de Lionel com sua mama, que tenta devolvê-lo ao seu ventre, de um jeito ou de outro. Mas até chegar nesse momento, todos os exageros do gore terão sido mostrados... dando enjôos nos estômagos mais fraquinhos e desavisados.

Um filme primoroso, mas que infelizmente tende a agradar somente os fãs do gênero ou os cinéfilos de carteirinha.

Ainda bem que não sou nenhum desses dois...

Cotação: Ótimo

sábado, 21 de março de 2009

Gran Torino



Gran Torino (Gran Torino), 2008. EUA. De Clint Eastwood

O filme interessa para os estudiosos do cinema, uma vez que ele é extremamente autoral, isto é, visita temas recorrentes da filmografia do diretor/ator Clint Eastwood. No entanto, não há como não apontar as gritantes falhas dessa produção.

A grande pergunta é se Walt Kowalski (interpretado pelo próprio Eastwood) é, de fato, um homem durão ou se trata somente de um babaca genuinamente americano. A história começa em um templo católico com uma missa de corpo presente, o velório da Sra. Kowalski. Enquanto as pessoas se voltam para o altar, acompanhando a pregação do jovem e titubeante padre Janovich, o recém viúvo prefere encarar seus parentes, com um rosnado mal humorado e um olhar de desaprovação direcionado para minúcias sem importância, como o pircing no umbigo de sua neta.

Se nem a morte da “mulher mais maravilhosa do mundo”, como será dito em algum momento por Kowalski, consegue desarmar sua carranca, tudo mais cai no implausível. O personagem acaba por soar muito caricato, uma auto-paródia de todos os tipos vivenciados por aquele ator. Se “Walt” é divertido para o espectador – afinal suas más respostas e seu mau humor surpreendem e fulminam – o mesmo não pode ser dito para as pessoas que são obrigadas a conviver com ele. Não há paciência de Jô que suporte alguém que se refira aos outros norte-americanos como “chinas”, “negrinhos” ou chicanos... Não fica claro se a postura do protagonista transmite um racismo sincero ou apenas revela uma de suas facetas de “cara durão”, mascarando seus verdadeiros sentimentos.

Walt Kowalski insiste em morar em seu antigo bairro, que agora está completamente esvaziado dos bons (e brancos) americanos. A comunidade foi tomada por descendente de mexicanos, negros e imigrantes do Laos (Ásia). Claro, onde não há o homem branco prevalece a

Bagunça.

Sim. Casas descuidadas, brigas de gangues e atos primitivos. Pelo menos na interpretação do nosso amigo “Walt” – que só não é 100% USA por ser descendente de polonês e católico.

Seu cotidiano consiste em ganir para os vizinhos, beber cerveja, cuidar de seu gramado e polir seu carro Gran Torino 1972. Até que ele começa a se envolver com seus vizinhos, descendentes de um povo chamado hmong. Os irmãos Sue e Thao conquistam a simpatia desse recluso rabugento. Com dificuldade em relacionar com seus filhos, que parecem não têm o menor tato para lidar com o pai, Kowalski acabará por encontrar algum conforto no convívio com a família Lor.

Mas aí é que a vaca vai pro brejo (e o filme também), porque esqueci de mencionar que esse aposentado ex-operário da Ford tem uma predileção por andar armado e apontar suas guns na cara (ou devo dizer fuças?) do primeiro pobre coitado que ameace a compurscar seu american drean. Problema é que Sue e Thao estão sendo perseguidos por uma gangue local, e o octogenário se sente apto a interferir nessa situação.

Nesse meio tempo Kowalski decide transformar Thao em homem, leia-se ensiná-lo a usar ferramentas, a falar palavrões (uhu! Que macho!) e a paquerar garotinhas incautas (bem, essa lição eu também gostaria de aprender). Enfim, nem drama e nem comédia: mas uma tragicomédia!


[Amerika: the car, the gun and the flag!]

O desafio que a narrativa coloca para o protagonista é grande demais, não há como ele vencer uma gangue de rapazes fortemente armados.

Aí está Clint Eastwood, aí está a auto-confissão de que estás velho.

Com cinco anos a menos, Kowalski seria o treinador sisudo que prepararia o jovem Thao para massacrar os bárbaros também asiáticos.

Com vinte anos a menos, Kowalski seria o sargento durão (vide O destemido senhor da guerra) que entraria no gueto com um fuzil militar dilacerando a carne dos malditos chinas.

Com quarenta anos a menos, Kowalski seria o policial machão, uma pistola em cada mão, chute na porta e bala nos meliantes, depois viriam as outras viaturas para ensacar os corpos.

Com cinqüenta anos a menos, Kowalski seria o cawboy implacável, um revolver, seis balas e a determinação, o resto já se sabe.

Porém, com uns 80 anos, não há muito a ser feito. Suas atitudes são, portanto, inconseqüentes e sugerem um alheamento do mundo próprio dos senis. O único personagem que parece pensar é o padre, que pergunta “Por que você não chamou a polícia?”, pergunta óbvia, mas com resposta igualmente evidente: porque Walt Kowalski se julga capaz de resolver o problema das gangues ao mesmo tempo em que protege seu gramado.

Não há nem muitos elementos para justificar sua personalidade agressiva, apesar de ter participado da Guerra da Coréia, no restante de sua vida ele viveu como um civil, tendo trabalhado em um “emprego comum”. Nada que explique esse comportamento, excetuando, claro, a crença em uma América linda, rica, ostentosa e segregacionista, porém perdida, existente somente ao nível da memória.

Daí o Gran Torino, carro americano por excelência, outra relíquia do passado.

Cotação: fraco

Motoqueiro Fantasma


Motoqueiro Fantasma (Ghost Rider), 2007. De Mark Steven Johnson

Bem, eu poderia falar sobre esse filme. A constante estrutura da Marvel: pegue seus super-heróis, crie um drama estereotipado em sua volta e pronto. Sirva ao público e eles haverão de gostar.

Por isso, ao invés de falar de Motoqueiro fantasma, eu narrarei os

Bastidores do cinema ou o que eu senti assistindo ao filme

Estou sozinho em casa, sentado, com os pés sobre a escrivaninha. Em minha frente o computador está ligado, tenho um longo trabalho a fazer e a única coisa que eu digitei foi asdfg.

Dou uma espreguiçada. O celular toca. Quase nunca toca, mas naquele momento tocou.

Eu atendo: “What’s up?

É uma voz feminina. Não. É uma linda voz feminina.

Cinema, hoje, que tal?”

A voz feminina só não é mais linda que a sua dona. Consigo balbuciar um sim.

Local X, hora Y, ok?

Como um bom favelado, só consigo pronunciar: “Demorô”.

Estou em frente ao cinema, ela vem se aproximando. She is so pretty. Pergunto a ela o que quer assistir. Se ela me convidasse para um pacto suicida, a única coisa que eu perguntaria seria o traje adequado para a ocasião.

Infelizmente ela não propôs um pacto de morte, mas sim que assistíssemos Motoqueiro Fantasma.

No problem. Ver um filme ruim em uma boa companhia é quase o mesmo que ver um ótimo filme com uma péssima companhia – bem.... na verdade não, mas naquele momento eu tentei me enganar.

Lógico que minha expectativa quanto ao filme não era das melhores. Estava mais preocupado com os olhos azuis da minha companhia e o batom cor de néon que ficava tilintando em seus lábios.

Fila. Ela quer comprar pipoca. Fosse outra pessoa: eu começaria a rir, perguntaria se também iria tomar Coca, provaria por a+b que cinema não é lugar de comer, e por fim arremataria com a crítica à vinculação entre cinema e fast food.

“Vai beber o que?” Pergunto...

Fila. Ela diz: “Isso é tão ridículo, não acha?”, ela me aponta um casal de namorados, “Aquela menina é tão branquinha, junto com um cara tão escurinho”.

Desolação, ela é nazi, é racista. Seria eu capaz de me envolver com uma mulher que defende o Apharteid? Que legitima o nazismo? Que questiona o sagrado e universal princípio de que todos os homens são iguais? – nossa, ela tem um pé tão bonitinho... por que não? Ninguém é perfeito...

Desconverso. Dentro do cinema, sentamos. Então ela inicia sua explanação sobre seus filmes preferidos: eles envolvem perseguição de carros, explosões, cenas de lutas fulminantes, musiquinhas dançantes e efeitos especiais estrondosos.

Hum... se uma cinéfila fizesse meu tipo eu daria em cima da Sofia Copolla...

Bem, infelizmente não se limitou a isso. Eu tive que aturar meia hora de mastigados estrondantes de pipoca, ela não desligou o celular (que a propósito, em um determinado momento tocou – se ela tivesse atendido tudo teria acabado ali mesmo). Por fim, a gota d’água: quando o motoqueiro fantasma desce uma inclinação de 90º graus – sim, sua moto pode subir e descer prédios por um “dá cá a palha” – ela não se conteve e deu um gritinho.

Uhh

Deus, tudo, menos isso. Uma coisa é negar o holocausto, a outra é gritar no cinema. Concluo que nunca daria certo.

Fim do filme – o bem vence o mau, ou o mau vence a si mesmo e se torna o bem... ah quem se importa!

Ela diz que gostou da minha companhia, diz que teríamos que fazer isso mais vezes. Eu respiro fundo e me armo para dizer a verdade. Ela joga o cabelo para traz de uma maneira tão sui generis que eu percebo o quanto sou intransigente. Não posso fazer juízos de valor de forma tão precipitada. Me aprumo e digo: “Com certeza, devemos fazer isso mais vezes”.

Que bom, agora eu tenho que ir, marquei de encontrar com meu namoradinho daqui a meia hora”.

“What? What? What’s hell?”

Eu caio de joelhos ao chão, sinto uma tremenda febre, sai fumaça da minha jaqueta, meu corpo está em chamas. Minha cara é uma bola de fogo. Sim! Eu sou o motoqueiro fantasma. Saio correndo pelo saguão com uma risada diabólica e salto bem em cima da minha moto (eu nem não sabia que tinha uma...).

Percorro a cidade em minha fantasmagórica motocicleta, percebo que sou um amaldiçoado, o filme, finalmente, faz todo o sentido para mim.

Cotação: péssimo

Pós escrito: minha crítica favorita, a mais verdadeira, até hoje tenho traumas com essa experiência.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Milk


Milk, a voz da igualdade (Milk), 2008. EUA. De Gus Van Sant

Em minha opinião o neoliberalismo adentrou até no mercado de relacionamentos. Se mulheres e homens fossem ações negociadas em uma bolsa de valores, o preço das primeiras estaria em ascensão e o desses últimos em franco declínio. Sim, mulheres andam caras demais, difíceis demais e incompressíveis demais.

Tanto que se pudéssemos alterar nossa opção sexual, da mesma maneira como nos transferimos de um curso para o outro, haveria muitos varões se transformando em donzelas... e vice-versa, creio. A vida homossexual parece – para o observador externo – um pacato lago em comparação com as avassaladoras ondas do oceano hetero.

Começo obscuro para a crítica de um filme político, mas há uma razão para isso. Em nossa sociedade acreditamos que a opção sexual deriva de uma predisposição biológica, muito embora a maneira de vivenciar essa condição seja cultural. Isto é, existir o homossexual não implica necessariamente na existência de uma cultura da homossexualidade.

É fácil aceitar o homossexualismo, desde que ele seja considerado uma doença (uma fatalidade que simplesmente aconteceu), mas a principal dificuldade surge quando pensamos na homossexualidade como uma opção ou, tanto pior, uma inserção em um determinado universo cultural.

Em última instância prevalece a intransigência à alteridade cultural. Quem diz: “amo os homossexuais, mas odeio o homossexualismo”, está confessando abertamente que os gays ou as lésbicas não têm culpa pelos seus sentimentos e desejos, mas que eles se equivocam ao se comportarem de forma desviante dos padrões socialmente aceitos. A lógica é: “nada contra um homem beijar outro homem, desde que não seja na minha frente”.

Harvey Milk, ao trazer o homossexualismo para o ambiente político se opõe a esse conservadorismo enrustido. Ele se propõe a dar visibilidade a uma cultura marginal existente nas ruas de São Francisco. Sua relação com os gays e as lésbicas é da mesma dimensão que a de Luther King com os negros. Não há necessidade de dar muita importância para a biologia: bicha é bicha, preto é preto, todo mundo sabe disso. O que ambos os ativistas evidenciam é algo maior, toda a diversidade (tenha base biológica ou não) se expressa cultural e politicamente e assim ela deve ser tratada.

Milk (muito bem interpretado pelo antipático Sean Penn) é o homem que ao sair do armário se viu compelido a se posicionar publicamente em relação a um sentimento que lhe dizia respeito, mas que também ressoava inúmeras trajetórias iguais a sua.

A transição da dimensão privada para a esfera pública é o grande salto do filme, ponto muito bem registrado pela narrativa. Decidir ser gay é uma coisa, decidir representar os gays é outra bem diferente. Quando Harvey Milk percebe que não tem direitos ele opta por explicitar a existência de seu nicho, de revelar a humanidade das dregs, gays e lésbicas. No entanto, aceitar-se como ser político requer mais esforço do que se assumir como homossexual. Trata-se de tarefa para uns poucos mártires, com os quais, aliás, a tradição liberal americana sempre pode contar.

Em suma, um filme sobre escolhas, sobre representação políticas de minorias culturais. Nada a ver com biologia, tudo com antropologia. Nem só de exibicionismos, farras e amassos vive a cultura gay, há um momento que ela quer ser encarada politicamente. Ao final, o que se conclui é que os homossexuais conseguiram constituir uma rede de solidariedades mais eficaz que a de outros grupos historicamente mais articulados.

Claro, quem escreve essa crítica é um velejador perdido nas tsunâmicas ondas heterossexuais, invejando, com toda a força do mundo, a calmaria dos lagos gays.

Cotação: Bom

quarta-feira, 4 de março de 2009

Quem quer ser um milionário?


Quem quer ser um milionário? (Slumdog Millionaire), 2008. EUA/Inglaterra/Índia. De Danny Boyle

Definitivamente alguns filmes não passam de excesso de purpurina. A mesma baboseira, o chauvinismo de sempre, as pílulas de alienação... no entanto, vendidos em cores diferentes, nova embalagem, moderna e arrojada, para atrair o interesse do público (que tem uma memória muito fraca, diga-se de passagem).

O desenvolvimento da narrativa se revela eficaz e prende a atenção do espectador. Isso sem falar da habilidade do cineasta em percorrer as cidades indianas e escancarar suas gigantescas desigualdades sociais, mas o olhar do diretor é quase de dentro, sem a intenção de buscar exotismos. Há até algumas cenas que subvertem de todo esse ponto de vista ocidental, quando os turistas americanos são apresentados como inconseqüentes, desinformados e bocós.

O cenário vive: plenamente articulado à narrativa filmica, integra-se por completo às trajetórias dos personagens, esclarecendo suas motivações e personalidades. Acompanhamos a história do jovem Jamal que cresceu em um universo de favelas, orfanatos e lixões, quase sempre acompanhado por seu irmão mais velho Salim (ambíguo e imprevisível). Jamal vive em procura de Latika, sua amiga de infância, até surgir a possibilidade de participar de um programa televisivo ao estilo do Show do milhão. A resposta para a derradeira pergunta lhe traria a fama e milhões (mas não de dólares e sim de rúpias. Pena.).

Se Danny Boyle mostra corpos boiando em rios, casas construídas sobre aterros de lixo e ausência de esgoto e sistemas de água, sua intenção não é apresentar o “outro mundo” para além do ocidente, onde prevalece a barbárie. Também não há avaliação negativa da sociedade indiana, os personagens surgem tão somente como pessoas que buscam a sobrevivência em um contexto adverso.



[Ainda assim cabe a pergunta: alteridade cultural ou banalização da miséria em proveito do "american dream"?]

E é a ausência de um posicionamento político ou ético que elimina qualquer chance do filme agregar um valor mais expressivo. Trata-se somente de uma fábula de sucesso individual, o favelado que se dá bem em um universo onde milhões de outros favelados estarão inevitavelmente presos a um modo de vida inadmissível, seja qual for o padrão de sociedade escolhido (não há relativismo cultural que seja capaz de negar que uma favela ainda é uma favela).

O mundo retratado em Quem quer ser um milionário? se consiste em uma eterna disputa individualista, na ordem do um por um e um contra todos (revertendo a famosa frase dos três mosqueteiros, uma referência importante para o filme). Os mais fracos acabam por sucumbir e se Jamal consegue se safar desse mundo hostil é por um fortuito desígnio da providência, já que ele é uma flor tão rara, capaz de manter seus nobres sentimentos em qualquer contexto.

A típica história do azarão bem sucedido que já foi contada tantas vezes por Bollywood, digo, Hollywood, só que dessa vez com umas tonalidades novas, umas cores fortes, tão ao gosto da estética indiana, mas que por alguma razão sempre me remete às novelas mexicanas da década de 1990.

Dá-lhe Maria do Bairro, dá-lhe menina!

Cotação: Regular

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

O Lutador

O Lutador (The Wrestler), 2008. EUA. De Darren Aronofsky

Agora os médicos dizem que não posso mais ser um lutador

Nossos corpos comportam temporalidades, rugas e cicatrizes são testemunhos de experiências, resistências e fraquezas. O cuidado ou descuidado com nós mesmos têm sentidos que muitas vezes nos escapam.

Pensando especificamente o caso masculino, o que mais me chama atenção é a dedicação de alguns gajos com suas aparências. Muito embora eu seja jovem, saudável e esteja no ápice das minhas capacidades físicas, frequentemente encontro rapazes que, apesar de terem a metade da minha idade (algo entre 14 e 15 anos), apresentam-se muito mais robustos.

Algo naturalmente conseguido através de muitas sessões de musculação, além de uma gama variada de produtos, que vão desde complementos alimentares até anabolizantes. Vale pensar o que se pretende com isso, pois parece que há algo mais do que a busca por um corpo saudável. O hedonismo e o individualismo exacerbado da contemporaneidade podem explicar esse comportamento, mas também permanece a busca pela virilidade, o sentimento de ser macho (seja lá o que isso queira significar) e a ilusão de ser um lutador.

Sim. Ilusão. Afinal de contas, um “guerreiro” pode esconder as mesmas fragilidades que um “não guerreiro”. O corpo humano é delicado e propenso a complicações, não importa: seja homem, mulher, varão ou fracote; todos estamos presos a vida por um fio.

Rand (interpretado por Michael Rourke) parece atinar para esse entendimento ao final de sua trajetória de wrestler. Um praticante profissional de luta livre, famoso em sua juventude, que ao se deparar com as complicações de sua atividade e as limitações impostas pela idade decide encerrar sua carreira de lutador. Contudo não é tão simples deixar cair a toalha, já que lhe resta somente a identidade de gladiador, a única vitória alcançada de fato em uma vida dissipada.

O filme, em alguns momentos, alcança uma tonalidade quase documental, quando percebemos os truques da luta livre (mas ainda que os combates sejam encenados, eles são dolorosos para seus participantes). Mais do que isso, o filme se ancora no real, tornando as decisões de Rand muito verossímeis, críveis para um integrante do “universo wrestler”.

Ao contrário do “Rocky, um lutador”, que remonta a fábula do self-made-man, o filme de Darren Aronofsky quer um diálogo mais direto com a crueza dos ringues e bastidores. O suposto cuidado que os lutadores têm com seus corpos só parcialmente é verdadeiro, pois todos estão dispostos a consumi-los em pelejas feitas unicamente com a intenção de agradar o público – uma forma de alcançar fama e dinheiro.

Sylvestre Stallone criou um personagem que digladiava por valores – a crença nos Estados Unidos, na família, nos laços de amizade, no sucesso individual – enquanto Rand apenas quer se afastar de um “mundo baunilha” que lhe reserva um emprego medíocre. Seu hedonismo é a manifestação da solidão, das dificuldades de se relacionar com a filha ou de seus descompassos com a dançarina Cassidy, sua quase namorada.

Aliás, Marisa Tomei é o contraponto feminino, ela interpreta uma striper, inserida em um meio similar ao de Rand, pois assim como o lutador ela deve se expor ao olhar público. Uma outra faceta do culto ao corpo e da supervalorização da imagem, igualmente ameaçada pela fugacidade das coisas.

Agora os médicos dizem que não posso mais ser um lutador

É nessa frase que se esconde o dilema existência do personagem. Não faz sentido uma outra vida que não aquela. Para preservar a imagem de um corpo perfeito vale arriscar seu próprio bem estar.

Não é a força ou a juventude que se busca preservar, mas a ilusão de poder possuí-las por um tempo indeterminado. Os derradeiros momentos do filme nos permitem intuir que Rand atingiu essa compreensão.

Mas os rapazes de 15 anos, entrelaçados naquelas máquinas de levantar pesos, não conseguem atinar para essa sabedoria. Não conseguiram ainda. O tempo cuida disso, já-já.

Cotação: Bom.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Operação Valquíria


Operação Valquíria (Valkyrie.), 2008. EUA. De Bryan Singer


Tom Cruise não andava muito bem das pernas. Depois de subir nos sofás e se dedicar a explanações filosóficas (vide a cientologia) ele percebeu que sua carreira estava por um triz. Então, para salvar sua reputação (ou o restante dela), ele decidiu aceitar esse trabalho e ir para o tudo ou nada.


Pobre Tom, decidiu salvar sua carreira interpretando um oficial nazista que tenta reiteradas vezes matar Hitler, sendo mal sucedido em todas elas; um conceito um tanto heterodoxo para um (ex)galã hollywoodiano. Aliás, o filme começa com ele levando uma sova de caças aliados e termina com sua punição exemplar pela tentativa de assassinato de füher. Ou seja, assim como o ator, o personagem só leva bofetadas...


A maneira como o espectador é introduzido na narrativa é inteligente, inicialmente fala-se em alemão, mas os sons e frases começam a se transformar em inglês, uma maneira de “fazer de conta” que se está falando alemão. Pena que o diretor não era o Mel Gibson, daí todo o elenco teria que fazer uma temporada no Cultura Alemã...


Vakkyrie é o nome do plano utilizado pelos dissidentes para tentar eliminar Hitler. Lastimavelmente esse filme é mal sucedido em todas suas tentativas, as representações de um Hitler medíocre e maligno são redundantes (já vimos isso várias vezes). Há uma cena em que ele aparece de costas, sentado em uma cadeira acariciando, um cachorro (sim! eles usam esse clichê) – eu quase exclamei “Dr. Evil!”, isso sem falar que o brilhante estadista alemão assina documentos importantíssimos sem se dá o trabalho de lê-los...


Já o personagem de Tom Curise, coronel Stauffenberg, é um cristão, corajoso, temente a Deus, fiel a Alemanha, pai amoroso, marido exemplar que decide ingressar no movimento de resistência alemã. Dessa vez ele atinge laivos impressionantes de canastrice, sua expressão é sempre a mesma, ou ele é um homem sob tensão ou sofre de cálculos renais.


O filme tem dois tipos de personagens, os feios e antipáticos, que são fiéis ao ditador, e os belos e de bons corações, mas que são ou incompetentes ou covardes. O general Olbricht, por exemplo, só toma as decisões erradas, totalmente incapacitado para a condição de liderança do alto oficialato. Aliás, ele me lembrou outro general incompetente, cujo nome não me lembro, do livro de A festa do bode de Vargas Llosa – este sim, um interessante trabalho que também aborda a organização de um golpe para eliminar um ditador, dessa vez um caribenho.


O filme é a crônica de um fracasso anunciado, basta esperarmos os planos falharem, os pelotões de fuzilamento entrarem em ação e as previsíveis declarações de coragem serem enunciadas. Mas dispensável mesmo é a família de Sauffenberg, que só aparece para reforçar as características simpáticas do personagem.


As interpretações, os cenários e o próprio roteiro não possuem vida, que não há como nos identificarmos com a história. O efeito de real é mínimo. Há vários bons trabalhos direcionados para a crítica ou mesmo a tentativa de compreensão do nazismo. Operação Valquíria com certeza não é um deles. Trata-se de uma dessas “fitas” descartáveis que Hollywood faz sem levar muito a sério; só mesmo alguém que se macaqueia em frente a Oprha para considerar esse fracasso evidente como a tábua da salvação.


Decadente.


Cotação: Fraco

Os Infiltrados


Os Infiltrados (The Departed), 2006. EUA. De Martin Scorcese


O filme se estrutura no contraponto entre dois policiais, um deles, está infiltrado na polícia, para ajudar os mafiosos (Matt Damon), e o outro vive o disfarçe de criminoso, para fornecer informações às forças da lei (Leonardo DiCapiro).


Ambos, cada um à própria maneira, são desajustados, a escolha do caminho que decidiram trilhar está justamente ligado às suas experiências no passado. Um procura um substituto paterno (Damon) e outro constrói sua identidade recusando o pertencimento à sua família composta por criminosos (DiCapiro).


Ambos os lados procuram o “rato”, isto é, o infiltrado, uma figura marrom, igualmente odiada. Porém desempenhar esse papel de informante é tarefa difícil, e só pode ser levado a cabo por pessoas desajustadas, que sempre vivenciaram um sentimento de não pertencimento, de fluidez perante qualquer identidade grupal.


Scorcese deixou de fora seus diálogos tão brilhantemente conduzidos, optando também por uma direção mais convencional, embora não menos vigorosa – basta perceber aquela seqüência em que DiCapiro persegue Damon. O essencial nesse filme é a construção dos personagens – que se coincidem em seus antagonismos. Claro, o elenco é impecável, mas DiCapiro é quem se sobressai, uma vez que é o terceiro filme do Scorcese que ele faz seguido.


Em Gangues de Nova York, o ator interpreta um homem violento, que pretende encontrar um lugar em uma gangue, mas, ao mesmo tempo, deseja desforrar a morte do pai, assassinado pelo líder do grupo. Já em O Aviador, temos a figura de um milionário que não consegue se definir, encontrar alguma satisfação, nas inúmeras atividades em que ele se envolve com muita distinção.


Em Os Infiltrados, temos um policial que perdeu sua identidade de homem da lei, e por mais que ele se esforça por recompor essa auto-representação, seu distanciamento da “boa sociedade” é contínuo. William Costigan (DiCapiro) é um tipo assustador, ele se assemelha ao criminoso a um ponto de chegar a se esquecer que é um homem da lei. Nos três casos, os personagens passam por conflitos internos, na medida em que tentam encontrar um ambiente do qual possam se sentir parte.


Por outro lado, Colin Sullivan (Damon), tem a pinta do mocinho, mas sua lealdade está mais direcionada para os grupos mafiosos. Indiscutivelmente ele é um criminoso, embora ninguém perceba. Porém ele também comporta uma dimensão de desajustamento, o que ele teme não é a morte (esta, em nenhum momento o assusta verdadeiramente), mas sim a perda do ethos do bom policial. Ele abandonou a ética da igreja pela da rua – um ponto recorrente na filmografia de Scorcese – pois antes de se filiar aos delinqüentes era um coroinha.


Entre esses dois, paira a figura, sinistra mais cativante, de Frank Costello, o líder dessa facção de criminosos, interpretado pelo consagrado Jack Nicholoson, que consegue compor um personagem típico do universo scorcesiano. Costello é um crítico ferrenho da ética religiosa, sua opção é pela violência, em sua opinião, mas legítima e explícita que a hipocrisia dos eclesiásticos – ele se recusa a ter qualquer contato com os representantes do sagrado, um indício de sua vocação niilista.


Porém, o filme não consegue se afastar muito do cinema de gênero, todos os ingredientes obrigatórios para um filme policial estão presentes. O que vale a pena em Os Infiltrados é a pouca distinção entre as fronteiras da lei e do crime. Basta mencionar que a concepção de justiça sustentada não é aquela compreensão da vitória final do ordeiro sobre o ilícito.


Não. Os criminosos pagam seus delitos por outros caminhos, muito mais obscuros. Os ratos são necessariamente marginalizados, ao optarem por viver nas fronteiras, não resta a possibilidade fazerem uma opção decisiva por um dos lados, pois ao final, esquecerão completamente a quem eles servem realmente.


Talvez nunca descubram que o que eles procuram é a ratoeira.


Sem cotação.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Violência gratuita


Violência gratuita (Funny Games U.S.), 2008. EUA / França / Inglaterra / Alemanha / Itália / Áustria. De Michael Haneke

Crianças têm medo de Bicho Papão. A inverossimilhança do monstro faz todo o sentido para elas. Bicho Papão nada mais é que a soma dos medos infantis: ele ataca a noite quando estão todos dormindo, ele fica debaixo da cama, ele se esconde atrás da porta, os barulhos noctívagos são de sua autoria.

Um dia o Bicho Papão é desmascarado, não há nada debaixo da cama ou atrás da porta, o escuro não é necessariamente uma ameaça e os barulhos não passam de móveis se dilatando. Uma vez adultos, aprendemos a ter outros receios: seqüestro relâmpago, assalto a mão armada, o estuprador escondido na noite, o ensandecido viciado em drogas.

Violência gratuita não funciona comigo. Lamento, mas dois jovens brancos de alta classe, com roupa de golfe e um ar esnobe não são uma ameaça para mim. Disso eu sei.

Gosto de imaginar um travesti vendo esse filme e rindo, pensando: “navalha na cara dos dois, na primeira oportunidade”.

Gosto de imaginar uma prostituta vendo esse filme com um ar meditativo: “já tive clientes piores”.

Gosto de imaginar um detetive da polícia investigativa (com um bigodinho aparado e uma camisa florida suja com molho de almôndegas) assistindo esse filme meio desconcertado: “quebrava a cara dos dois e depois subornava”.

Gosto de imaginar um burguês que vive em condomínio fechado e anda em carro blindado vendo esse filme: “meu Deus! Isso é real! Pode acontecer a qualquer momento!”.

Lembramos que Funny Games U.S é remake de um trabalho feito em 1989 pelo próprio Haneke, originalmente ambientado na Europa. Parece-me crível o entendimento de que as altas classes européias temem que, um certo dia, seus lindos jardins sejam invadidos pela barbárie. É o que acontece com família de Ann, George e o pequeno Georgie, que em certa manhã recebem a visita de dois belos e mortais jovens, interessados em submeter seus anfitriões a degradantes tratamentos.

Se os rapazes fossem negros, com sotaques africano ou jamaicano, a crítica social seria evidente demais. Não é isto que o diretor pretende, uma de suas intenções é abordar a insanidade do terror e da tortura. A maldade pura, desvinculada de qualquer contexto. O bom burguês teme que seus privilégios um dia venham ser cobrados (aqui já é minha interpretação). Nesse sentido, teríamos uma radicalização de Edukators, filme que também retrata o uso de estratégias para aterrorizar as classes ricas (mas nesse último caso, temos motivações políticas expressas claramente).

[Imagem acima: o belo Paul, por traz de sua aparência serena, esconde o torturador de burgueses]

Vislumbra-se o fim de qualquer ilusão de segurança ou estabilidade; o que os refinados jovens denunciam é que não há nenhuma ética aplicável ao universo das classes altas. Elas podem perecer ad infinitum e não serão notadas, pois estão tão escondidas em seus bairros, que passam despercebidas. Não há possibilidade de vicinalidade em uma região de mansões, pois qualquer um pode esconder em suas proximidades um assassino e quando o horror eclode, os “privilegiados” se revelam impotentes.

Paul e Peter, os intrusos, são os que detêm o controle da narrativa cinematográfica e o poder de decidir quem vive ou morre. Mas “Todos devem morrer”, concluem sadicamente. A metalinguagem constante é o verdadeiro desafio ao telespectador, reiteradamente o cineasta nos engana, o resultado do filme já está colocado desde o início. Mas por que torcer pela família aprisionada? Realmente há como se identificar com aquele cenário de classe média alta? Será que eles são tão inocentes assim? Não sei, Caché (outro trabalho de Haneke) nos mostrou a dificuldade de determinar quem é algoz e vítima.

Ao final, esse filme surge como um Bicho Papão para adultos ricos, mostrando que a narrativa pode se desprender por completo da verossimilhança, até mesmo porque o espectador insiste em se enganar que a projeção da tela é o próprio real. Cabe, portanto, uma correção ao preâmbulo desta crítica, o filme assusta ao travesti, a prostituta e ao detetive na mesma medida em que amedronta o burguês, isso porque o cinema é manipulação e nos faz assumir papéis que nos são estranhos.

O faz de conta convence exatamente por ser inverídico.

Cotação: Bom

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Foi apenas um sonho


Foi apenas um sonho (Revolutionary Road), 2008. EUA/Inglaterra. De Sam Mendes

O desejo existe. Mas nem sempre podemos consumá-lo. Isso era verdade nos anos cinqüenta e ainda continua sendo.

Casais infelizes existem, seja no auge do American Way of Life, na Rússia Bolchevique ou na “eterna” Paris.

A grande confusão de Foi apenas um sonho é justamente determinar as causas da desarmonia de Frank Wheeler (Leonardo DiCaprio) e April Wheeler (Kate Winslet); ele, um funcionário medíocre em uma empresa medíocre, ela uma Infeliz (sim, com i maiúsculo) dona de casa. Nesse sentido o filme se mostra menos como uma crítica à sociedade de consumo (um perfeito tema para ser destrinchado em uma mesa de bar) do que como um trabalho intimista que, em alguns momentos, atinge ápices similares a Quem tem medo de Virgínia Woolf? ou um daqueles dramas familiares bergmamnianos.

Mas a verdade é que o resultado funciona e agrada, de forma muito conveniente e eficiente. Isto justamente porque o casal insiste em determinar a própria infelicidade conjugal como resultado direto da asfixiante vida de um subúrbio americano da década de cinqüenta. Eles se mostram incapazes de perceber que nem mesmo Paris salvaria seus relacionamentos – seus planos de mudança para França não deixam de ser um mero escapismo. Em vários momentos o cenário exuberante do condomínio Revolutionary Road se projeta sobre a janela da casa dos Wheeler, mas por trás da vidraça vemos o olhar angustiado de Kate Winslet. Uma expressão similar se expressa no semblante atormentado de DiCaprio, também acometido pelo “peso do vazio”, retornar para a casa e fitar seu palacete, parado em seu verdejante gramado, lhe trás uma sensação indizível de desconforto.

Os personagens revelam uma incapacidade de desejar, não conseguem amar nem a si próprios, que dirá a terceiros, mesmos os “atos de infidelidades” são entremeados mais pelos sentimentos de culpa do que os de prazer. Eles falham até nos momentos de transgressão, pois são péssimos atores, despreparados para interpretarem os papéis que lhes foram destinados – não conseguem ser o casal moderno, mas tampouco o casal tradicional. Não resta nem o consolo da revelação de um sentimento sublime depois de terminada a farsa e retirada as máscaras de atuação, pois o ódio parece acompanhá-los por todos os momentos. Prevalece o sentimento auto-destrutivo em lugar da percepção crítica ou mesmo autocrítica.

Nesse sentido, o “louco” (um matemático excêntrico) é o único que se impacienta com a comediazinha suburbana apresentada. Ele deseja gritar: “vocês são infelizes porque se odeiam, não culpem essa merda de lugar”. No entanto prefere dizer que ele se sentia feliz por não ter o triste desígnio de ser a criança crescendo no ventre de Winslet, gerada em um ambiente de tamanha hostilidade e insanidade. Bem feito. A figura do louco está aí na cultura ocidental por alguma razão, isto é, escancarar o que os “normais” temem revelar.

Difícil compreender o que realmente queria esse “casalzinho moderno”. Não há necessariamente problema nenhum em cometer adultério, em gostar de ter um trabalho maçante, em interromper uma gravidez ou então até em se entediar com os trabalhos domésticos. Só não ponham culpa no sistema, é fácil demais. Os espíritos livres se expressam em qualquer lugar, pelos meios mais criativos possíveis (incluído aí, o sexo com o vizinho ou o teatro amador).

O que não pode ser é justificar as falhas individuais nos problemas coletivos. O filme parece ir nesse sentido, mas é só impressão, ele diz justamente o oposto. Brilhante.

As convenções sociais nos impõem normas, cabe a nós encontrar os meios de flexibilizá-las, coincidindo a felicidade individual com a coletiva. Isso era verdade Antigüidade Clássica e ainda continua sendo.

Cotação: Bom

Velozes e Mortais


Velozes e Mortais (Highwaymen), 2003. EUA. De Robert Harmom

Antes de criticar o filme tenho que criticar a mim mesmo. Estava na locadora e o rapaz me sugeriu "Velozes e mortais". Eu perguntei se era bom e ele na maior cara lavada disse que sim. Eu sabia que ele estava me enganando, mas porque sempre me deixo ser enganado? O filme é uma história idiota (psicopata que usa um carro para matar pessoas) cheio de clichês e furos no roteiro.

Vou citar só alguns exemplos, pois não quero perder mais tempo com essa lástima...

1) Filme de carros envenenados (que conceito interessante!)

2) O relacionamento entre os protagonistas é totalmente forçado. Há um momento em que o personagem principal se vira para deixar que a "mocinha" se troque (que clichê)!

3) O filme é uma história de vingança que, como já foi assinalado por diversos críticos, marca o cinema americano pós 11 de setembro.

4) Só para constar, o personagem principal força a moça a acompanhá-lo, o que é rapto. Mas ela aceita ser subjugada e troca olhares sugestivos com seu protetor... Que lixo!

Sem cotação

Pós-escrito: essa foi uma das primeiras críticas da antiga versão desse blog. Muita ingenuidade esperar algo de bom desse filme. O marketing se baseava no ator James Caviezel, que havia interpretado A Paixão de Cristo. Também se aproveitava do recente lançamento de Velozes e Furiosos. De um lado, Jesus, do outro, carrões envenenados. Bons tempos.

Aproveito a ocasião para revelar (por que agora além de filmes aqui vai ter depoimentos pessoais sobre as fraquezas masculinas...) que finalmente virei homem e vou tirar carteira de motorista. Espero utilizar minhas novas habilidades para arrebatar moçoilas tão prendadas... ou não... ou não...

domingo, 25 de janeiro de 2009

O Curioso Caso de Benjamin Button


O curioso caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button), 2008. EUA. De David Fincher

Hum... é uma picaretagem erudita, se você tiver imaginação e gostar dos dramas Hollywoodianos certamente sairá satisfeito com esse trabalho – muito bem produzido – de David Fincher. No entanto, Jack (1996) de Copolla, com muito menos recursos já nos havia contado uma história similar, mesmo que abusando do ingrediente “água e açúcar”. Tratava-se da história de um garoto que envelhecia mais rápido que o normal, e embora sua mente fosse de uma criança, o corpo era de um adulto.

Em O curioso caso de Benjamin Button temos o inverso, a história de uma criança que nasce velha e, no decorrer dos anos, vai rejuvenescendo, seu relógio biológico encontra-se invertido, empurrando-a da senilidade para a fase lactante. Porém sua mente segue o “ritmo natural”, isto é, sua idade mental sempre está em contradição com a idade física.

De fato, um caso curioso: o motor do filme, se é que assim se pode se expressar, e que dará o fio da meada para acompanharmos a trajetória de Benjamim Button (Brad Pitt) e a sua delicada relação com Daisy (Cate Blanchet). A história é contada do ponto de vista do protagonista, mas a narradora é a neta de Daisy que lê o diário de Benjamim para sua avó moribunda. Hollywood tem uma predisposição toda especial para colocar velhinhas no leito de um hospital (principalmente se forem sulistas), vide o “feminista” Telma & Louise e o constrangedor Ao entardecer (2007, de Lajos Koltai).

O curioso caso de Benjamin Button é consistente, tecnicamente primoroso, vide as ambientações e as próprias maquiagens. No entanto o desenvolvimento do roteiro não consegue escapar dos rocambolismos do gênero. Sofrendo da síndrome de “Forrest Gump”, o protagonista vivencia importantes lugares e eventos, tendo inclusive a chance de participar de um combate contra um submarino nazista, ocasião em que um reles barco rebocador de terceira categoria consegue derrotar (com alguns sacrifícios é claro) uma dessas poderosas máquinas de guerra dos malignos alemães.

Gump, digo Button, desde seu nascimento, quando é quase atirado em um rio, logo em seguida adotado por uma simpática funcionária de um asilo, tem como principal desafio conjugar sua idade física com a mental, na tentativa de alcançar um equilíbrio. Digamos, mentalidade de 17 anos e físico de 67 não é uma situação muito confortável, mas a decrepitude física não o impede de se relacionar com o mundo através da percepção própria de um jovem.

Pode se dizer que o filme seja a crônica de uma morte anunciada, com todos os elementos típicos desses melodramas refinados. As tragédias, os desencontros amorosos, os perecimentos e nascimentos, o “aprendizado de vida” e toda essa parafernália de lugares-comuns chics. Há no meu entender algumas falhas no roteiro, mas que não merecem ser citadas, para não dar ensejo ao previsível (mas não justificável) argumento de que se trata de uma fábula, no entanto, garanto que não vi unicórnios, salvo um ou dois beija-flores. A possível explicação para a singularidade de Button é desconexa e não liga nada com nada – antes tivesse sido descartada.

Curioso é que Button (ou Brad Pitt, sei lá) passa por um processo de “marlombrandomização”, com o decorrer das décadas (trazendo seu inevitável rejuvenescimento) suas aparências e trejeitos parecem sofrer a influência dos anos sessenta. Já nos atos finais temos um indômito motoqueiro (ei James Dean, adorei sua boina!), com algumas angústias existenciais possivelmente pertencentes a um rapaz de 24 anos ou a um respeitável senhor de 65 anos. Tanto faz, os homens nunca crescem mesmo...

Vítima de uma maldição ou talvez gratificado com uma benção, Benjamin tem dúvidas se cabe a ele a possibilidade de uma “vida normal”. Receia que, às vésperas de seu término, sua especificidade possa conduzi-lo a um final de reclusão e solidão. Mas apesar de toda a sabedoria adquirida, ele parece não entender que todo padecimento é solitário, que toda decrepitude é sôfrega. Em sua sinistra e radical democracia, a morte faz pouco caso se sua pele tem à aspereza octogenária ou o frescor do recém-nascido.

Bem produzido, mas pouco consistente. Criativo e até bem desenvolvido, mas falta uma seriedade a esse trabalho, para fazer jus à sua condição de cinema hollywoodiano classe “A”.

Cotação: regular

P.s: Acho que Ao entardecer não se passa no sul dos Estados Unidos, mas fica o dito pelo não dito.

A Última Noite


A última noite (Prairie Home Companion), 2006. De Robert Altman.

No filme tudo respira a passadismo. Claro, em parte é pela morte de Altman, que deu contornos a essa produção que talvez não existissem. É uma comédia triste.

Mas, não importa, a questão da finitude está indiscutivelmente presente em A última noite. A história é sobre a derradeira exibição de um programa de rádio, no ar por mais de trinta anos. A equipe, pessoas mais velhas na maioria, sentem que seu tempo está se esvaecendo. Isso fica evidente nas rememorações que fazem aos tempos antigos.

Um filme sobre um programa de rádio: um show de auditório ao vivo, resquício de uma época em que o som era principal meio de comunicação de massa. Um pé no presente e outro no passado. Assim é o filme e assim é o humor do filme, pois algumas gags são um tributo à antiga forma de fazer comédia. O segurança (e detetive particular) Guy Noir (Kevin Kline) tem maneirismos detetivescos completamente anacrônicos, próprios de um inspetor Clouseau. Há também outra forma de humor mais em voga, marcada pelos diálogos rápidos e estrutura de uma sitcom.

Os personagens, parece, não têm mais resistência para enfrentar a vida – seguros por um fio – estarão perdidos e abandonados quando o programa de rádio acabar; resta uma última noite. O show é a própria metáfora para a vida, por melhor que ela tenha sido, um dia tem que acabar. Essa constatação gera duas possibilidades para os personagens, aceitar a finitude ou relutar perante o fim.

Interessante é que Garrison Keillor (autor do roteiro) tem realmente um programa de rádio nos E.U. nesse molde. No filme ele interpreta a si mesmo e, curiosamente, parece ser o mais impassível perante o fim do programa. Estaria ele brincando com a inevitabilidade das mudanças e com seu próprio envelhecimento?

Há de fato um cansaço que perpassa por alguns atores do filme, Tommy Lee Jones, Meryl Streep e Lily Tomli. Justamente os veteranos. Já Kevin kline e Lidsay Loahan (so beautiful) são o outro lado da moeda. Mais jovens, principalmente essa última, são eles que menos rememoram, embora a narrativa seja o flashback de Noir, inclusive o único a tentar impedir o cancelamento do programa.

Os números musicais são bons, a trama em si é interessante, as atuações satisfatórias. Em suma, uma comédia inteligente, mas com uma tonalidade de crepúsculo. Ver que o último filme de Robert Altman é sobre o envelhecimento e o fim é quase premonitório e, de alguma maneira, metalingüístico.

O próprio filme termina em aberto. A morte, que dá as caras o tempo inteiro, parece ser a única coisa certeira. Entretanto, ela não é de todo inflexível, e muito menos temível. Há até uma certa comicidade em nossa relação com ela. Quem brinca com essas idéias já deve está pronto para o término, para o ponto final.

Roteiro e filme são maduros, papo para gente grande, pois trata-se de uma temática distante dos mais jovens. Aliás, distante entre aspas, pois a possibilidade do fim é igual, os mais novos que não compreendem essa fatalidade. Mas, se concordamos com o último filme de Robert Altman, o tempo dá um jeito nisso.

Sem cotação

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Marley e Eu

Marley & Eu (Marley & Me), 2008. EUA. De David Frankel

Li em algum lugar que arqueólogos já encontraram em ruínas romanas placas com inscrições em latim dizendo “Cuidado com o cão”, há muito tempo que esses animais vêm sendo usados como guardiões dos lares humanos. No ocidente, devotamos afeições aos cachorros já faz algum tempo; sem entender dess assunto apenas lembro que Machado de Assis, Jack London e Conan Doyle, entre tantos outros, têm contos nos quais esses animais são personagens.

No decorrer do século XX, sobretudo a partir de sua segundo metade, a antropomorfização desses “animais de estimação” foi crescente. Para muitos, os cachorros são membros da própria família e simbolizam, entre outros atributos, a fidelidade, a lealdade e o sentimento gregário que ronda a própria sociedade humana.

Portanto, um filme que aborde esses adoráveis animaizinhos tem tudo para cair no gosto do grande público. O adorável e branco e labrador Marley então, tem os quesitos básicos para se tornar a estrela do filme, também protagonizado por atores razoavelmente conhecidos como Owen Wilson e Jennifer Aniston. Estava parcialmente ciente de tudo isso quando entrei no cinema, talvez por isso não fraquejei perante as previsíveis manobras de David Frankel para nos fazer fã de Marley, the dog.

O rapaz sentado ao meu lado tinha cabelo raspado, por quê? Sabe-se lá. Talvez tenha passado no vestibular da PUC, talvez estivesse com piolho. Mas prefiro imaginar que se tratasse de um skinhead, que passou a tarde a espancar cidadãos de bem. Mas ao final do dia sentou na sala de projeção e foi tocado por essa magia canina, a ponto de chorar copiosamente. Bem, copiosamente é um exagero, mas que ele deu umas fungadas, lá isso ele deu. E nem me dou ao trabalho de mencionar os prantos do público feminino.

Mas não cabe censurar o rapaz, pois o filme esbanja sentimentalismos baratos, capaz de condoer até Cruela Devil – essa referência é gratuita, mas ao menos contextualizada. No mais, o filme expõe as desventuras de uma família americana e sua convivência com um simpático e bagunceiro cão.

Engraçadinho.

Cotação: Regular