sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Operação Valquíria


Operação Valquíria (Valkyrie.), 2008. EUA. De Bryan Singer


Tom Cruise não andava muito bem das pernas. Depois de subir nos sofás e se dedicar a explanações filosóficas (vide a cientologia) ele percebeu que sua carreira estava por um triz. Então, para salvar sua reputação (ou o restante dela), ele decidiu aceitar esse trabalho e ir para o tudo ou nada.


Pobre Tom, decidiu salvar sua carreira interpretando um oficial nazista que tenta reiteradas vezes matar Hitler, sendo mal sucedido em todas elas; um conceito um tanto heterodoxo para um (ex)galã hollywoodiano. Aliás, o filme começa com ele levando uma sova de caças aliados e termina com sua punição exemplar pela tentativa de assassinato de füher. Ou seja, assim como o ator, o personagem só leva bofetadas...


A maneira como o espectador é introduzido na narrativa é inteligente, inicialmente fala-se em alemão, mas os sons e frases começam a se transformar em inglês, uma maneira de “fazer de conta” que se está falando alemão. Pena que o diretor não era o Mel Gibson, daí todo o elenco teria que fazer uma temporada no Cultura Alemã...


Vakkyrie é o nome do plano utilizado pelos dissidentes para tentar eliminar Hitler. Lastimavelmente esse filme é mal sucedido em todas suas tentativas, as representações de um Hitler medíocre e maligno são redundantes (já vimos isso várias vezes). Há uma cena em que ele aparece de costas, sentado em uma cadeira acariciando, um cachorro (sim! eles usam esse clichê) – eu quase exclamei “Dr. Evil!”, isso sem falar que o brilhante estadista alemão assina documentos importantíssimos sem se dá o trabalho de lê-los...


Já o personagem de Tom Curise, coronel Stauffenberg, é um cristão, corajoso, temente a Deus, fiel a Alemanha, pai amoroso, marido exemplar que decide ingressar no movimento de resistência alemã. Dessa vez ele atinge laivos impressionantes de canastrice, sua expressão é sempre a mesma, ou ele é um homem sob tensão ou sofre de cálculos renais.


O filme tem dois tipos de personagens, os feios e antipáticos, que são fiéis ao ditador, e os belos e de bons corações, mas que são ou incompetentes ou covardes. O general Olbricht, por exemplo, só toma as decisões erradas, totalmente incapacitado para a condição de liderança do alto oficialato. Aliás, ele me lembrou outro general incompetente, cujo nome não me lembro, do livro de A festa do bode de Vargas Llosa – este sim, um interessante trabalho que também aborda a organização de um golpe para eliminar um ditador, dessa vez um caribenho.


O filme é a crônica de um fracasso anunciado, basta esperarmos os planos falharem, os pelotões de fuzilamento entrarem em ação e as previsíveis declarações de coragem serem enunciadas. Mas dispensável mesmo é a família de Sauffenberg, que só aparece para reforçar as características simpáticas do personagem.


As interpretações, os cenários e o próprio roteiro não possuem vida, que não há como nos identificarmos com a história. O efeito de real é mínimo. Há vários bons trabalhos direcionados para a crítica ou mesmo a tentativa de compreensão do nazismo. Operação Valquíria com certeza não é um deles. Trata-se de uma dessas “fitas” descartáveis que Hollywood faz sem levar muito a sério; só mesmo alguém que se macaqueia em frente a Oprha para considerar esse fracasso evidente como a tábua da salvação.


Decadente.


Cotação: Fraco

Os Infiltrados


Os Infiltrados (The Departed), 2006. EUA. De Martin Scorcese


O filme se estrutura no contraponto entre dois policiais, um deles, está infiltrado na polícia, para ajudar os mafiosos (Matt Damon), e o outro vive o disfarçe de criminoso, para fornecer informações às forças da lei (Leonardo DiCapiro).


Ambos, cada um à própria maneira, são desajustados, a escolha do caminho que decidiram trilhar está justamente ligado às suas experiências no passado. Um procura um substituto paterno (Damon) e outro constrói sua identidade recusando o pertencimento à sua família composta por criminosos (DiCapiro).


Ambos os lados procuram o “rato”, isto é, o infiltrado, uma figura marrom, igualmente odiada. Porém desempenhar esse papel de informante é tarefa difícil, e só pode ser levado a cabo por pessoas desajustadas, que sempre vivenciaram um sentimento de não pertencimento, de fluidez perante qualquer identidade grupal.


Scorcese deixou de fora seus diálogos tão brilhantemente conduzidos, optando também por uma direção mais convencional, embora não menos vigorosa – basta perceber aquela seqüência em que DiCapiro persegue Damon. O essencial nesse filme é a construção dos personagens – que se coincidem em seus antagonismos. Claro, o elenco é impecável, mas DiCapiro é quem se sobressai, uma vez que é o terceiro filme do Scorcese que ele faz seguido.


Em Gangues de Nova York, o ator interpreta um homem violento, que pretende encontrar um lugar em uma gangue, mas, ao mesmo tempo, deseja desforrar a morte do pai, assassinado pelo líder do grupo. Já em O Aviador, temos a figura de um milionário que não consegue se definir, encontrar alguma satisfação, nas inúmeras atividades em que ele se envolve com muita distinção.


Em Os Infiltrados, temos um policial que perdeu sua identidade de homem da lei, e por mais que ele se esforça por recompor essa auto-representação, seu distanciamento da “boa sociedade” é contínuo. William Costigan (DiCapiro) é um tipo assustador, ele se assemelha ao criminoso a um ponto de chegar a se esquecer que é um homem da lei. Nos três casos, os personagens passam por conflitos internos, na medida em que tentam encontrar um ambiente do qual possam se sentir parte.


Por outro lado, Colin Sullivan (Damon), tem a pinta do mocinho, mas sua lealdade está mais direcionada para os grupos mafiosos. Indiscutivelmente ele é um criminoso, embora ninguém perceba. Porém ele também comporta uma dimensão de desajustamento, o que ele teme não é a morte (esta, em nenhum momento o assusta verdadeiramente), mas sim a perda do ethos do bom policial. Ele abandonou a ética da igreja pela da rua – um ponto recorrente na filmografia de Scorcese – pois antes de se filiar aos delinqüentes era um coroinha.


Entre esses dois, paira a figura, sinistra mais cativante, de Frank Costello, o líder dessa facção de criminosos, interpretado pelo consagrado Jack Nicholoson, que consegue compor um personagem típico do universo scorcesiano. Costello é um crítico ferrenho da ética religiosa, sua opção é pela violência, em sua opinião, mas legítima e explícita que a hipocrisia dos eclesiásticos – ele se recusa a ter qualquer contato com os representantes do sagrado, um indício de sua vocação niilista.


Porém, o filme não consegue se afastar muito do cinema de gênero, todos os ingredientes obrigatórios para um filme policial estão presentes. O que vale a pena em Os Infiltrados é a pouca distinção entre as fronteiras da lei e do crime. Basta mencionar que a concepção de justiça sustentada não é aquela compreensão da vitória final do ordeiro sobre o ilícito.


Não. Os criminosos pagam seus delitos por outros caminhos, muito mais obscuros. Os ratos são necessariamente marginalizados, ao optarem por viver nas fronteiras, não resta a possibilidade fazerem uma opção decisiva por um dos lados, pois ao final, esquecerão completamente a quem eles servem realmente.


Talvez nunca descubram que o que eles procuram é a ratoeira.


Sem cotação.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Violência gratuita


Violência gratuita (Funny Games U.S.), 2008. EUA / França / Inglaterra / Alemanha / Itália / Áustria. De Michael Haneke

Crianças têm medo de Bicho Papão. A inverossimilhança do monstro faz todo o sentido para elas. Bicho Papão nada mais é que a soma dos medos infantis: ele ataca a noite quando estão todos dormindo, ele fica debaixo da cama, ele se esconde atrás da porta, os barulhos noctívagos são de sua autoria.

Um dia o Bicho Papão é desmascarado, não há nada debaixo da cama ou atrás da porta, o escuro não é necessariamente uma ameaça e os barulhos não passam de móveis se dilatando. Uma vez adultos, aprendemos a ter outros receios: seqüestro relâmpago, assalto a mão armada, o estuprador escondido na noite, o ensandecido viciado em drogas.

Violência gratuita não funciona comigo. Lamento, mas dois jovens brancos de alta classe, com roupa de golfe e um ar esnobe não são uma ameaça para mim. Disso eu sei.

Gosto de imaginar um travesti vendo esse filme e rindo, pensando: “navalha na cara dos dois, na primeira oportunidade”.

Gosto de imaginar uma prostituta vendo esse filme com um ar meditativo: “já tive clientes piores”.

Gosto de imaginar um detetive da polícia investigativa (com um bigodinho aparado e uma camisa florida suja com molho de almôndegas) assistindo esse filme meio desconcertado: “quebrava a cara dos dois e depois subornava”.

Gosto de imaginar um burguês que vive em condomínio fechado e anda em carro blindado vendo esse filme: “meu Deus! Isso é real! Pode acontecer a qualquer momento!”.

Lembramos que Funny Games U.S é remake de um trabalho feito em 1989 pelo próprio Haneke, originalmente ambientado na Europa. Parece-me crível o entendimento de que as altas classes européias temem que, um certo dia, seus lindos jardins sejam invadidos pela barbárie. É o que acontece com família de Ann, George e o pequeno Georgie, que em certa manhã recebem a visita de dois belos e mortais jovens, interessados em submeter seus anfitriões a degradantes tratamentos.

Se os rapazes fossem negros, com sotaques africano ou jamaicano, a crítica social seria evidente demais. Não é isto que o diretor pretende, uma de suas intenções é abordar a insanidade do terror e da tortura. A maldade pura, desvinculada de qualquer contexto. O bom burguês teme que seus privilégios um dia venham ser cobrados (aqui já é minha interpretação). Nesse sentido, teríamos uma radicalização de Edukators, filme que também retrata o uso de estratégias para aterrorizar as classes ricas (mas nesse último caso, temos motivações políticas expressas claramente).

[Imagem acima: o belo Paul, por traz de sua aparência serena, esconde o torturador de burgueses]

Vislumbra-se o fim de qualquer ilusão de segurança ou estabilidade; o que os refinados jovens denunciam é que não há nenhuma ética aplicável ao universo das classes altas. Elas podem perecer ad infinitum e não serão notadas, pois estão tão escondidas em seus bairros, que passam despercebidas. Não há possibilidade de vicinalidade em uma região de mansões, pois qualquer um pode esconder em suas proximidades um assassino e quando o horror eclode, os “privilegiados” se revelam impotentes.

Paul e Peter, os intrusos, são os que detêm o controle da narrativa cinematográfica e o poder de decidir quem vive ou morre. Mas “Todos devem morrer”, concluem sadicamente. A metalinguagem constante é o verdadeiro desafio ao telespectador, reiteradamente o cineasta nos engana, o resultado do filme já está colocado desde o início. Mas por que torcer pela família aprisionada? Realmente há como se identificar com aquele cenário de classe média alta? Será que eles são tão inocentes assim? Não sei, Caché (outro trabalho de Haneke) nos mostrou a dificuldade de determinar quem é algoz e vítima.

Ao final, esse filme surge como um Bicho Papão para adultos ricos, mostrando que a narrativa pode se desprender por completo da verossimilhança, até mesmo porque o espectador insiste em se enganar que a projeção da tela é o próprio real. Cabe, portanto, uma correção ao preâmbulo desta crítica, o filme assusta ao travesti, a prostituta e ao detetive na mesma medida em que amedronta o burguês, isso porque o cinema é manipulação e nos faz assumir papéis que nos são estranhos.

O faz de conta convence exatamente por ser inverídico.

Cotação: Bom

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Foi apenas um sonho


Foi apenas um sonho (Revolutionary Road), 2008. EUA/Inglaterra. De Sam Mendes

O desejo existe. Mas nem sempre podemos consumá-lo. Isso era verdade nos anos cinqüenta e ainda continua sendo.

Casais infelizes existem, seja no auge do American Way of Life, na Rússia Bolchevique ou na “eterna” Paris.

A grande confusão de Foi apenas um sonho é justamente determinar as causas da desarmonia de Frank Wheeler (Leonardo DiCaprio) e April Wheeler (Kate Winslet); ele, um funcionário medíocre em uma empresa medíocre, ela uma Infeliz (sim, com i maiúsculo) dona de casa. Nesse sentido o filme se mostra menos como uma crítica à sociedade de consumo (um perfeito tema para ser destrinchado em uma mesa de bar) do que como um trabalho intimista que, em alguns momentos, atinge ápices similares a Quem tem medo de Virgínia Woolf? ou um daqueles dramas familiares bergmamnianos.

Mas a verdade é que o resultado funciona e agrada, de forma muito conveniente e eficiente. Isto justamente porque o casal insiste em determinar a própria infelicidade conjugal como resultado direto da asfixiante vida de um subúrbio americano da década de cinqüenta. Eles se mostram incapazes de perceber que nem mesmo Paris salvaria seus relacionamentos – seus planos de mudança para França não deixam de ser um mero escapismo. Em vários momentos o cenário exuberante do condomínio Revolutionary Road se projeta sobre a janela da casa dos Wheeler, mas por trás da vidraça vemos o olhar angustiado de Kate Winslet. Uma expressão similar se expressa no semblante atormentado de DiCaprio, também acometido pelo “peso do vazio”, retornar para a casa e fitar seu palacete, parado em seu verdejante gramado, lhe trás uma sensação indizível de desconforto.

Os personagens revelam uma incapacidade de desejar, não conseguem amar nem a si próprios, que dirá a terceiros, mesmos os “atos de infidelidades” são entremeados mais pelos sentimentos de culpa do que os de prazer. Eles falham até nos momentos de transgressão, pois são péssimos atores, despreparados para interpretarem os papéis que lhes foram destinados – não conseguem ser o casal moderno, mas tampouco o casal tradicional. Não resta nem o consolo da revelação de um sentimento sublime depois de terminada a farsa e retirada as máscaras de atuação, pois o ódio parece acompanhá-los por todos os momentos. Prevalece o sentimento auto-destrutivo em lugar da percepção crítica ou mesmo autocrítica.

Nesse sentido, o “louco” (um matemático excêntrico) é o único que se impacienta com a comediazinha suburbana apresentada. Ele deseja gritar: “vocês são infelizes porque se odeiam, não culpem essa merda de lugar”. No entanto prefere dizer que ele se sentia feliz por não ter o triste desígnio de ser a criança crescendo no ventre de Winslet, gerada em um ambiente de tamanha hostilidade e insanidade. Bem feito. A figura do louco está aí na cultura ocidental por alguma razão, isto é, escancarar o que os “normais” temem revelar.

Difícil compreender o que realmente queria esse “casalzinho moderno”. Não há necessariamente problema nenhum em cometer adultério, em gostar de ter um trabalho maçante, em interromper uma gravidez ou então até em se entediar com os trabalhos domésticos. Só não ponham culpa no sistema, é fácil demais. Os espíritos livres se expressam em qualquer lugar, pelos meios mais criativos possíveis (incluído aí, o sexo com o vizinho ou o teatro amador).

O que não pode ser é justificar as falhas individuais nos problemas coletivos. O filme parece ir nesse sentido, mas é só impressão, ele diz justamente o oposto. Brilhante.

As convenções sociais nos impõem normas, cabe a nós encontrar os meios de flexibilizá-las, coincidindo a felicidade individual com a coletiva. Isso era verdade Antigüidade Clássica e ainda continua sendo.

Cotação: Bom

Velozes e Mortais


Velozes e Mortais (Highwaymen), 2003. EUA. De Robert Harmom

Antes de criticar o filme tenho que criticar a mim mesmo. Estava na locadora e o rapaz me sugeriu "Velozes e mortais". Eu perguntei se era bom e ele na maior cara lavada disse que sim. Eu sabia que ele estava me enganando, mas porque sempre me deixo ser enganado? O filme é uma história idiota (psicopata que usa um carro para matar pessoas) cheio de clichês e furos no roteiro.

Vou citar só alguns exemplos, pois não quero perder mais tempo com essa lástima...

1) Filme de carros envenenados (que conceito interessante!)

2) O relacionamento entre os protagonistas é totalmente forçado. Há um momento em que o personagem principal se vira para deixar que a "mocinha" se troque (que clichê)!

3) O filme é uma história de vingança que, como já foi assinalado por diversos críticos, marca o cinema americano pós 11 de setembro.

4) Só para constar, o personagem principal força a moça a acompanhá-lo, o que é rapto. Mas ela aceita ser subjugada e troca olhares sugestivos com seu protetor... Que lixo!

Sem cotação

Pós-escrito: essa foi uma das primeiras críticas da antiga versão desse blog. Muita ingenuidade esperar algo de bom desse filme. O marketing se baseava no ator James Caviezel, que havia interpretado A Paixão de Cristo. Também se aproveitava do recente lançamento de Velozes e Furiosos. De um lado, Jesus, do outro, carrões envenenados. Bons tempos.

Aproveito a ocasião para revelar (por que agora além de filmes aqui vai ter depoimentos pessoais sobre as fraquezas masculinas...) que finalmente virei homem e vou tirar carteira de motorista. Espero utilizar minhas novas habilidades para arrebatar moçoilas tão prendadas... ou não... ou não...

domingo, 25 de janeiro de 2009

O Curioso Caso de Benjamin Button


O curioso caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button), 2008. EUA. De David Fincher

Hum... é uma picaretagem erudita, se você tiver imaginação e gostar dos dramas Hollywoodianos certamente sairá satisfeito com esse trabalho – muito bem produzido – de David Fincher. No entanto, Jack (1996) de Copolla, com muito menos recursos já nos havia contado uma história similar, mesmo que abusando do ingrediente “água e açúcar”. Tratava-se da história de um garoto que envelhecia mais rápido que o normal, e embora sua mente fosse de uma criança, o corpo era de um adulto.

Em O curioso caso de Benjamin Button temos o inverso, a história de uma criança que nasce velha e, no decorrer dos anos, vai rejuvenescendo, seu relógio biológico encontra-se invertido, empurrando-a da senilidade para a fase lactante. Porém sua mente segue o “ritmo natural”, isto é, sua idade mental sempre está em contradição com a idade física.

De fato, um caso curioso: o motor do filme, se é que assim se pode se expressar, e que dará o fio da meada para acompanharmos a trajetória de Benjamim Button (Brad Pitt) e a sua delicada relação com Daisy (Cate Blanchet). A história é contada do ponto de vista do protagonista, mas a narradora é a neta de Daisy que lê o diário de Benjamim para sua avó moribunda. Hollywood tem uma predisposição toda especial para colocar velhinhas no leito de um hospital (principalmente se forem sulistas), vide o “feminista” Telma & Louise e o constrangedor Ao entardecer (2007, de Lajos Koltai).

O curioso caso de Benjamin Button é consistente, tecnicamente primoroso, vide as ambientações e as próprias maquiagens. No entanto o desenvolvimento do roteiro não consegue escapar dos rocambolismos do gênero. Sofrendo da síndrome de “Forrest Gump”, o protagonista vivencia importantes lugares e eventos, tendo inclusive a chance de participar de um combate contra um submarino nazista, ocasião em que um reles barco rebocador de terceira categoria consegue derrotar (com alguns sacrifícios é claro) uma dessas poderosas máquinas de guerra dos malignos alemães.

Gump, digo Button, desde seu nascimento, quando é quase atirado em um rio, logo em seguida adotado por uma simpática funcionária de um asilo, tem como principal desafio conjugar sua idade física com a mental, na tentativa de alcançar um equilíbrio. Digamos, mentalidade de 17 anos e físico de 67 não é uma situação muito confortável, mas a decrepitude física não o impede de se relacionar com o mundo através da percepção própria de um jovem.

Pode se dizer que o filme seja a crônica de uma morte anunciada, com todos os elementos típicos desses melodramas refinados. As tragédias, os desencontros amorosos, os perecimentos e nascimentos, o “aprendizado de vida” e toda essa parafernália de lugares-comuns chics. Há no meu entender algumas falhas no roteiro, mas que não merecem ser citadas, para não dar ensejo ao previsível (mas não justificável) argumento de que se trata de uma fábula, no entanto, garanto que não vi unicórnios, salvo um ou dois beija-flores. A possível explicação para a singularidade de Button é desconexa e não liga nada com nada – antes tivesse sido descartada.

Curioso é que Button (ou Brad Pitt, sei lá) passa por um processo de “marlombrandomização”, com o decorrer das décadas (trazendo seu inevitável rejuvenescimento) suas aparências e trejeitos parecem sofrer a influência dos anos sessenta. Já nos atos finais temos um indômito motoqueiro (ei James Dean, adorei sua boina!), com algumas angústias existenciais possivelmente pertencentes a um rapaz de 24 anos ou a um respeitável senhor de 65 anos. Tanto faz, os homens nunca crescem mesmo...

Vítima de uma maldição ou talvez gratificado com uma benção, Benjamin tem dúvidas se cabe a ele a possibilidade de uma “vida normal”. Receia que, às vésperas de seu término, sua especificidade possa conduzi-lo a um final de reclusão e solidão. Mas apesar de toda a sabedoria adquirida, ele parece não entender que todo padecimento é solitário, que toda decrepitude é sôfrega. Em sua sinistra e radical democracia, a morte faz pouco caso se sua pele tem à aspereza octogenária ou o frescor do recém-nascido.

Bem produzido, mas pouco consistente. Criativo e até bem desenvolvido, mas falta uma seriedade a esse trabalho, para fazer jus à sua condição de cinema hollywoodiano classe “A”.

Cotação: regular

P.s: Acho que Ao entardecer não se passa no sul dos Estados Unidos, mas fica o dito pelo não dito.

A Última Noite


A última noite (Prairie Home Companion), 2006. De Robert Altman.

No filme tudo respira a passadismo. Claro, em parte é pela morte de Altman, que deu contornos a essa produção que talvez não existissem. É uma comédia triste.

Mas, não importa, a questão da finitude está indiscutivelmente presente em A última noite. A história é sobre a derradeira exibição de um programa de rádio, no ar por mais de trinta anos. A equipe, pessoas mais velhas na maioria, sentem que seu tempo está se esvaecendo. Isso fica evidente nas rememorações que fazem aos tempos antigos.

Um filme sobre um programa de rádio: um show de auditório ao vivo, resquício de uma época em que o som era principal meio de comunicação de massa. Um pé no presente e outro no passado. Assim é o filme e assim é o humor do filme, pois algumas gags são um tributo à antiga forma de fazer comédia. O segurança (e detetive particular) Guy Noir (Kevin Kline) tem maneirismos detetivescos completamente anacrônicos, próprios de um inspetor Clouseau. Há também outra forma de humor mais em voga, marcada pelos diálogos rápidos e estrutura de uma sitcom.

Os personagens, parece, não têm mais resistência para enfrentar a vida – seguros por um fio – estarão perdidos e abandonados quando o programa de rádio acabar; resta uma última noite. O show é a própria metáfora para a vida, por melhor que ela tenha sido, um dia tem que acabar. Essa constatação gera duas possibilidades para os personagens, aceitar a finitude ou relutar perante o fim.

Interessante é que Garrison Keillor (autor do roteiro) tem realmente um programa de rádio nos E.U. nesse molde. No filme ele interpreta a si mesmo e, curiosamente, parece ser o mais impassível perante o fim do programa. Estaria ele brincando com a inevitabilidade das mudanças e com seu próprio envelhecimento?

Há de fato um cansaço que perpassa por alguns atores do filme, Tommy Lee Jones, Meryl Streep e Lily Tomli. Justamente os veteranos. Já Kevin kline e Lidsay Loahan (so beautiful) são o outro lado da moeda. Mais jovens, principalmente essa última, são eles que menos rememoram, embora a narrativa seja o flashback de Noir, inclusive o único a tentar impedir o cancelamento do programa.

Os números musicais são bons, a trama em si é interessante, as atuações satisfatórias. Em suma, uma comédia inteligente, mas com uma tonalidade de crepúsculo. Ver que o último filme de Robert Altman é sobre o envelhecimento e o fim é quase premonitório e, de alguma maneira, metalingüístico.

O próprio filme termina em aberto. A morte, que dá as caras o tempo inteiro, parece ser a única coisa certeira. Entretanto, ela não é de todo inflexível, e muito menos temível. Há até uma certa comicidade em nossa relação com ela. Quem brinca com essas idéias já deve está pronto para o término, para o ponto final.

Roteiro e filme são maduros, papo para gente grande, pois trata-se de uma temática distante dos mais jovens. Aliás, distante entre aspas, pois a possibilidade do fim é igual, os mais novos que não compreendem essa fatalidade. Mas, se concordamos com o último filme de Robert Altman, o tempo dá um jeito nisso.

Sem cotação

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Marley e Eu

Marley & Eu (Marley & Me), 2008. EUA. De David Frankel

Li em algum lugar que arqueólogos já encontraram em ruínas romanas placas com inscrições em latim dizendo “Cuidado com o cão”, há muito tempo que esses animais vêm sendo usados como guardiões dos lares humanos. No ocidente, devotamos afeições aos cachorros já faz algum tempo; sem entender dess assunto apenas lembro que Machado de Assis, Jack London e Conan Doyle, entre tantos outros, têm contos nos quais esses animais são personagens.

No decorrer do século XX, sobretudo a partir de sua segundo metade, a antropomorfização desses “animais de estimação” foi crescente. Para muitos, os cachorros são membros da própria família e simbolizam, entre outros atributos, a fidelidade, a lealdade e o sentimento gregário que ronda a própria sociedade humana.

Portanto, um filme que aborde esses adoráveis animaizinhos tem tudo para cair no gosto do grande público. O adorável e branco e labrador Marley então, tem os quesitos básicos para se tornar a estrela do filme, também protagonizado por atores razoavelmente conhecidos como Owen Wilson e Jennifer Aniston. Estava parcialmente ciente de tudo isso quando entrei no cinema, talvez por isso não fraquejei perante as previsíveis manobras de David Frankel para nos fazer fã de Marley, the dog.

O rapaz sentado ao meu lado tinha cabelo raspado, por quê? Sabe-se lá. Talvez tenha passado no vestibular da PUC, talvez estivesse com piolho. Mas prefiro imaginar que se tratasse de um skinhead, que passou a tarde a espancar cidadãos de bem. Mas ao final do dia sentou na sala de projeção e foi tocado por essa magia canina, a ponto de chorar copiosamente. Bem, copiosamente é um exagero, mas que ele deu umas fungadas, lá isso ele deu. E nem me dou ao trabalho de mencionar os prantos do público feminino.

Mas não cabe censurar o rapaz, pois o filme esbanja sentimentalismos baratos, capaz de condoer até Cruela Devil – essa referência é gratuita, mas ao menos contextualizada. No mais, o filme expõe as desventuras de uma família americana e sua convivência com um simpático e bagunceiro cão.

Engraçadinho.

Cotação: Regular

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

O nevoeiro


O nevoeiro (The Mist), 2007. EUA. De Frank Darabont

Cláudio e eu nos conhecemos há muito tempo. De certa forma, acho que ambos somos durões. Mas enquanto ele perfaz o estilo do nice boy corajoso, me sobra o papel do cético-amargo-sarcástico.

É mesmo. Sabe aquele cara dos filmes de terror com um copo de whisky na mão que zomba do perigo? Bem, sou eu. Sim, o tipo de personagem arrogante que sempre morre no final. Já Cláudio pode se gabar: ele é o sujeitinho bacaninha que sobrevive com a linda mocinha loira.

Preâmbulo necessário, pois esse meu bom amigo veio até mim e confessou ter ficado apavorado com O nevoeiro. Bem, vindo de alguém que acho O chamado fastidioso e Dawn of the dead brega, achei promissor. Aluguei o dvd esperando encontrar o “fear”, mas o que eu vi foi uma dissertação sobre os neo-pentecostais... que a julgar por essa historieta até que não são tão descabidos...

Pois bem, logo após uma forte tempestade, em uma cidade interiorana americana (tinha que ser), surge um estranho nevoeiro, trazendo um clima de anormalidade à cidade. Algumas pessoas ficam presas em um supermercado e percebem que algo estranho está acontecendo lá fora. Não é necessário muito tempo para constatar a presença de criaturas dispostas a se banquetearem com a carne humana.

Entre os sobreviventes temos simpáticos idosos, pais exemplares de família (a propósito, pessoas como meu amigo Cláudio), funcionários do estabelecimento, advogados céticos-amargos-sarcásticos (olha eu aqui!) e uma neo-pentecostal fervorosa (queima eles Jesus). Pronto, o cenário perfeito para os embates com o “freak”, sejam as criaturas externas ou internas.

Na medida em que os ataques dos monstros se intensificam, as pessoas ficam mais desesperadas, portanto mais suscetíveis aos trôpegos discursos da beata Sra. Carmody. Na verdade, ela não é de todo mau, já que os demais não conseguem apresentar nenhuma estratégia de sobrevivência realmente válida.

Aliás, se um dos objetivos do filme era a crítica ao discurso neo-pentecostal, cabe dizer que ele falha, pois ao final, a música orquestrada e o clima fatalista gerado nos levam a crer que há momentos em que devemos ter fé e confiar plenamente em um “Deus vingativo e poderoso”, mesmo que no caso seja o exército americano.

É aqui que eu chego ao ponto que gerou essa crítica, pois ao contrário do meu lindo e másculo amigo Cláudio, não vi nada de assustador no filme. Eu já comentei isso antes: eu acredito que os monstros mais perigosos são os humanos, capazes de levar qualquer outra espécie à extinção. Se alguns se apressam e temem o Armagedon fazer o que...

Claro, quem assistir o filme vai entender aonde eu quero chegar.

A ironia! Há ironia! Ah... a ironia....

Como sou cético, amargo e sarcástico.

Cotação: regular

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Revelações


Revelações (The Human Stain), 2003. EUA. De Robert Benton

Pouca coisa pode ser dita sobre o filme, sob o risco de revelar a trama ao leitor. A narrativa tem um encadeamento não linear, permitindo que acompanhemos o passado e presente do reitor Coleman (Anthony Hopkins), demitido do seu cargo devido a uma acusação de racismo, alegada por dois estudantes.

Coleman acaba por se envolver com Faunia (Nicole Kidman), uma mulher bem mais jovem, faxineira da instituição na qual ele trabalhava. A relação com essa mulher e a amizade desenvolvida com um recluso escritor será o ato final de sua vida. A percepção de que seu fim não está muito distante (afinal ele já é um velho homem) o leva de volta ao passado, lugar em que está depositado seu segredo nunca revelado, uma mancha em sua memória.

O passado e o presente têm panos de fundo muito distintos, o atual é marcado pela onda do politicamente correto, no qual uma única palavra pode ser descontextualizada e interpretada como racista. O outro é um momento de racismo institucionalizado, no qual havia dois modos de vida bem diferentes, dos negros e dos brancos. Porém Coleman não vive plenamente nem no ontem nem no hoje, por isso ele compartilha algo com os heróis gregos (que ele mesmo cita), a inadequação perante a hipocrisia e ao moralismo.

Robert Benton é um diretor competente, conseguiu conduzir a história sem adentrar em recursos melodramáticos. Sucinto, escolhe o que dizer e não se delonga no desenvolvimento dos personagens. Parece que o cineasta deixou essa tarefa ao próprio espectador.

O filme é um contraponto a onda politicamente correta que ganhou vulto nos Estados Unidos durante a década de 1990. Um tempo em que a verdade é ocultada ou escamoteada para não ferir suscetibilidades. Nesse sentido o filme entra em contradição, ao expor com naturalidade a nudez de uma jovem atriz (Jacinda Barrett), mas não ter tanta ousadia para mostrar o corpo de Kidman.

De fato há uma névoa de moralismo, que impede que algumas coisas sejam mostradas ou faladas. Revelações trata desse contexto que a propósito ainda vivenciamos, no qual o silêncio e a alusão substituem o diálogo direto. É aquela conversa que é travada na cozinha, só com os íntimos, e nunca na sala, com as visitas.

Sem cotação

sábado, 13 de setembro de 2008

Ensaio sobre a cegueira


Ensaio sobre a cegueira (Blindness), 2008. Brasil/Canadá. De Fernando Meirelles

Mais uma vez a ausência do governo e do Estado é entendida como retorno à selvageria e ao caos. Uma epidemia de cegueira, que aparentemente alcança dimensões mundiais, escapa do controle da burocracia moderna e instaura uma situação insólita, com multidões a tatear em mar de luz branca (ao contrário da cegueira convencional) em procura das condições básicas de sobrevivência. Da incompetência das autoridades em lidar com o problema até as relações hierarquizadas entre os portadores do mal, não há nada diferente do que já tenhamos em diversas outras produções, que só têm em comum essa temática do homem lobo do homem.

Em Ensaio sobre a cegueira, essa situação soa quase absurda ao praticamente infantilizar o comportamento dos personagens. A representação que surge do homem é de uma criatura nada razoável, incapaz de deliberar e convencionar – o que não chega a ser uma difamação, mas tira muito da verossimilhança das argumentações defendidas. Nada de discussão filosófica sobre a condição ou natureza humana, mas sim uma atualização dos maniqueísmos entre mocinho e bandido.

Não há meio termo, simpatizamos com alguns e (o médico, sua esposa, a moça de óculos), em contraparte, nos antipatizamos com aqueles capazes de exigirem que as mulheres se prostituam para receber comida. Também prejudica a história o desenvolvimento do roteiro, resolvendo-se em arrancos, quando um determinado capítulo parece se esgotar um incidente surge para trazer os próximos novelos a serem desenrolados. Assim uma ferida provocada por um golpe de sapato terá ligação direta com a propagação da epidemia em níveis globais.

A fotografia lida apropriadamente com o tema, buscando tonalidades e focos adequados para tematizar esse tipo de cegueira. As imagens da cidade e dos homens que essa projeção revela em seus atos finais têm uma crueldade desnecessária, oposta ao tom esperançoso e humanista visto, por exemplo, no documentário Borboletas de Zagorsk (1992) – quero ressaltar que esse macaco falante tem grande facilidade para encontrar soluções para seus problemas... E aqui, deve-se se atribuir a culpa não à fonte original (o livro de José Saramago), mas ao roteiro e direção que não souberam dar as sutilezas necessárias a assunto de tal complexidade – aspecto explorado acertadamente na crítica de Carlos Alberto Mattos.

Enfim, não estou a defender a razoabilidade do homem em contextos extremos, Blindness convence ao mostrar que nossa civilização é menos estável do que se imagina. Mas o itinerário seguido nessa película é macetoso, colocando pessoas, perdidas em um tipo sui generis de escuridão (claridade tão forte que ofusca) para se chocarem umas as outras. Mais um filme para torcermos pelos personagens principais, se havia a intenção de propiciar reflexão mais profunda ela passou despercebida, perdida em meio a tanta luz.

Cotação: Regular

Sin City

Sin City – cidade do pecado (Sin City), 2005. EUA. De Robert Rodrigues, com co-direção de Quentin Tarantino e Frank Miller.

Sin City é arte. Também, hoje em dia tudo é arte. E, parece, que os clichês são os principais exemplares de um cinema-arte. Se Sin City é arte, não arriscaria em colocar os desenhos do Pernalonga nessa categoria.

Contemporaneamente, existe uma crescente esteticização da violência. Cenas de combates e massacres se transformam em oportunidades para experimentações artísticas, lances de câmeras ousados, fotografias criativas, tomadas surpreendentes. Enfim, cinema como espetáculo.

Mas, para além desses aspectos técnicos, no qual há inegável brilhantismo, resta pouco cinema em Sin City. O resto são as esperadas cenas de vinganças, ações de defensores implacáveis, da eterna luta do bem contra o mal. É certo que há personagens interessantes, como o amigo das prostitutas, com seu tênis providencialmente vermelho, ou então o gigante brutalizado, capaz de sentir, mas incapaz de entender.

De fato, há um pouco de Pernalonga no filme. Saltos, cortes, disparos e tudo mais. A violência paradoxalmente é amenizada para não chocar o público, se insinua mais do que mostra. A intenção é satisfazer nosso instinto sádico sem ferir nossas sensibilidades (sic).

O filme é uma adaptação dos quadrinhos e que, diga-se de passagem, também são considerados arte.

Evidencia-se que o conceito de arte é histórico, cada época tem sua definição. A nossa é a banalidade da violência, desvinculada de qualquer dimensão ética, política e psicológica mais avançada.

É o açougue.

É a cerveja.

Cotação: ☕☕

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Carnival of Souls



Carnival of souls, 1962. EUA. Harcourt Productions. De Herk Harvey

Série: filmes insólitos – n.1

Quando Parque Macabro (1998) chegou às locadoras, lembro de ter espreitado o vhs várias vezes para ler a sinopse no seu verso. Ao final, acabei por não assistir essa produção de Wes Craven intitulada Carnival of souls. Tratava-se, na verdade, do remake de um filme de 1962, dirigido por Herk Harvey e que nunca foi lançado no Brasil.

A década de noventa foi propícia para esse gênero, com exemplares de diferentes qualidades, tais como Pânico, Sexto Sentido, Bruxa de Blair e Eu sei o que vocês fizeram no verão passado – os sustos e a tensão propiciadas pelos macetosos roteiros garantiram sucesso entre os adolescente (eu, inclusive). Justamente em 1998 era lançado o fliperama CarnEvil, ligeiramente inspirado em Carnival of Souls (original e remake), com um visual interessante, onde o jogador deveria enfrentar palhaços assassinos alojados em um circo montado em um cemitério.

Muito “Filme B” pro meu gosto, embora Carnival of Souls (1962) possa até ser considerado um trabalho mediano. A história começa sem maiores preâmbulos, vemos um automóvel com três garotas despencando de uma ponte e submergindo em um rio lamacento. Os esforços para encontrar o veículo ou seus ocupantes são em vão, mas Mary Henry (Candace Hilligoss) aparece cambaleante nas margens do rio. Aparente sobrevivente do sinistro, ela parte para uma nova cidade, conseguindo o trabalho de organista em uma igreja.

Após o acidente, Mary Henry passa a ser acometida por uma sensação de estranhamento com o mundo. Naturalmente introspectiva, suas tendências anti-sociais se acentuam e a moça começa a ter visões de um homem com feições cadavéricas vindo em sua direção. Apesar dos seus esforços em levar uma vida normal, o mórbido gradualmente se apossa do seu cotidiano. Por vezes perdendo o contato por inteiro com as pessoas ao seu redor, ao ouvir uma melodia que quase a põe em transe. Recusando as superstições e mesmo a religião, Mary Henry busca solucionar seu desconforto por meio do intelecto, mas o pavor se revela mais forte e o medo da solidão faz até que ela suporte os assédios do repugnante Mr. Linder.


[Imagem acima: Mary Henry escapa da morte, mas não da influência do mundo dos mortos]

Há uma ruína nas proximidades da cidade que chama sua atenção, um parque de diversões abandonado. Seus delírios sempre a conduzem para aquele local, onde ela visualiza almas executando uma valsa ou então emergindo das profundezas de um lago. A dificuldade de se manter sintonizada com o mundo dos vivos é o elemento de maior interesse do filme, a narrativa tende a expor a subjetividade da personagem, escancarando seu crescente isolamento. No ato final, Mary desiste de solucionar seu problema no mundo dos viventes e parte em direção ao parque, completamente desiludida quanto à possibilidade de ser reintegrada à normalidade.

Trata-se de um filme menor, com todas as características de uma produção independente. A despretensão é sua maior qualidade, revelando uma direção e fotografia satisfatória as suas necessidades. A personagem, no entanto, tem um desenvolvimento rasteiro, dificultando uma melhor compreensão de seus anseios, pensamentos e decisões – prevalece, no entanto, uma sensação de absurdo e divórcio com a normalidade. Mary Hernry, por exemplo, se mostra indiferente ao acidente que matou duas de suas amigas. Seu descuido e crueldade para com as pessoas (e aqui talvez eu esteja extrapolando) me lembra a personagem principal de Lady Vingança, isso em função de sua frieza com relação a todos ao seu redor.

A idéia de um carnaval das almas é obviamente a referência ao baile de mortos entrevisto pela personagem. Trata-se de uma metáfora nada original sobre as dificuldades de driblar o inevitável, isto é, a extinção. Enquanto o cavaleiro em retorno das cruzadas ganha mais tempo de vida jogando xadrez com a morte, Mary Henry busca na luz diurna e nos fugazes relacionamentos sociais e afetivos um meio de não ser tragada pela extinção. Grande é a dificuldade para declinar um convite para a dança da morte.














[Imagens acima: Cartaz do filme (1962) e exibição do título do jogo da Midway (1998), uma diluída inspiração]

Ao que parece, o remake de 1998 introduziu o conceito de palhaços, provavelmente perdendo as sutilezas da versão original. Digo por palpite, já que não assisti a “contribuição” de Wes Craven. Resumidamente, o que pode ser ressaltado de Carnival of souls é sua atmosfera angustiante, em uma visualidade que quase se integra ao onírico. O resultado final é um terror comedido, cuja premissa e desfecho seriam copiados a exaustão nas décadas seguintes.

Cotação: regular

domingo, 31 de agosto de 2008

Andarilho


Andarilho, 2008. Brasil. Cinco em Ponto. De Cao Guimarães

O cinema e a literatura estão repletos de alusões e representações sobre os errantes. Quando pensamos na cultura norte-americana fica ainda mais fácil evidenciarmos a mística em torno desses eternos viajantes. Mark Twain, Henry Miller, Jack Kerouac e Jon Krakauer são alguns dos escritores que já abordaram o assunto. O fascino pela vida na estrada também rendeu excelentes filmes, especialmente na década de 1960, com os chamados road-movies.

Esses personagens, que decidem abandonar o conforto da vida sedentária e os valores e conformismos da “sociedade”, recebem uma caracterização romântica e heróica. São aventureiros, hippies, drogados ou desempregados, mas cientes da decadência da cidade e convencidos de que a verdadeira felicidade e paz interior só podem ser alcançadas em uma vivência do provisório.

O filme de Cao Guimarães traz uma outra identidade para esses marginalizados, em seu cru documentário o que sobressai é a solidão, provocada nem tanto pelo nomadismo, mas por uma condição de loucura. Parece que a imagem de um caminhante aventureiro e crítico não tem respaldo no imaginário coletivo brasileiro, a sugestão do louco andarilho parece mais convincente, expressões de uma cultura tão permeada pelo autoritarismo quanto a nossa. O pobre só é bem visto pelas autoridades quando indo ou regressando do trabalho, seus momentos de ócio devem ser cuidadosamente vigiados. As forças policiais estão sempre dispostas a te abordar e questionar de onde você vem e para onde vai. Restringe-se a pouca tolerância para com os andarilhos, tal opção de vida somente se justifica por se tratar de um demente, alguém que não responde pelos seus atos, merecedor de uma rápida condescendência ou esmola.

São três os andarilhos registrados no filme, e desses dois podem ser considerados pelo senso comum como loucos. O falar sozinho e o estranho gesticular comprovam suas poucas habilidades para o convívio rotineiro, portanto se vêem obrigados a procurar na estrada uma morada; difícil esta sobrevivência, marcada pela fugacidade, precariedade e sentimentos de alheamento. Por não negarem de todo o contato com outros homens eles não podem ser considerados eremitas, caminham pelas margens das rodovias, mas sem a procura por um refúgio definitivo.

O discurso estabelecido por Cao Guimarães é ambíguo, limitando-se a exibir fragmentos da vida desses caminhantes, não há o interesse pela análise ou pelo reconhecimento das identidades passadas e presentes desses homens. Nesse sentido, indiretamente, o que o diretor faz é corroborar com a imagem de pobres loucos trafegantes no norte de Minas Gerais. Vale inclusive questionar qual o direito tem o cineasta em filmar essas pessoas – em invadir seus universos particulares com uma câmera, indecorosa mas não inquiridora. Em fim, qual o compromisso do observador com o objeto observado? Às vezes parecer se limitar a um exercício de esteticização, criando planos belos e inteligentes, alegorias das subjetividades dos andarilhos. Vemos, por exemplo, a trajetória das luzes dos faróis dos automóveis se perdendo na escuridão da noite, quem as observa é um homem velho, cansado e deitado no chão de um bar perdido em lugar nenhum.

A cena final impressiona pela composição apresentada, as noções de tempo e espaço desafiam o expectador. Cenário quase infinito, capaz de engolir carros e homens, um ambiente extraterreno, inóspito e incivil. Conclui-se, portanto, que as estradas – locais de passagem – seriam abrigos somente para os anormais? Aqui está o perigo que circunda o Andarilho. Fica o risco de concluir que o lugar do louco é no hospício (ou então qualquer outro eufemismo em voga) para receber o cuidado e a vigilância necessários. Alguns se convencerão de que a vida sedentária estaria isenta de problemas e patologias, assim a via e a rua só têm como serventias a função de ligar um ponto a outro (dá casa ao shopping, por exemplo). Qualquer ato contra-hegemônico, qualquer indisposição contra as convenções da “sociedade” devem ser relevadas já que são puerilidades e excentricidades de homens que não dominam sua razão por inteiro.

O homem racional sabe de onde vem e para onde vai, traz consigo as carteiras de identidade e trabalho. Tem patrão, tem cartão de crédito, tem celular. As únicas coisas que lhe faltam são as liberdades de decidir e vislumbrar seu cativeiro cotidiano. Mas, como consolo, aos olhos dos demais, ele não é um louco que erra sem rumo ou prumo. Nesse contexto, Andarilho nos convida a pensar as relações e os limites entre a loucura e o bom senso.

Cotação: Bom

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Zohan - Um Agente Bom de Corte


Zohan - Um Agente Bom de Corte (You Don't Mess with the Zohan), 2008. EUA. Happy Madison Productions / Relativity Media. De Dennis Dugan

Hollywood sempre me surpreende, mas a surpresa dessa vez é positiva

Já no início a performance de Adam Sandler dá o tom do filme, o puro deboche situado na fronteira entre as paródias de James Bond e o humor negro. Integrante do exército israelense, o agente contra-terrorista Zohan Dvir é um sujeito durão, viril, que adora dar uns sopapos nos opositores de Israel, isto é, qualquer um que tenha aparência árabe.

Pavor dos seus inimigos, herói nacional, objeto de desejo das mulheres. Sim, este é Zohan, com seu cabelo encaracolado e suas roupas dos anos noventa – que agora, de acordo com a “Lei de Laver” é o novo ridículo da vez –, o braço duro do Estado contra as facções e os guerrilheiros.

No entanto, o engodo já se antecipa, por trás dessa versão translocada de 007 encontra-se um homem comum, cujo sonho é ser cabeleireiro. Impedido de exercer seu direito de escolha em uma sociedade que demanda guerreiros (pois todos devem servir ao exército) o personagem simula sua morte e parte para terra da liberdade (precisa dizer onde fica?), lá ele se prepara para começar outra vida, com um novo corte de cabelo tãooooooo anos noventa...

Chama-se agora Scrappy Coco, um imigrante em busca de uma oportunidade... ele segue o sonho americano... o sonho de ter um emprego subalterno. No entanto, sua antiga vida de agente secreto não está superada. Na terra do Tio Sam há vários palestinos que, mesmo vivendo em harmonia com a comunidade israelense local, devem ser vigiados, afinal, o quesito um para ser terrorista é não ser judeu. Além da busca pela profissionalização como cabeleireiro, Zohan deve se preparar para as invectivas de seu arqui-rival Phanton (John Turturro).

Está exposto o quadro, dentro desses argumentos se desenvolverão situações hilárias, caracterizadas pelo desempenho escrachado de Sandler. É o humor do insano, objetivando a ridicularização de tudo e todos. Os “extremistas” dos dois lados são os alvos preferenciais da chacota, os estereótipos vêm à tona e em seguida são ressignificados. Os sotaques, frases e trejeitos dos palestinos e israelenses, ao final das contas, assemelham-se e, para os americanos “típicos”, ambos podem ser ameaças. Em dado momento um personagem revela que a barba do outro constituía em atestado inequívoco de terrorismo: “se eu te visse sentado no avião eu desembarcaria”. Aquele a quem foi direcionado essa declaração escuta, reflete e em seguida concorda com seu conteúdo.

É engraçado porque verdadeiro, diria a velha escola de humoristas de palco.

Eis o grande mérito do filme, trata-se de um trabalho de humor, ignorem a previsível lição de moral, pedagógica e inócua, sobre a tolerância e o diálogo. Em certo sentido teríamos um filme quase político, caso entendamos a zombaria como um esboço de posicionamento crítico. Quando uma discussão sobre a contribuição de Bush para a geopolítica é insinuada, o assunto degringola para uma série de referências sexuais, como, por exemplo, as cochas (pernas) de Hillary Clinton. Explicita-se algo que muitas vezes é esquecido, a comédia não precisa assumir a condição de propaganda, basta ser engraçada.

As próprias cenas de ação soam irreais porque assim o querem, a masculinidade inconteste de Zohan se contrapõe à nova profissão por ele escolhida e tão estigmatizada como afazer afeminado. Os recursos à violência são quase redundantes, pois as questões se resolvem por sua sexualidade, antes de ser uma gente secreto Zohan Dvir é um “bond cama”. Aí está! Paródia das paródias de James Bond.

Não tenhamos ilusões, You Don't Mess with the Zohan é piada, e não discurso sobre a igualdade humana, mas ainda sim destoa do neo-conservadorismo reinante. Em épocas de trevas densas a luz de uma lamparina é quase um farol.

Cotação: Bom

Lutero


Lutero (Luther), 2003. EUA/ Alemanha. NFP teleart / Eikon Film / Thrivent Financial for Lutherans. De Eric Till

Lutero é um bom filme, a direção de fotografia e os cenários se revelam satisfatórios. Há momentos em que a câmera gira em torno do personagem e captura o cenário, de tal forma que vemos a paisagem a partir de sua perspectiva. É o caso, por exemplo, da primeira vez que ele se depara com Roma, ao ver um Arco do Triunfo.

Contudo há um ou dois anacronismos que deve ser registrados. Em primeiro lugar (isso é só implicância) uma das personagens utiliza a expressão "inércia" com um sentido contemporâneo. Não é preciso dizer que essa palavra não estava difundida na primeira metade do século XVI.

Em seus sermões, Lutero mais parece um Seinfield do que um religioso quinhentista. Acho pouco provável que um padre tivesse aquela forma de discursar. O humor utilizado em seus sermões parecem estar descolados daquele momento histórico.

Outra coisa, o comportamento da esposa de Lutero é totalmente descontextualizado. Essa foi difícil de engolir. Imaginem: ela jogando travesseiros na cara de Lutero, nervosa por ver suas núpcias interrompidas.

Ai, ai.

Sem cotação

P.S.: Republicação de uma das minhas primeiras críticas. O engraçado é que, na época, um leitor postou um comentário criticando meu texto e mandou-me ir estudar história. Como eu havia acabado de me formar nesse curso, todos acharam quem fui eu que inventei aquela frase para criar falsa polêmica.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Abismo do Medo


Abismo do medo (The descent), 2005. Inglaterra. Pathé / Celador Films. De Neil Marshall.

"Abismo do medo ou quando Sex and the city vai à caverna"

O filme tem um final feliz.

Só quem assistiu ao filme vai entender o que eu quero dizer...

Seis mulheres acostumadas a fazer tours de eco-aventura decidem explorar uma caverna. Porém após um desabamento acabam por ficar presas em seu interior.

A premissa inicial é promissora. Uma das estratégias clássicas para nos conduzir ao medo é nos confrontar com o desconhecido. Funciona tanto para estruturar a trama quanto manter o telespectador interessado. A maior parte das pessoas diria: “nunca entraria em uma caverna como essa”. Mas, a verdade é que no momento em que assistimos à projeção nos comportamos como se fossemos as vítimas.

Imaginem: 3 km sob a terra, passando por lugares estreitos, a escuridão reina, as lanternas falham, o grupo está tenso (isso é um clichê, mas é verossímil e sempre funciona). Temos todos os ingredientes para construirmos uma história assustadora. Certo?

Errado. Infelizmente o que eu descrevi são apenas os primeiros atos do filme. Uma vez presas, a trama começa a se degringolar por um itinerário não muito original. Passamos de uma história de sobreviventes para um trilher de horror. No interior das cavernas elas percebem que não estão sós, que lá embaixo há estranhos hominídeos, verdadeiros canibais.

O tema da aparente normalidade é interessante. O que parece ser algo normal – somente mais uma caverna – esconde criaturas aterradoras. Esse conceito está presente em vários filmes de qualidades duvidosa como o clássico O massacre da serra elétrica, Pânico na floresta e Plataforma do medo. Uma casa no Texas interiorano esconde uma família de canibais; em uma floresta, uma outra família de canibais, geneticamente deformados, ataca viajantes na auto-estrada; dentro do túnel de um metrô uma estranha criatura perambula, vitimando trabalhadores e mendigos.

Esse tipo de horror está sustentado justamente nessa dualidade, a normalidade aparente esconde o covil do monstro. Se você seguir o caminho normal tudo estará bem, mas um simples atalho poderá conduzi-lo até o bestial.

Assim, assim. No caso de Abismo do medo, não funciona.

No momento em que as exploradoras ficaram presas e se depararam com seus habitantes, deveriam ter dito: “Olha, nós viemos lá de cima, estamos dizimando as formas de vida da superfície – na verdade estamos pondo fim no próprio bios – não se metam conosco por que somos humanas”.

E não estariam mentindo, pois, no decorrer do filme, as moças revelam uma grande facilidade para dizimar as criaturas da caverna. Lógico que as donzelas estavam salvando a própria pele e ao seu redor só havia carnívoros. Mas, bem, nesse sentido o filme, indiretamente, revela um pouco da banalidade do eco-turismo, o quão indesejável e predatória é a presença do homem.

Podemos perceber que havia um antigo equilíbrio biológico entre aquelas criaturas e a natureza ao seu redor. O azar das moçoilas foi se depara com esse ambiente no qual, definitivamente, não eram bem vindas.

Claramente essa é uma extrapolação um tanto maldosa, porém ela pode ser sentida dentro do filme. As rápidas aparições das criaturas assustam as girls e o telespectador, muito mais do que quando suas presenças passam a ser constante. Na medida em que o desconhecido vai se revelando como mais uma criação (mesmo que aberrante) da natureza, as senhoritas invectivam contra seu algozes com muito mais ferocidade. Houve um momento em que, rodeadas por seus inimigos, em uma postura de defesa tão cenográfica que eu gritei: “Mate esse maldito orc Legolas!”

Contudo há pontos positivos no filme, não há porque culpar o roteiro ou a direção. Não há, por exemplo, aquelas típicas personagens histéricas (que a gente ajoelha e reza para o assassino matá-las logo), as aventureiras também não cometem erros típicos, embora desesperadas conseguem reagir à altura dos acontecimentos. Mulheres modernas, arrojadas, independentes, que não ficam dando gritinhos, mas que conseguem um tempinho para discutir seus relacionamentos: Sex and the ciy and cave.

No ato final do filme, a premissa inicial da normalidade versus anormalidade é retomada, em uma seqüência intensa, na qual vemos uma das personagens vislumbrando sua escapatória. Não é um filme de horror, é um filme ecológico, me convenceu de que há nichos dos quais nunca deveríamos entrar...

Que ultraje. Mas o final é feliz, isso vocês vão ter que concordar.

Cotação: regular

P.s: Esse filme não é de todo mal, eu o reassisti e até vi algumas boas idéias, mas a cotação permanece. Observem também o formato diferenciado do cartaz, verticalizado.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

O Grande Dave


O Grande Dave (Meet Dave), 2008. EUA. 20th Century Fox Film Corporation. De Brian Robbins

As roupas de Eddie Murphy não enganam, essa comédia está fora do seu tempo, de sua década. Embora os trajes de Dave sejam dos anos 70, o filme nos remete às comédias dos anos 80 saborosamente inverossímeis. Quando criança, lembro de ter assistido a história de um príncipe africano que decide partir do seu país e rumar para a América em busca do verdadeiro amor. Cavaleiro em reino distante e que acaba por encontrar sua princesa em uma selva de concreto. Contos de fadas contemporâneos...

Dessa vez temos uma nave com formato humano, pilotada por pequenos alienígenas, que decide aterrizar no solo nova-iorquino para encontrar a solução para a ameaça que paira sobre seu planeta de origem. A nave em questão é Eddie Murphy, andróide totalmente interativo, controlado por uma disciplinada tripulação sob a batuta do Capitão, interpretado por esse mesmo ator.

O filme só funciona por causa do protagonista que com suas gesticulações e caretas dão o tom a essa comediazinha familiar. A sugestão é sentar na frente da telona com um balde de pipoca e se deixar enredar por uma história previsível, mas com bons momentos de fantasia e humor, além daquela nostalgia dos anos perdidos.

Esses minúsculos visitantes, vindos do planeta Nilly, buscam um equipamento extraviado que porá um fim as suas angústias, mas o contato com as emoções humanas os influencia, colocando em risco a hierarquia interna e o sucesso da missão. O filme rende bons momentos, oportunidade para Eddie Murphy se mostrar em forma e lembrar que esse gênero ainda vive, mesmo que agonizante. O roteiro fica no convencional, martelando a importância da individualidade humana, da criatividade e da beatitude da família, com “críticas” tão inexpressíveis que soam gratuitas (bem ao gosto de vinte e tantos anos atrás).

Piadas tendendo a escatologia e referências pops (algumas de difícil identificação para nós brasileiros) marcam a presença do humor contemporâneo. O desenlace não resolve os problemas levantados ao longo da projeção, mas finalizam com um efeito sentimentalóide, que pode até agradar o telespectador, mas em contrapartida revela as fraquezas do roteiro.

O Grande Dave não é de todo mal, quando chegar à telinha há de ser valorizado e até apreciado. Uma boa opção para depois da novela das oito, incluindo aí os intervalos comerciais.

Cotação: regular

Vôo Noturno


Vôo Noturno (Red Eye), 2005. EUA. DreamWorks SKG / Craven-Maddalena Films / Bender-Spink Inc. De Wes Craven

De um lado um alto político americano da Era Bush, que vem a público e defende a necessidade da força bruta para a política internacional.

Do outro lado um mercenário bonitão (Cillian Murphy), disposto a assassinar esse político.

Quem é o vilão? Bem, infelizmente este último.

De fato, o substrato ideológico do filme Vôo Noturno é a guerra contra o terrorismo, dissolvido em um roteiro bobo sobre a ameaça de assassinato à família (linda, branca, loura, indefesa) de um figurão republicano.

A história gira em torno da funcionária de um hotel, chamada Lisa Reisert (Rahcel McAdams), que, em alto vôo, é ameaçada pelo mercenário Jackson Rippner (Murphy). Esse pouco patriótico homem está ciente que Keef, o político, está para hospedar no hotel no qual ela trabalha.

O plano, portanto, é obrigar Lisa a usar seus contatos para transferir o hóspede para um determinado quarto, mais exposto, o que facilitaria o atentado. Em solo, um comparsa de Jack está pronto para matar o pai de Reisert caso ela decida não cooperar.

A partir daí passamos a acompanhar as tentativas de Lisa em ludibriar seu adversário, na perspectiva de salvar seu pai e a família Keef. O cenário principal do filme é o interior do próprio avião, toda a tensão é desenvolvida nesse restrito espaço.

O argumento principal já não é promissor, a direção de Wes Craven também deixa a desejar – não conseguindo escapar dos seus conhecidos macetes. A atuação de Rachel McAdans é fria, a moça, que já não é muito talentosa, interpreta o papel da nice girl da pior forma possível. Sempre resistindo, relutando, complicando; a típica mocinha que decide sobreviver e preservar os bons valores. A mulher americana trabalhadora, que suporta o stress e sabe encontrar a via adequada para resolver todos os conflitos, até mesmo um atentado terrorista...

Já seu antagonista, embora bonito, inteligente e misterioso comete tantos erros que eu acabei desistindo de torcer por ele... Se estes são os inimigos da América, não há razão para Bush dormir preocupado.

Ponto positivo para o filme: documento indireto do medo de voar que acometeu os americanos nos últimos anos, um receio sutilmente explicitado. Outro aspecto interessante é a apresentação dos inconvenientes de voar, como a espera nos terminais e as grosserias dos funcionários e demais passageiros. Um tema que, a nós tupiniquins, soa bem contemporâneo.

Embora o filme se estruture em um suspense, ele nos lembra aqueles trilhers de ação, como O Chacal , uma produção de 1997, protagonizada por Buce Willis e Richard Gere. História na qual um detento deve impedir o assassinato de um membro da família presidencial. Novamente temos civis se arriscando para a proteção de políticos.

Claro, o filme faz sentido para o público americano, que irá torcer para que a família Keef se safe. Porém, por aqui, na terra do Oba-Oba, não estamos dispostos a arriscar nossos pescoços pelos nossos políticos.

Se ao invés de Lisa Reisert tivéssemos um brasileiro, certamente que o político e seus belos familiares se mudariam para a cidade dos Sete Palmos.

Sorte do Keef que a América ainda é a América...

Cotação: fraco

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Esses homens maravilhosos e suas máquinas voadoras


Esses homens maravilhosos e suas fantásticas máquinas voadoras (Those Magnificent Men in Their Flying Machines), 1965. 20th Century Fox. Inglaterra. De Ken Annakin

Ingleses, franceses, italianos, americanos, alemães, japoneses. Todos juntos. Uma disputa nos céus. Os aviões partindo da Inglaterra rumo à França, ao vencedor o prêmio em dinheiro e a glória internacional (para sua máquina, para si próprio e para seu país). O ano é 1910, o que torna o filme irresistível, pois vemos vários países disputando cavalheiristicamente um prêmio internacional. Os estereótipos de cada nação e personagens são formidáveis, pessoalmente prefiro os italianos.

Esse filme soube, de forma singular, captar o contexto da Belle Èpoque com sua despreocupação burguesa e aristocrática. Quatro anos depois desse evento, todos esses países estariam se digladiando na horrenda Guerra, por isso a ironia e melancolia de um período supostamente inocente, mas extremamente nacionalista. Alguns personagens, como o jovem e afetado piloto inglês, personificam as contradições da “paz armada”.

Um filme longo, que resgata velhas piadas, algumas do cinema mudo, pouco engraçadas até, mas que nos lembram uma época em que alguns homens definitivamente acreditaram na paz como regra geral, e não como exceção.

Sem cotação

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Arquivo X – Eu quero acreditar


Arquivo X – Eu quero acreditar (The X-Files: I Want to Believe), 2002. EUA. 20h Century Fox Film Corporation / Ten Thirteen Productions / Crying Box Productions. De Chris Carter

Esse filme é a picaretagem do ano. Merece toda a galeria de troféus framboesas, o roteiro não tem um pingo de seriedade, desrespeita por completo a inteligência do leitor. E eu que achei que o pior filme visto essa semana fosse Batman... Hollywood sempre me surpreende.

Na série Arquivo X havia dois padrões para os episódios, aqueles mais elaborados e relacionados ao enredo principal – envolvendo uma conspiração alienígena – e os capítulos independentes. Estes últimos eram bastante desiguais, havia os bons, os ótimos e os péssimos, infelizmente este filme se encaixa nessa última categoria.

Fox Mulder está à margem do mundo (supostamente se escondendo do FBI) e Dana Scully trabalha em um hospital filantrópico, até serem contatados pela agência federal, da qual faziam parte, para resolver o desaparecimento de uma agente – o que, aliás, é só um pretexto para colocar esse casalzinho junto novamente.

Scully decepciona, e decepciona muito. Logo no começo, somos introduzido a sua sub-trama, a tentativa da médica em salvar um garoto de uma doença incurável. O padre dirigente do hospital parece ter uma incomum vocação em “deixar o garoto morrer em paz” (sim, ele diz isso), dificultando o máximo o trabalho da ex-funcionária do FBI. No entanto, a racionalista e pragmática doutora se recusa a largar o caso; de forma resoluta ela se posiciona diante da junta médica e argumenta ter encontrado uma solução.

Na cena seguinte ela está digitando no Google “terapia células troncos”. É... pelo jeito ficou muito fácil ser um pesquisador de ponta... E ainda a médica se ressente com os embargos apresentados pela família para continuar o tratamento... depois de tanta pesquisa...

E não é só isso, sua postura é completamente démodé. Scully se revela uma daquelas médicas cujo objetivo consiste em vencer, a qualquer custo, a doença, mesmo que o tratamento seja doloroso. Eu sou leigo no assunto, mas me parece que a tanatologia e a própria eutanásia trouxeram um novo entendimento para a medicina sobre a morte. O profissional da saúde não é um paladino em luta constante contra a finitude, sua função consistiria em permitir um bom viver ou um bom morrer. Claro que essa reflexão é muito específica, mas serve para enfatizar o retrato simplista feito da Scully.

Já Mulder está mais interessante, de um modo geral convincente. Quando eu era estudante secundarista, costumava falar (para causar frisson na comunidade máscula) que David Duchovny (o ator) era o homem mais bonito do mundo. Dez anos depois, acho que perdi minha habilidade de avaliar a beleza masculina, mas estou disposto a insinuar que ele está na lista dos mais decadentes de Hollywood. Com mestrado e quase doutorado em Literatura, Duchovny esnobou seu personagem, dizendo que havia abandonado a série para não ficar estigmatizado por esse papel (a síndrome do Capitão Kirk), mas vejam só o retorno do filho pródigo...

Após abandonar a série participou de excelentes produçoes como Feitiços do Coração (eca), Evolução (eca!!) e Zoolander (eca!!!). Enfim, sempre haverá um lugar para Fox em nossos corações, isto é, se você for um fã... Mas não vamos tocar no assunto dos atores, ou teremos que lembrar a atuação de Xzibit (que faz um programa na MTV americana), com um personagem completamente descartável e unilateral – sua função é ficar mal humorado, e só.

Arquivo X – eu quero acreditar é uma grande gafe, história completamente inverossímil, mesmo para uma ficção científica. Quando você se intera da trama não há como não ficar constrangido. Uma lógica aplicável a desenhos animados; a propósito, tem um episódio de halloween dos Simpsons que aborda justamente esse tema. O desenvolvimento do enredo se mostra tão capenga que os eventos vão se sucedendo sem muito nexo, mas com as convencionais pitadas de xenofobia (malditos russos!!). Além de frustrante, o desfecho nada elucida, mas escancara a fraqueza deste projeto.

A discussão fé versus religião fica solta, sobretudo nos momentos finais com a irreversível a crise da identidade da Scully. A própria dinâmica entre os dois personagens fica aquém do esperado, ainda que vez ou outra possa resultar bons momentos. Como o retorno dos dois ao FBI, eles param diante de um quadro do presidente americano George. W. Bush, fixam em sua foto e depois olham um para o outro. O semblante deles anuncia a distância de tempo entre os dois momentos (a época em que eram investigadores e a atual), sugere inclusive um constrangimento de Fox e Dana.

Incômodo dos ex-agentes com as mudanças ocorridas no FBI (o novo olho panóptico do governo) ou talvez constrangimento de Gillian Anderson e David Duchovny, por terem sido convencidos a entrar nessa furada.

Cotação: péssimo