terça-feira, 29 de julho de 2008

Batman – o cavaleiro das trevas


Batman – o cavaleiro das trevas (The Dark Knight), 2008. EUA. Warner Bros. Pictures / Legendary Pictures / DC Comics / Syncopy. De Christopher Nolan

Homem de preto, qual é sua missão? Encher a sala do cinema, arrecadar mais de milhão!”

Um filme bruto, parece ter sido roteirizado, dirigido e produzido por uma cúpula militar, não há qualquer sutileza, inteligência ou meias palavras. Tudo tem que ser explícito. A mais pura pirotecnia.

Documento importantíssimo para entendermos o pensamento reacionário contemporâneo, pois Batman nada mais é do que o Capitão Nascimento com um cartão de crédito ilimitado. Um genuíno cidadão americano (típico, diria), isso com certeza. Como todo os mocinhos deste filme, o homem morcego se acha no direito de quebrar as leis, seja buscando criminosos em outros países, torturando suspeitos ou disseminando escutas telefônicas.


[Imagens acima: O sagrado direito de tortura. Em Gothan, o insano agride o insano | Em Abughribnv o terrorista tortura o “terrorista”]

Alguns espertinhos ainda podem tentar justificar através do argumento de que Batman representa o “lado negro da América”. Mentira, representa só o lado patético, autoritário e medíocre. Não há qualquer dimensão humana no filme, os dois principais personagens – o menino de capa preta e o menino de maquiagem – não são humanos, mas simplesmente máquinas de destruição, a diferença é que um acredita na lei e na ordem (pela segurança tudo vale a pena!) e outro ama o caos (esse pelo menos resvala em certa sinceridade do militarismo americano).

Uma cidade que precisa de um justiceiro com roupas de estilo duvidoso não merece ser levada a sério – convenhamos Sr. Bruce Wayne, nos anos 80 o modelito preto era cool, agora só cai bem se você tiver 16 anos e uma tendência suicida. A armadura que esconde o milionário é quase alegórica, pois ela cria uma nova estética, que protege e defende, mas desumaniza e elimina a flexibilidade e capacidade de interagir com o mundo. Conserta-se a sociedade com repressão extrema a criminalidade e é só – o fato dos trânsfugas serem estrangeiros auxilia muito, diga-se de passagem...

A república romana nos legou o direito e a convicção de que não se é sensato torturar um prisioneiro. Mas parece que a nova (que na verdade é bem velha) geração de Rambos não foi informada sobre esses protocolos legalistas. O discurso gira em torno das balelas usuais, o bem coletivo se sobrepõe aos individuais, e quem decide isso é um mega-magnata que nas horas livres brinca de consertar o mundo através de sopapos.

A estética do filme tende para um realismo doentio, um esforço para nos persuadir de que a ficção e a realidade se equiparam. Nesse sentido a fotografia é eficiente, as explosões, as feridas no rosto do promotor (aliás, nosso Cícero contemporâneo) são convincentes e geram uma tensão permanente no público.


[Imagens acima: Qual imagem é real? Qual é ficcional? O nascimento do Duas Caras e a vitima dos Batmen contemporâneos]

Infelizmente Heath Ledger será lembrado por sua última atuação como o Coringa, e por causa da sua morte alguns querem ver genialidade em sua atuação. Que os mortos descansem em paz, mas histrionismo não é razão para destaque notório, e da representação pura da maldade o cinema americano está cheio. Aliás, o Coringa de Ledger é bem menos elegante que o de Jack Nicholson, pois este último ainda tinha uns arroubos poéticos.

Mas entre Tim Burton e Christopher Nolan há um mundo de diferenças. Enquanto um tende para o film o outro tende para o movie – embora, em última instância, ambos tenham sido bem acolhidos nos cinemas da América e do restante do mundo.

Enquanto Batman (des) protege Gothan, incentivando o aparecimento de uma variada fauna de insanos, o restante do globo ressente o excesso de justiceiros, que estão por aí a solta, levando uma ordem bem sui generis para rincões do mundo não branco...

Pois que Capitão Nascimento pode subir a favela e matar os crioulos.

Pois que Batman pode flanar pelos ares em busca dos chinas criminosos.

Pois que the american civilization white pode capturar o Coringa Hussein ou sair às caças do Duas Caras Laden.

Há uma coerência... cabe decidir se ela é implícita ou tácita.


Observação: imagens de torturas a prisioneiros retiradas de http://antidireitaportuguesa.blogspot.com/

Cotação: péssimo

10


10 (Ten), 2002. Irã/França. Abbas Kiarostami Productions. De Abbas Kiarostami

1ª Observação

Um dia, os americanos descobrirão o cinema iraniano. Esse será um bom dia para nós ocidentais, que teremos um novo fluxo de originalidade no cinema comercial. Claro que será uma adaptação, algo similar com o que vem ocorrendo com o cinema japonês. Mas indubitavelmente as produções iranianas possuem uma vitalidade que nos fazem falta.

2ª Observação

Ver filmes de países pouco conhecidos por nós, é uma oportunidade para confrontar nossos preconceitos e estereótipos com as auto-representações contidas nessas produções.

Em 10, percebemos que o cotidiano da sociedade iraniana não é muita diferente da nossa. Claro que eu não estou considerando esse filme como a revelação de uma verdade até então desconhecida. Mas não deixa de ser surpreendente vemos uma mulher iraniana falando de adultério, direito das mulheres, vida afetiva e problemas com os filhos.

A questão não é se estamos tendo acesso a uma verdade, mas sim que esse filme permite reconhecer em povos – que julgamos distantes – vidas e cotidianos muito próximos ao nosso. O cinema criando identidades culturais que transcende ao local.

3ª Observação

O filme se passa dentro de um carro, acompanhamos uma motorista que, ao longo da projeção, dá carona para várias pessoas. A partir do diálogo entabulado entre elas, vamos conhecendo algumas práticas e aspectos da sociedade iraniana.

Essa estrutura, embora original e bem trabalhada, é cansativa e acaba dispersando a atenção do espectador. A ausência de uma trama definida impede que o “efeito de realidade” seja maior, isto é, não embarcamos completamente na história.

Um filme dirigido não para a emoção ou o alheamento da realidade, mas sim para a reflexão e a ponderação.

Sem cotação

Um toque de rosa


Um toque de rosa, (Touch of Pink), 2004. Canadá. Sienna Films Inc. / Martin Pope Productions. De Ian Iqbal Rachid

Filme inteligente, embora resvale nos lugares comuns de filmes sobre homossexuais e casamentos “arranjados”.

Nesse filme temos a história do indiano Alim, um homossexual que tem como amigo imaginário ninguém menos que o espírito de Cary Crant. Alim, embora criado no Canadá, vive na Inglaterra, com seu namorado, Giles

A mãe de Alim, interpretada pela bela Suleka Mathew, sem saber da opção sexual do filho, quer que ele se case a qualquer custo. É dentro desse contexto para lá de batido que a história se desenvolve. Lembrei inclusive de Banquete de Casamento, dirigido por Ang Lee, que tem uma temática similar.

Um toque de rosa não é uma produção americana, mas sim canadense e inglesa, o que talvez tenha contribuído para umas cenas mais ousadas (se usarmos como parâmetros as produções hollywoodianas).

Os clichês estão presentes. Alguns estereótipos (não ofensivos, é importante frisar) sobre os gays, porém o que chega a ser incômodo é o lugar comum de contrapor culturas tradicionalistas (no caso os indianos) versus mundo moderno (ocidente, Inglaterra etc). A família de Alim se preocupa muito com as tradições, esquecendo o que seus membros realmente desejam. Solidariedade orgânica? Talvez.

Mas o filme é agradável, pouco humor, interpretações simples mais comedidas. Noru, mãe de Alim, é sem dúvida o segundo maior atrativo do filme.

O primeiro atrativo fica, sem pestanejar, para o fantasma de Cary Grant (interpretado por Kyle MacLachlan), vaidoso, convencido, levemente arrogante, seguro de si. Na verdade Alim projeta tudo o que deseja ser em seu amigo imaginário.

Alim é inseguro, sendo inclusive um pouco chato com suas indecisões. Falta a ele o arrojo de seu mentor imaginário, que vai a uma festa indiana vestido de Livingstone.

Sem cotação

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Kung Fu Panda


Kung Fu Panda, 2008. EUA. DreamWorks Animation / Pacific Data Images. De Mark Osborne e John Stevenson

Dizia-se, antigamente, das normalistas de 16 anos que, quando introduzidas na arte da culinária, faziam uma comida bem feitinha, mas sem sal, sem sabor. Faltava a elas o segredo daquelas cozinheiras que passaram a vida toda no fogão.

Isso é o que pode ser dito sobre Kung Fu Panda, filme tecnicamente bem feitinho, mas sem sabor. Tudo nele parecer ser resultado de técnicas computacionais, não só as imagens, mas também o roteiro e a direção. Talvez já haja um software capaz criar um filme, do argumento ao produto final, você digita as palavras chaves, tais como:

urso | kung fu | aceitação social | superar desafios | derrotar vilão

E o resultado seria Kung Fu Panda...

O urso gordo que sonha ser um grande lutador, por um acaso ele é selecionado para um rigoroso treinamento, sendo recusado por todos e tido como alvo preferencial de deboches. Porém ele acaba por descobrir seu valor e suas supostas fraquezas se revelam o grande trunfo, o único capaz de derrotar o vilão arrogante em busca do poder supremo, mas desabilitado a perceber as pequenas belezas e sutilezas da vida.

No decorrer do filme todos nós aprendemos uma lição, tal como “seja você mesmo” ou “não desista dos seus sonhos”. Porém, tal qual o urso do filme eu sou preguiçoso e sempre esqueço esses brilhantes ensinamentos; aliás, por isso mesmo eu retorno às salas de projeção para assistir essas animações.

Uma historinha engraçada, mas sem ousadia, as próprias cenas de combate são reduzidas, isso porque a censura tem que ser livre. Quanto aos personagens, o destaque fica para a tartaruga, guerreiro supremo e detentor de segredos milenares, mas que, como em todo filme de kung fu que se preze, por alguma razão não toma partido na luta final.

Assim como no filme há um ensinamento secreto para se tornar um grande mestre ou o ingrediente secreto para se tornar o grande cozinheiro, talvez haja o macete secreto para se fazer um grande filme. Aliás, não é nem tão secreto assim, todas aquelas animações insanas dos anos 30 e 40 o conheciam.

É só não acreditar que o software resolve tudo, que a animação 3D é a resposta infalível. A subjetividade e a inteligência ainda têm um papel no cinema, pequenino, mas existente. As cozinheiras velhas sabem disso.

Cotação: fraco

As Damas de Ferro


As Damas de Ferro (Satree lek), 2000. Tailândia. Tai Entertainment. De Youngyooth Thongkonthun

Definitivamente torcemos pelos mais fracos, pelas minorias. Por isso Jerry sempre ganha, enquanto Tom leva a breca. Frajola coitado, já cansou de perder para Piu-piu e Ligeirinho. Assim por diante...

Por isso um filme que fala sobre jogadores de vôlei talentosos que não podem entrar em times pelo fato de serem homossexuais tem tudo para conquistar nossa simpatia. Falo do filme tailandês As Damas de Ferro, que inclusive é baseado em "fatos reais".

A história narra a trajetória de um time de homossexuais e travestis no campeonato nacional da Tailândia. Possuem vários personagens interessantes, como "búfalo gay", um integrante do exército e Pia, uma belíssima drag queen, que consegue chamar atenção até mesmo dos homens. Porém o destaque são para os personagens Mong e Jung, dois talentosos jogadores. Também há a treinadora Bee (lésbica) e um único jogador hetero do time, que se por um lado tenta aceitar os outros integrantes, sente-se incomodado com as suas futilidades (como o excesso de maquiagem nos jogos).

O filme até que é engraçadinho, sem falar que, em termos éticos, é um filme sobre tolerância. Em outras palavras, até que gostei, embora haja uma série de problemas. O que eu vou falar agora dói... mas esse é um filme que deveria ser produzido por Hollywood (como sou vendido!).

Faltou um roteiro e uma trilha musical hollywoodiana para uma maior empatia com os personagens. Pois esse é o principal problema do filme, é espontâneo demais. Vejam bem, há um momento, mais do que previsível, que um dos dirigentes do campeonato nacional - um machista homófobo que folheia revistas com fotos de mulheres nuas - tenta impedir o time de jogar. Sua afirmação de que o time era composto de doentes é ouvido pela platéia inteira (na qual se encontravam presentes vários homossexuais e drag queens). O público incomodado com a declaração começa a gritar o nome do time. Se fosse um filme americano ouviríamos uma música lacrimejante, enquanto a câmera focalizaria o rosto enternecido dos jogadores e o apoio incondicional do público. Não resistiríamos e diríamos: "deixem as garotas em paz, elas só querem jogar".

Mas nada disso acontece... que pena...

O roteiro é muito simples, assim como a trilha sonora e a fotografia. Há algumas referências ao cinema americano mais do que gratuitas.

Cinema é manipulação. Ao assistir um filme nossos sentimentos devem ser manipulados (vide a última produção de Michael Moore), devemos ser conduzidos ao choro ou ao riso. Isso As Damas de Ferro não consegue. Naturalmente resultado de uma cinematografia incipiente, porém promissora.

Sem cotação

Observação: com esse texto começo a republicar as minhas mais antigas críticas, na medida do possível assistirei novamente aos filmes para ver se minha opinião mudou.

domingo, 13 de julho de 2008

Hancock

Hancock (Hancock), 2008. EUA. De Peter Berg.

Sexta-feira, região metropolitana de Belo Horizonte, estou em um Grande Shopping, na fila eu e mais uns tantos gatos pingados.

- Esqueci minha carterinha de estudante dona, digo temerosamente.

- Não tem problema, entra aí...

De fato, pensa a funcionária, antes meia-entrada do que nada... parece que o risco de falência flexibilizou critérios antes severamente cobrados. Há até uma poesia em um cinema que passa cópias dubladas de Hancock e cujas cadeiras são ocupadas por pequenos grupinhos de adolescentes em burburinhos que, no ápice dramático da projeção, pronunciam emocionadamente: “Pô véi, ele tá pedindo disculpa na humildade”...

Sim, John Hancock, interpretado por Will Smith, é alguém para os six-teen years se identificarem. Um herói bêbado que ameaça seus antagonistas com a frase: “Vou enfiar sua cabeça na bunda dele”; para o delírio do público, é claro.

Hancock é o Casablanca dos tempos atuais. Imaginem se Humprhey Bogart, ao invés de possuir um bar, tivesse poderes e saísse pela França desocupada executando ações mal-direcionadas de heroísmo. Durão, mas no fundo um sentimental. Novamente um triângulo amoroso mal resolvido e no qual a mulher – não importando a sua intrepidez – deixa as derradeiras decisões nas mãos dos homens.

Em suma, filme indeciso quanto ao seu gênero, pois, na primeira metade se apresenta como uma comédia, e nesse propósito até que é eficiente, mas nos atos finais passa a se levar a sério ressaltando algumas nuances dramáticas na pretensão de reviver as trajetórias dos heróis gregos. Falhas de roteiro a parte, a dificuldade de optar pela fábula ou pelo realismo fantástico se revela como o grande empecilho para a efetivação da proposta inicial (seja lá qual for!). O trabalho até que tem bons momentos, com atuação satisfatória de Smith que consegue transitar entre o burlesco e o trágico.

[Imagem acima: Humprhey Bogart e Ingrid Bergman, Will Smith e Charlize Theron - amores impossíveis. Caberá à figura masculina a decisão correta, pautada por uma ética sui generis]

Com desfecho conformista e chauvinista – viva a decisão masculina, a contenção das paixões, e o modelo convencional de família – os momentos finais eliminam toda e qualquer analogia com o drama ou a tragédia. O que resta é um otimismo meio bobo.

Mas para um filme dublado em um Shopping vazio e repleto de adolescentes, Hancock cumpre sua função: provoca as risadas, umedece as pálpebras e desperta nas novas gerações o reconhecimento da supremacia masculina e as benesses da fidelidade conjugal. Will Smith ensina que os brutos também amam.

Pedagogia cristã, a preços módicos e ao alcance de todos.

Cotação: Fraco

Procura-se Amy


Procura-se Amy (Chasing Amy), 1997. EUA. De Kevin Smith

Os três filmes de Kevin Smith que assisti – Dogma, O Império (do Besteirol) Contra Ataca e Menina dos Olhos – não foram muito animadores. Tanto que nunca me interessei em conhecer outros trabalhos desse diretor.

Porém Procura-se Amy é uma comédia romântica consistente o suficiente para redimir todas as suas nulidades anteriores e posteriores.

Comecemos pelo final. Não há o happy end costumeiro, Smith encontra uma forma inteligente de quebrar os clichês do gênero. Não vale a pena contar o final, mas posso adiantar que as comédias românticas iludem o espectador com desfechos irrealistas. Paixões e suspiros correspondidos só funcionam na tela do cinema, A Rosa Púrpura do Cairo está aí, para não nos deixar esquecer essa lição de Woody Allen.

Porém, neste caso específico, o final é uma premissa coerente da história. O enredo consegue trabalhar muito bem com a tensão entre uma forma moralista e outra mais “esclarecida” de compreender os relacionamentos humanos.

Procura-se Amy não é um filme sobre declarações de amor, mas sim sobre o fracasso dessas declarações. Falar a verdade, confessar, explanar suas emoções, ao contrário da estrutura clássica do gênero, não conduz a uma situação de concórdia ou amor. A confissão implica em se expor ao trágico e ridículo, ao isolamento e a vergonha.

Um cinema muito pessoal, pois o diretor – que assim como Tarantino, não consegue ir muito além das referências pops – faz poesia a partir de motivos escatológicos. O tema é o esdrúxulo, uma desvinculação definitiva entre amor e sexo. Um ataque frontal a ideologia reacionária do gênero, com suas eternas Megs Ryans e Sandras Bullocks, renovadas a cada década.

Prefiro não comentar nada sobre o filme e deixar as surpresas – que aparecem de forma gradual – para o expectador desavisado. Mas que fique o lembrete de que não são pelas nossas expectativas que o filme se resolve. É um filme sobre procura, mas só sobre a procura.

Cotação: Bom

sábado, 14 de junho de 2008

Fim dos Tempos


Fim dos Tempos (The happening), 2008. EUA. De Nigth Shyamalan

Shyamalan decidiu mostrar que ele não é Steven Spielberg e que seu cinema passa muito longe da assepsia inaugurada pelos “filmes famílias”. Em seus atos iniciais Fim dos Tempos causa incômodo ao expectador, mostrando cenas de violência de um modo que o público médio está desacostumado. Em determinado momento um personagem liga um cortador de grama e deita ao chão, esperando ser dilacerado, achamos que a cena será subentendida, mas o cineasta faz questão de mostrar o trucido.

O enredo discorre sobre ondas de suicídio que estão varrendo as grandes e pequenas cidades do leste americano. Sem explicações aparentes, as pessoas assumem um estado de transe e passam a buscar formas violentas de se matarem. Em meio ao caos provocado por esses impulsos auto-destrutivos da sociedade, uma família genuinamente americana busca a segurança nas áreas não afetadas. Um itinerário batido, que em alguns momentos chega a nos lembrar o decepcionante Guerra dos Mundos (2005) ao revelar a impotência dos personagens em um contexto que lhes é hostil.

O pano de fundo aborda a questão da preservação do ambiente, os próprios protagonistas percebem as possíveis correlações entre a ação humana e a resposta da natureza. Raciocínio simplista e mecanicista, típico de um professor de ciências de uma High School, aliás, personagem principal do filme, interpretado por Mark Wahlberg. De qualquer forma cumpre o objetivo de fornecer uma pseudo explicação para o evento.

A principal debilidade do filme reside nas limitações das premissas, pois a narrativa se resigna a mostrar a fuga das multidões, focando em um grupo específico e, providencialmente, eliminando aqueles pobres personagens que só entraram na história para receberem uma morte violenta...

No ato final, surge uma nova personagem, acrescentando uma sub-trama completamente desnecessária que, inclusive, assemelha-se ao lunático de Guerra dos Mundos, interpretado por Tim Robbins. Trata-se da senhora Jones, uma eremita que dá abrigo aos fugitivos, relevando um comportamento imprevisível e ameaçador – aliás, por um momento receei que ela pudesse ser um fantasma (vide Sexto Sentido) ou então uma super-vilã (vide Corpo Fechado)... mas ela só aparece na história para dar uns sustos extras no público (a essa altura, já maçado pela ausência de novos happenings).

O desfecho tem o sabor de um anticlímax, sem apresentar um desafio final interessante e com uma resposta muito absurda para os problemas levantados ao longo da projeção. Depois de 70 minutos focados em um único grupo, parece coerente (para o expectador) aceitar que, se eles se safarem, o final pode ser considerado feliz, isto é, cai o pano sem maiores preocupações. A macro questão insinuada durante toda a narrativa – o alerta de Gaia contra o homem – se perde em meio a notícia final de uma gravidez. Temos um filme para a família e sobre a família, importa a preservação de alguns, o resto é desculpa, contextualização básica para as desventuras americanas.

Guerra dos Mundos, mas com um pitadinha de Shyamalan. Nada de mais, nada de menos.

Cotação: regular

O céu de Suely



O céu de Suely, 2006. Brasil. De Karim Aïnouz

Novamente somos levados ao interior do nordeste para presenciarmos uma história universal. Claro está que é nessa estrutura que reside o problema principal de O céu de Suely. O filme não consegue se decidir entre um viés etnográfico e uma perspectiva mais intimista.

O filme enfoca a personagem Hermila, que deixou seu marido em São Paulo para regressar à terra natal. Ela volta para a cidadezinha de Iguatu trazendo seu filho. Embora satisfeita com o retorno, Hermila desiste de suas perspectivas otimistas ao perceber que seu marido a abandonou. O sentimento de perda e a precariedade material de sua vida a conduz a um estado de depressão e um vazio muito grande.

Embora o filme consiga desenvolver essa premissa inicial, a direção muito rebuscada acabou por submergir os méritos dessa produção. A começar pela própria direção musical e efeitos sonoros.

No afã de criar um registro etnográfico do interior cearense, o filme captou todo o som ambiente; as personagens conversam e, ao fundo, escutamos o barulho da moto, dos vendedores, do rádio de música evangélica. Porém esse recurso acaba se revelando redundante, é uma persistência documental, que não contribui com o desenvolvimento do enredo. Parece que nesse momento o filme esquece de se colocar como ficção, tornando-se relato de um viajante – no caso o diretor Karim Aïnouz.

Se os efeitos sonoros acompanham o ambiente, a trilha musical já está mais próxima dos sentimentos de Hermila. Há inclusive uma música eletrônica tocada no filme que registra seu ritmo interno. Aliás, o mesmo pode ser dito sobre a direção de arte, que compôs interiores com tantos detalhes que serviram menos a trama e mais a essa tentação documentalista.

Regional ou universal? É um registro da vida no nordeste ou uma discussão sobre os conflitantes sentimentos de uma mulher? Algum espertinho pode argumentar que são as duas coisas, que essas opções não são excludentes e que exigir da produção uma opção como essa é simplesmente non sense. Mas se fosse assim – ao menos nesse caso – o filme seria mais consistente, com um enredo menos desinteressante para o expectador.

Hermila decide mais uma vez abandonar Iguatu, querendo ir para o lugar mais longe possível – um reflexo do seu distanciamento para com seu próprio mundo. Naquela realidade social representada no filme não há nenhum elemento que explicaria essa decisão, por isso o recurso aos “recônditos do coração” da personagem. A única maneira dela conseguir essa fuga é através de uma forma mais branda da prostituição. Ela decide rifar seu corpo, o vencedor teria “uma noite no paraíso” – aqui vemos uma caracterização regionalista de uma cidade pobre, sem muitas possibilidades de trabalho. Justamente o conectivo entre essas duas situações – o documentário e a ficção – que não é convincente.

Hermila, que em sua rifa adota o nome de Suely, passa a abordar os homens tentando vender seus bilhetes. No mais, o filme percorre itinerários com certa previsibilidade, as discussões com a avó, a vivência com a amiga e o conflito com o novo namorado.

Porém há momentos em que o filme sintetiza muito bem essas duas tendências (regional e universal). Como no momento em que ela percorre um estacionamento de caminhoneiro, a fugacidade da vida daqueles homens reflete seus sentimentos, momento no qual se inicia também sua exibição.

A personagem, em si, é interessante, uma deslocada que aplaca suas tristezas na fuga, sua esperança é encontrar um lugar vazio – sem referências do passado e expectativas para o futuro. Por isso em suas vestimentas sempre há algo em azul, a chuchuquinha do cabelo, o anel, o brinco, a blusa, o brinquedo do bebê. Azul por que remete ao celeste e, nas seqüências finais do filme, quando vemos o céu, compreendemos finalmente o que ele significa para a personagem. Em plano geral a vegetação típica local, um quase nada se comparado ao azul que se estende logo acima das mirradas árvores e vai ao infinito.

Assim novamente o universal e o regional se encontram, a conclusão se revela satisfatória e coerente, porém não consegue redimir o todo. Assim, O céu de Suely pode ser colocado em uma estante bem ao lado de Eu, tu, eles, na frente de Abril despedaçado, mas bem atrás de Central do Brasil, bem atrás.

Cotação: regular

terça-feira, 10 de junho de 2008

O diabo feito mulher



O diabo feito mulher (Rancho Notorious), 1952. EUA. De Fritz Lang

O diretor austríaco nos trás um filme original, bem ao gosto dos anos de ouro de Hollywood. Trata-se de um western amargo, com alguns momentos de humor e um ar de tragédia anunciada desde o primeiro momento.

Poucos dias antes de seu casamento, o honesto vaqueiro Verns Heskel recebe a notícia de que sua noiva foi assassinada por um bandido ao resistir aos seus assédios. Após perceber o desinteresse das autoridades pelo caso ele parte em busca da vingança, tendo como única pista a informação de que seu inimigo poderia estar em algum lugar chamado “Chuck-a-Luck”. Após meses de procura ele vem a saber que o local era uma fazenda destinada ao abrigo de foras da lei, comandada por Altar Keane (Marlene Dietrich).

O filme se envolve em um enredo marcado por um triângulo amoroso (entre Vern, Keane e o galante French), dissimulações, intrigas e muito rancor. As falas de Keane são as mais cruéis, embora o olhar frio e vingativo de Verns Heskel denuncie sua decisão inabalável em eliminar o assassino de sua amada, afastando-o da composição “ideal” do mocinho. Em alguns momentos é um western com pretensões a um drama shakespeareano, onde um mal entendido pode conduzir um inocente à morte. Aliás, nem tanto, já que todos os hóspedes da fazenda Chuk-a-Luck são criminosos notáveis.

Interessante que não há uma dicotomia clara entre os homens da lei e os vilões, tanto que o espectador pode se identificar com esses últimos. De qualquer forma o mundo da ordem ainda é a referência e na medida em que vemos Vern se afastar de sua antiga vida de fazendeiro, tornando-se um pistoleiro, percebemos que uma triste trajetória está a se concluir.

A personagem mais interessante, sem dúvida, é Altar Keane, uma mulher austera e vaidosa, ciente do seu declínio e decadência de sua beleza, mas mantendo sua feição orgulhosa. Não há lugar no western para as mulheres e, se ela sobrevive em tal meio, o preço a se pagar é alto. Antes uma dançarina de boate, agora uma fora da lei. Em sua face se percebe a tristeza, a resignação, mas a capacidade de resistir aos tempos, não importam quão difíceis sejam.

Um filme simples, mas inteligente, que surpreende pela ambigüidade moral dos personagens – os vilões possuem uma ética de grupo enquanto o herói usa de todos os meios para atingir seus objetivos. Contribuição de Fritz Lang ao gênero, conseguindo extrair do western uma narrativa mais melancólica do que o usual.

Cotação: bom

sábado, 7 de junho de 2008

O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford


O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford (The Assassination of Jesse James for the Coward Robert Ford), 2007. EUA. De Andrew Dominik.

Pertencemos à história, mas nosso indício no imenso caudal do tempo se apagará rapidamente. Nenhuma crônica será escrita sobre nós e, com o passar de poucas gerações, não haverá quem faça idéia de que um dia existimos; enfim, condenados ao esquecimento. Mas, alguns demonstram capacidade de deixar rastros e lembranças de suas ações, outros vão além, e abandonam os anais da história para ingressar na narrativa mítica.

Jesse James era um ladrão e assassino, mas, ainda em vida, já havia aedos interessados em perenizar seus feitos. Homem temido, odiado e amado por seus comparsas e pelo público médio, interessado nos foras da lei. Esse herói moderno padece da constante sensação de que seu fim se aproxima, pois quanto mais afamado, mais perseguido – não há lugar para o mito entre os vivos. Por isso, perscruta com singular sadismo os atos, intenções e até pensamentos daqueles que o rodeiam

Brad Pitt desempenha com maestria esse papel, dando um verossímil estoicismo ao seu personagem, que parece antever, desde o primeiro momento, sua extinção. Lembramos de Aquiles (interpretado pelo mesmo ator) que, em Tróia, espera pela sua derrocada com igual coragem e resignação. A intrepidez e ousadia de Jesse James se revelam incongruentes com uma época na qual a imprensa cria figuras mais fantásticas que suas inspirações reais. Em um determinado momento, o criminoso lembra a um dos seus admiradores a falsidade daquelas bravuras descritas nos livretos.

O oposto de Jesse James é Robert Ford (Bob), jovem de inteligência mediana, leitor de textos populares e que se enveredou pela admiração de um personagem cujo desempenho parece mítico. Quando Ford diz que “Ele é só um humano”, sua frase entoa um auto-descrédito. A dramaticidade do filme reside na lembrança da missão que caberá a esse simplório. Não há martírio maior do que a necessidade ou dever de assassinar seu próprio Deus. A vitória não é uma vitória, pois se Jesse James se revela um mortal, nada mais faz sentido, não há mais lugar para o maravilhoso no mundo.

Em The Man Who Shot Liberty Vance, o idealista advogado (James Stewart) vive de uma glória que não a sua, foi seu rival quem abateu o temível bandido. Ao relatar (no final de sua trajetória) a verdade para um jornalista, este prefere manter a fábula, por ser mais poética e didática. Vemos aqui o mesmo desencantamento do mundo provocado pelo reconhecimento de que o herói pode morrer. Que Bob atirou em Jesse James todos sabem, porém, haveria algo de notável nessa execução? Poucos os que reconheceram a nobreza daquele tiro disparado pelas costas. Seu próprio autor acabou mergulhado na introspecção, obrigado a repetir indefinidamente (através de apresentações teatrais) aquele ato infame.

Punido com o esquecimento, pois Robert Ford não se eternizou nas memórias populares, nem recebeu, por muito tempo, o apreço da população, vezes ou outro lembrado, mas como o covarde, o covarde que matou Jesse James.

Cotação: ótimo

sábado, 31 de maio de 2008

Speed Racer


Speed Racer (Speed Racer), 2008. EUA. De Andy Wachowski e Larry Wachowski

Peguei o ônibus e fui ao cinema assistir Speed Racer. No caminho o trânsito estava engarrafado, como sempre, nas Mach 5 enfileiradas percebia-se a impaciência e o stress dos motoristas não tão indômitos quanto o personagem que dá título ao filme. Sem dúvida, se há alguma beleza ou grandeza no automobilismo sabe-se que são restritas a tela de projeção, pois, no mundo concreto (ou seria “de concreto”?), o que nos aguarda não são as manobras mirabolantes, mas sim o caos urbano.

Noventa por cento do filme pode ser jogado fora, incluídos as já citadas manobras mirabolantes (não há nada ali que nunca tenhamos visto) e aquele bla bla bla da importância da família e da defesa dos entes queridos. Visualmente, o produto final é arrojado, nos convence pela sua beleza, seu design, mas e daí? Não há como esquecer as gafes (que ninguém percebeu porque ninguém se importa) de se colocar uma criança para dirigir um automóvel ou o maravilhamento do público em observar veículos correndo em círculos e a queimar o tão escasso Sangue Negro.

Porém Speed Racer nem almeja um diálogo com o mundo real, ele pertence à fábula, lugar de imaginários e atributos bem definidos. O pequeno empresário e o destemido aventureiro (heróis da mitologia capitalista clássica) que se antepõem à corrupta corporação e aos monopólios (vilões da mitologia capitalista moderna). Enfim a dicotomia está traçada e não podemos esperar mais do que isso.

No entanto, aqui há a surpresa positiva, que faz o ingresso valer a pena, explorando as ambigüidades de alguns personagens o que presenciamos são as novas atualizações do confronto entre Davi e Golias. Destaque para o personagem Speed Racer e seus imprevisíveis aliados, o Corredor X e Taejo.

Emile Hirsch abandonou as terras selvagens do Alasca (e sua revolução espiritual) para desempenhar um novo papel, novamente épico. Speed Racer é um exímio (sim! Eu já usei essa palavra antes), há algo que ele pode fazer como ninguém, pilotar Mach 5 é mais do que um esporte. O volante se converte em suas mãos em um pincel, no qual ele descreve inusitadas curvas e singulares rotações e revoluções. Ele almeja ser o melhor, movido por um código de conduta que tende ao arcaico: sua intenção é provar a viabilidade do self made man e da iniciativa individual em um universo marcado por corporações e embustes. Ele corre para se aproximar do seu irmão, que já não está mais entre os vivos, pois faleceu em empreitada semelhante. Na grande corrida, transparece em suas feições a agonia do processo criativo, ao final, seu semblante não traz a expressão da vitória, mas sim os sinais de exaustão física e mental.

Já Matthew Fox desistiu de ser um exemplo moral na Ilha da Fantasia e se mascarou para uma nova missão, dessa vez desempenhar a função do anti-herói, o liberal desiludido que decide enfrentar o sistema com táticas quase de guerrilhas. Misterioso, desafiador, mas confiável, Corredor X trás a imprevisibilidade às pistas, mas também revelas as diferentes manifestações da justiça, conseguindo cooptar o não menos ambíguo Taejo em sua Missão.

Cena emblemática do filme: momentos finais, o grande duelo se aproxima. Um novo carro sai das oficinas do Papai Racer, resultado dos esforços de toda a família. O jovem Speed se encontra no cock-pit, no seu belo automóvel branco e vermelho. Seu clã está em segundo plano, cansados e felizes, com macacões azuis e blusas vermelhas.

Ao fim e ao cabo somente mais uma atualização da família americana, da bandeira pátria e das motivações individualistas que regem essa maravilhosa sociedade do ocidente. Os automóveis correm, mas nenhum piloto sabe ao certo o que o motiva, não faz mal, do lado de fora do cinema, no exterior do shopping, todos correm também, e, igualmente, desconhecem-se suas motivações.


Acima, vemos a bela bandeira americana

Cotação: Regular

domingo, 6 de abril de 2008

Sangue Negro


Sangue Negro (There Will Be Blood), 2007. EUA. De Paul Thomas Anderson.

O Atual contexto justifica as representações negativas do petróleo e posso adiantar que em vários momentos o filme é assustador. A música de fundo soa como um prenúncio fúnebre, mesmo nos momentos em que os personagens revelam uma comedida felicidade.

O protagonista parece saído de um conto de fadas, mas não é um cavaleiro ou príncipe, trata-se de um ogro que, no desenrolar da história, acaba por revelar suas sinistras facetas. Daniel Planiwiel é um perscrutador de petróleo que em finais do século XIX e começos do XX anda pelas terras da Califórnia, em companhia de seu filho, a procura de lugares para furar novos poços.

A princípio ele se apresenta como um empreendedor, ganancioso e ambicioso, mas humano. Na medida em que seu corpo passa a ser coberto pelo negro óleo e sangue (esses dois fluidos, afinal, não seriam a mesma coisa?) a sua malícia e desdém pela humanidade vêm à tona. Por vezes, ele surge como um Mefistófeles, disposto a comprar não só a terra, mas também a alma daqueles que cruzam seu caminho.

Sua aparência rústica e burlesca esconde uma vocação arrivista insuperável. O personagem, na verdade, revela-se como uma profecia das futuras companhias petrolíferas que passariam todo o século XX a fender profundamente o solo, na incansável busca por esse sangue da terra.

O filme, no entanto, não se limita a esse personagem, ele traz uma série de seqüências e coadjuvantes que beiram o insólito. O jovem pastor Eli Sunday se expõe como o contraponto àqueles que buscam o petróleo. Ele é o elemento pré-moderno da sociedade que tenta hostilizar a racionalidade e indiferença das técnicas contemporâneas. Como todo passadista o que ele mais ressente é a perda do controle sobre a comunidade tradicional, o que, no filme, pode ser lido como a chegada de Planiwiel.

Os diversos embates entre Sunday e Paliniwiel marcam claramente o que cada um está disposto a ceder para conquistar os objetivos. Trata-se do confronto entre a alienação religiosa pentecostal e a ganância ensandecida do capitalismo moderno.

Uma das cenas mais fortes é aquela seqüência na qual Daniel Planiwiel corre com seu filho ferido no colo, atrás si está um poço a expelir um denso jacto negro. A música no fundo (mecânica, impessoal, sinistra) confirma o evidente: algo começou a dar muito errado. Em poucos segundos, as chamas se ascendem e se propagam, com elas se incinera o restante da alma desse homem do petróleo.

Os cenários, o acompanhamento musical e os personagens sugerem, de forma inequívoca, que a busca daqueles homens é pela poção infernal. Bebida do Demo.

Do Demo.

Cotação: Ótimo

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Língua Assassina


Língua Assassina (Killer Tongue), 1997. E.U.A./Espanha (?). De Alberto Sciamma

Alguns filmes são tão ruins, mas tão ruins, que eles conseguem se tornar bons. Claro, a maior parte dos filmes mal feitos, mal dirigidos e mal produzidos são resultados da falta de habilidade ou capacidade de alguns dos envolvidos. De um modo geral, o problema começa no roteiro e se centra, sobretudo, na atuação do diretor.

Pois então, Língua Assassina não pode ter uma “ruindade” acidental, todo o ridículo e absurdo do filme deve ter sido cuidadosamente planejado. Vejamos.

O namorado de Candy vai sair da prisão, ela, junto com seus poodles vai ao seu encontro. No caminho Candy e seus cachorros sofrem mutação, os caninos se transformam em espalhafatosas drags queens e a língua da garota ganha vida.

A língua da garota ganha vida. Entenderam o alcance disso? A língua dela se torna um ser consciente e independente de sua vontade. Assim, a língua começa a matar pessoas, a proteger sua dona (!) e a fazer sexo com ela.

[Candy é seduzida pela sua própria língua! Candy passa a ter um relacionamento com sua própria língua – tem que repetir várias vezes, senão nem quem assistiu ao filme acredita!]

Isso é tudo? Claro que não? Os diálogos são para lá de inspirados.

Candy fala para o seu poodle que não está mais conseguindo resistir ao controle da língua, e a drag dog responde: “Não há nada errado com isso, você é só uma garota que não sabe dizer não”. Outras frases primorosas são ditas pela língua, que também é falante: “Eu sou seu único, eu sou seu máximo”. Para completar o show, há alguns planos subjetivos da língua, vemos suas vítimas do ponto de vista da boca de Candy.

Isso é tudo? Quem nos dera...

Eu nem falei da freira muda que, no decorrer do filme, começa a ficar cada vez com menos roupa e a ter ataque de êxtases sensuais. Mas sem sombra de dúvida o destaque – além da língua, claro – fica para Robert Englund (o Fredie da Hora do Pesadelo) que interpreta um policial mais surreal do que a própria língua. Ele ama seus detentos, ele odeia seus detentos, ele quer matá-los, mas, ao mesmo tempo, dá uma arma para eles se protegerem.

Confesso que não consegui compreender o filme completamente – qual é a da Candy? Qual é a do namorado dela? Qual é a da freira? Mas uma coisa é certa, se Alberto Sciamma tentou fazer um filme maravilhosamente ruim, ele conseguiu.

Troféu Ed Wood para ele.

Cotação: péssimo

sábado, 29 de março de 2008

Na natureza Selvagem


Na natureza selvagem (Into the wild), 2007. EUA. De Sean Penn

Por trás desse filme há um homem que quase morreu no Everest.

Portanto essa história tem uma poesia que nem todos podem compreender. Na natureza selvagem se baseia no livro homônimo do aventureiro Jon Krakauer que também é autor de No ar rarefeito (no qual ele relata sua escalada ao Everest em uma das expedições mais trágicas da história do alpinismo daquela montanha).

Já o filme, tem direção e roteiro de Sean Penn e, de forma bem eficiente, consegue transmitir o fascínio que os lugares inóspitos exercem sobre algumas pessoas. O enredo, a propósito, é muito mais do que isso, uma vez que relata a trajetória de um rapaz que, ao sair da universidade, decide se tornar um viajante, tendo como objetivo acampar no Alasca.

Trata-se de uma viagem pelos Estados Unidos, bem ao estilo de Jack Kerourac, que mais parece se assimilar a um percurso introspectivo. Nessa caminhada o jovem Christopher McCandless se torna Alex Supertranp, o andarilho. O que vemos, na verdade, é a recusa ao padrão de vida materialista americano.

Em cada parada, em cada quilômetro andado, Alex conhece novas pessoas, que, assim como ele, aspiram escapar desse sonho consumista ocidental. O jovem rapaz se mostra resoluto em sua disposição de cruzar a fronteira e encontrar o wilderness. Como Supertranp insinua, seu interesse é a fuga da civilização e opressão, representadas no hipócrita e destrutivo modo de vida dos seus pais.

A direção de Sean Penn se revela bem sucedida ao criar composições que metaforizam o entendimento do jovem aventureiro. As paisagens naturais aparecem como um plano geral e os embates com a natureza assumem a alegoria de obstáculos que esse jovem coloca a si mesmo.

Entre outros autores, Christopher McCandless é leitor de Tolstoi, o que explicaria sua ânsia por uma vivência simples na natureza que se contrapõe aos vícios da cidade. Em uma cena bem emblemática, o rapaz percorre por uma cidade, enquanto se questiona se deve buscar, ao menos por algum tempo, um pouso mais fixo. Contudo as mazelas da cidade, as desigualdades e a sociedade das aparências o empurram novamente em direção àquela estrada que vai para o Alasca.

Mas ninguém pode negar suas origens de todo. Supertramp nunca deixará de ser McCandless – conforme várias vezes será lembrado em sua trajetória. Ele não é um caçador, ele não é um nativo do Alasca, ele é simplesmente o belo e jovem branco de classe média alta. Cabe questionar sua prontidão para um desafio dessa envergadura proposta. Até onde ela é verdadeira? Mesmo Tolstoi teve que retornar à civilização; por que seria diferente com Supertramp?

Mas não nos esqueçamos que por trás desse filme (contribuindo com o roteiro de Sean Penn) está Jon Krakauer, alguém que quase morreu nas montanhas. Estamos falando de homens para os quais a vida ou a morte se coloca como questão secundária: superar o obstáculo, sentir a fragilidade da vida em seus ínfimos é o que importa.

Aventureiros, simplesmente isso.


Cotação: Bom

A Rainha


A Rainha (The Queen), 2006. Inglaterra/França/Itália. De Stephen Frears.

Trata-se de um forte diálogo com a cinematografia clássica, ao enfocar a biografia de um personagem de forma pouco ambígua (optando por uma coerência quase impossível à natureza humana), pois A Rainha é um filme de um personagem só, a monarca inglesa.

Mesmo que não concordemos com todas as ações dessa personagem, imediatamente simpatizamos com ela, com aquela inteligência aristocrática e soberba não excessiva.

A rainha da Inglaterra é uma mulher clássica que tem de enfrentar a voracidade da mídia e da cultura de massa. Valores como elegância, contenção, descrição se chocam com a necessidade de exposição, com a exigência de uma relação quase umbilical com os meios de comunicação.

Diana entendia isso, mas Elizabeth II não. Esse é o grande valor do filme, mostrar descompassos entre comportamentos diferentes, mas se focando em uma única personagem. Ela é chave para entendermos os paradoxos da monarquia inglesa.

A monarca vem de uma época onde a ostentação é motivo de censura, basta ver que não há nenhum luxo excessivo ao seu redor, até mesmo o televisor, em um dos aposentos, não é dos mais recentes. Claro, a rainha da Inglaterra veio de uma época ainda marcada pela carestia instaurada com a Segunda Guerra Mundial.

Os personagens que a rodeiam são um contraponto interessante, como o primeiro Ministro Tony Blair, que gradualmente vai se simpatizando com as posições da rainha – na verdade há uma certa insinuação, muito deliciosa, de que Blair é um capacho.

Outra insinuação divertida é quando percebemos que príncipe Charles é um covarde, com receio de ser atingido pela onda de insatisfação popular contra a monarquia, quanto a sua recusa de lamentar publicamente a perda da princesa Diana.

Um desafiador filme sobre o contemporâneo, sua propostas é a de ser analítico, sem levantar bandeiras para algum dos lados. Essa suposta isenção contribui para a narrativa, o que evita as prováveis pieguices de uma história muito centrada em uma única personagem.

Não há nada apelativo, nenhuma cena, nenhum acompanhamento musical. Nossa adesão a rainha é mais racional do que emotiva, sentimos certa empatia para com essa dama que lastima o azar de não ter o direito ao voto.

A única ressalva fica para aquela cena em que Tony Blair dá um chilique danado ao ouvir uma crítica à rainha, gordurinha totalmente desnecessária.

Filme de boas interpretações, filme de boa direção, bem incrustado na filmografia clássica. Não inova, mas convence.

Cotação: Bom

O Virgem de 40 anos


O Virgem de 40 anos (The 40-Year-Old Virgin), 2005. EUA. De Judd Apatow

Se eu fosse católico, mais cedo ou mais tarde teria que confessar (pois para eles, esse é um sacramento importante).

Imagino a cena.

- Pequei padre.

- Por que meu filho?

- Assisti ao filme O virgem de 40 anos.

- E daí?

- Senti vontade de matar!

- Por quê?

- Quem fez aquele filme não merece viver.

- O filme é tão ruim assim meu filho?

- É sim padre. Sabe aquela história de “loser or winner”, defesa da monogamia, culpabilização do onanismo e pornografia? Pois é, o filme é sobre tudo isso.

- Então o filme não é tão ruim assim! Pois nós acreditamos nisso!!

- Padre, o cara tem quarenta anos, nunca fez sexo, tem um quarto cheio de brinquedos, é infeliz e anti-social. Um dia seus amigos descobrem seu “segredinho” e tentam ajudá-lo a ter uma primeira transa (desculpe o palavreado padre). O cara se apaixona e cresce, isso significa: livrar dos seus brinquedos, ser promovido no trabalho e desenvolver relação estável com uma única mulher.

- Aonde você quer chegar meu filho?

- Bem padre, o sexo nessa concepção é prisão e não libertação. Amar significa seguir o American Way of Life. Isso sem falar da forma negativa como as mulheres são apresentadas.

- Mas meu filho, esse filme é extremamente conservador, exatamente o discurso que prezamos. Tem tudo a ver com nossa cabeça retrógrada.

- Padre, ele só faz sexo depois de construir uma relação estável, isso aos 40 anos!

- Deus o abençoe por isso. É bom ver que o cinema americano ainda se preocupa com os bons costumes!

É por isso que não sou católico, para não sentir culpa por desejar uma morte dolorosa para todos aqueles envolvidos com essa obra prima do pseudo-puritanismo americano.

Amém!

Cotação: Péssimo

domingo, 9 de março de 2008

Sicko SOS Saúde


Sicko – S0S Saúde (Sicko), 2007. De Michael Moore

Protozoários.

Queria ver Michael Moore fazer um filme sobre protozoários. Já não há como fechar os olhos para suas limitações técnicas e artísticas. Ele insiste sempre nos mesmos argumentos, não conseguir ir além de uma crítica muito rasteira à administração Bush e seus percussores republicanos.

Sua nova abordagem se refere à corrupção e falência dos planos de saúde norte-americanos, como também à ausência de um sistema médico público. Nos Estados Unidos somente aqueles que detêm recursos financeiros podem ter acesso aos hospitais. No país sede do capitalismo o direito à vida também é uma mercadoria. As revelações de Moore são capazes de impactar até os brasileiros insatisfeitos com os sistemas públicos ou privados.

Arrisco dizer que nossos problemas na área médica nem de perto se comparam à situação caótica e lastimável vivenciada pelos Estados Unidos. Vemos, na prática, que iniciativa privada e baixa intervenção do governo trazem um resultado bem diferente daquele prometido pelo discurso dito neoliberal. Curiosidade à parte é observarmos a tal conhecida estupidez do americano médio, aprendendo, desde pequeno, a acreditar que sistema de saúde público é uma prática socialista.

Certo elogio deve ser feito ao filme de Moore, seu interesse em desvelar as mazelas do país e questionar a suposta liderança americana – que ao julgar pelas revelações do filme se restringem ao campo bélico. No entanto, as ferramentas com as quais o cineasta trabalha são limitadas, seus recursos são melodramáticos, apelativos, sensacionalistas. Sua câmera é impertinente e deselegante, não há privacidade a ser respeitada, prevalece certo sadismo na coleta dos sofrimentos individuais, que supostamente se justificariam em proveito de uma causa pública.

A própria estrutura do filme é desinteressante, restringe-se a comparar os Estados Unidos com o Canadá, a Inglaterra e a França, em um modo de argumentação que não respeita as diferenças e seleciona arbitraria (e inescrupulosamente) os aspectos que lhe interessa. Uma das suas atitudes é mostrar que o padrão de consumo dos médicos europeus é tão alto quanto o americano. Em certo momento ele pergunta a uma família francesa de classe média alta se ela é feliz. A resposta é mais ou menos a seguinte: “Tenho uma casa cara, um carro caro, recursos e uma esposa branca, como não seria feliz?”. Em momento algum a sociedade de consumo é posta em xeque, erro fatal na argumentação.

O momento mais constrangedor é quando Moore tenta conduzir bombeiros e voluntários que adoeceram durante os trabalhos de resgate do 11 de setembro à prisão de Guantánamo. A argumentação do cineasta é que os prisioneiros (leia-se perigosos terroristas...) estavam recebendo tratamento médico melhor que o oferecido aos “heróis americanos”. Ele chega a essa conclusão ao ouvir vídeos dos altos militares afirmando a qualidade das instalações do presídio. Aqui, Moore se aproxima em excesso do stupid white man que ele tanto critica. Será que ele não percebeu o caráter propagandístico daquelas declarações? Ou ele simplesmente desconhece as barbaridades que ocorrem naquela prisão?

Alguém deveria ter avisado a Michael Moore que seria contraproducente um centro de tortura não ter uma instalação médica adequada. Em certo momento ele diz que sua intenção era que os heróis do 11 de setembro recebessem o mesmo tratamento aplicado aos detentos. Pobre americano ingênuo!

Nem a seqüência seguinte consegue minimizar o mal estar causado por essa falha insuperável. Ao não obter resultados em Guantánamo, Moore conduz seus acompanhantes até a ilha infernal, no intuito de mostrar a superioridade do sistema médico cubano. Divertido, capaz de agradar os anti-americanistas de plantão.

Tapa na cara. Do Bush.

Remédios que custam mais de cem dólares na terra da livre iniciativa podem ser adquiridos por centavos em qualquer farmácia de Havana. Uma das doentes que acompanham Moore não resiste a essa informação e cai em prantos – compreensível, tal discrepância é demais para qualquer ser humano. É ela quem diz a melhor frase do filme, sintetizando muito bem a argumentação da exposição:

Vou levar uma maleta cheia para casa”.

Contudo, a armação de Michael Moore novamente vem à tona. Ele organiza (é claro que foi ele!) uma confraternização com os bombeiros cubanos, na qual fica evidente o artificialismo da situação. Os soldados, em uma formação muito descuidada, com uma expressão de total desentendimento. Constrangimento visível dos bombeiros americanos em cumprimentar os cubanos. Afinal, tudo bem que receberam tratamento gratuito, mas um inimigo ainda é um inimigo.

Não importa. O que vale é provar que George W. Bush e os republicanos são incompetentes. Mas o filme poderia ser muito mais; um desconcertante questionamento sobre os embates entre Estado de Direito e corporações transnacionais.

Michael Moore contempla o busto de Marx, mas não está pronto para um dialogo. Afinal, um liberal radical ainda é um liberal. É possível que esse polemista se torne um grande documentarista. Mas enquanto isso seria aconselhável abordar temas menos polarizadores. Protozoários, minha sugestão são os protozoários.

Cotação: Fraco

As Branquelas


As Branquelas (White Chicks), 2004. EUA. De Keenan Ivory Wayans

Dois policiais negros se disfarçam em garotas brancas, as típicas “patricinhas”, pertencentes às classes mais abastadas. Objetivo: prender os vilões, os criminosos, os infratores e por aí vai...

Comédia, excelente comédia. Não há nada mais engraçado do que ver um negro fingindo ser um(a) branco(a). Comédia, excelente comédia.

Eu não ri, pois estava mais preocupado em entender a segregação étnica americana. É motivo de piada ver um negro se fingindo de branco.

O momento em que os dois agentes, disfarçados de garotas, dançam “hip hop” na boate é imperdível. Brancas dançando música de negro, pura chacota.

Ri demais.

Também temos outro personagem negro, o atleta típico: musculoso, machista e sem cérebro – cujo objetivo de vida são os afairs (adoro meus eufemismo) com as mulheres brancas. Muito engraçado, morri de rir. Comédia da boa.

A quantidade de filmes norte-americanos sobre troca de identidades, seja envolvendo gênero ou etnia, é bem sugestiva. Dentro de uma vida consumista, o novo é tudo, a experimentação é a diretriz principal, almejam-se novas identidades, a quantidade de cirurgias plástica que o diga. Em um filme, é o jovem que vira velho, em outro é o homem que vira mulher, ainda temos o caso em que se transforma em um animal, isso sem lembrar as trocas de posições sociais (de mendigo a presidente).

No presente caso, somos agraciados com duas mudanças, de homem para mulher, de negro para branco. Não vou discutir o racismo americano, pois já virou clichê. Michael Jackson surge como o símbolo máximo dessa era; a referência ao seu nome já resume a discussão por si só.

Como comédia o filme não se realiza, mas sugiro outra categoria ... trash.

Cotação: Péssimo

sábado, 8 de março de 2008

O Orfanato


O Orfanato (El Orfanato), 2007. México/Espanha. De Juan Antonio Bayona

Um, dois, três, toca na parede.

Alguns imaginários são persistentes e eficientes. Recentemente, em vistia por uma cidade, tive a oportunidade de visitar um antigo casarão sobre o qual circulam algumas lendas acerca de sua propriedade mal-assombrada. Aparentemente era uma construção comum, genuíno exemplar da arquitetura de fazenda do setecentismo mineiro.

Tratava-se de um sobrado de dois andares, construído em pau-a-pique, com assoalho em tábuas largas e algumas divisórias de madeiras, também possuindo vários cômodos, alcovas, porões e despensas. Supostamente, uma família inteira adoeceu de bexiga e pereceu, sendo sepultados em uma das alas do porão. O proprietário, meio bobamente, me relatou as estranhas ocorrências que ele pode observar quando morava no local, como os vários barulhos que ele escutava durante a noite.

Em uma casa de madeira de quase trezentos anos escutar barulhos é mais do que normal, aliás, sobrenatural seria não ouvir a madeira dilatar... Enfim, todo modo, esse casarão tem um bom potencial para nos assustar e nos fazer esperar o confronto com o sobrenatural. Imaginem: um pequeno ruído no porão às três da manhã. Vale a pena descer as escadas? Abrir as portas? Ir conferir o que te espreita na escuridão? O que te motivaria a procurar o desconhecido?

Certamente a representação cinematográfica da casa mal-assombrada se assenta em elementos do imaginário popular. A noção de que alguns espaços contenham conexões com o além é uma recorrência antiga, acionada em diversas ocasiões. O caso do cemitério parece ser o exemplo mais característico: espaço dos vivos para o descanso dos mortos. Curiosamente, é pouco comum que os filmes de terror se ambiente nessas paragens.

A princípio, o cemitério seria local de harmonia e equilíbrio, onde os dois mundos se respeitam. Situação contrária é a de uma casa antiga, na qual há rastros fantasmagóricos que insistem em perambular pelos lugares em que habitavam quando vivos.

Os filmes sobre casas mal-assombradas têm recursos limitados para nos surpreender – somos capazes de antecipar os principais desdobramentos. E é esse aspecto que eu destaco em O Orfanato, trabalho bem feito que consegue nos conduzir a momentos de suspense, mas que, apesar da inteligência do seu desenvolvimento, tem um roteiro incapaz de extrapolar certas convenções do gênero.

Laura, seu esposo e o filho adotivo Simon se mudaram para a casa na qual ela vivera no passado, quando então abrigava um orfanato. Sua intenção é poder cuidar do seu filho que tem uma grave doença. No entanto, o garoto alega estar em companhia de outras crianças. A princípio, Laura não levará a sério essas brincadeiras, até se convencer de que realmente há uma força sobrenatural tentando afastá-lo do filho.

Se os casarões mal-assombrados são elementos recorrentes nas narrativas fantásticas as odisséias das mães que não medem esforços para proteger ou salvar seus filhos também é outro tema constantemente abordado. Convicções de que as mulheres seriam capazes de atravessar o reino dos mortos para salvar seus rebentos. Trata-se de uma atualização do mito do amor materno, de que as mães, por natureza, são protetoras.

Os pais aparecem como o elemento racional, aqueles que se restringem ao campo da lógica e da virilidade para salvar seus filhos. Do amor paterno, espera-se o empunhar das armas e a defesa ao lar, mas o contato como o outro mundo (inconstante e imprevisível) ainda é tarefa feminina. Seriam atualizações do machismo oitocentista?

Há várias sub-tramas no filme que impedem que o expectador desvende o desfecho da história. A criança desaparecida teria sido seqüestrada por uma antiga funcionária? Ou raptada pelos fantasmas do orfanato? Aliás, esses seres existiriam ou seria apenas a imaginação de algumas mulheres histéricas? É de se questionar as causas pelas quais as assombrações sempre preferem aparecer para mulheres e crianças. Seriam incapazes de confrontar a masculinidade e cientificidade dos homens?

Talvez. Mas em O Orfanato, quando o horror já transparece em sua totalidade, Carlos, marido de Laura, prefere negar o ocorrido e opta por abandonar a residência. O que transparece em sua fisionomia é o medo do desconhecido e o rancor por sua esposa, que insiste em buscar o intangível. Aliás, sua expressão nos antecipa qual será o destino de Laura, algo pelo qual, no meio da narrativa, eu já esperava.

De fato, se a resposta ao enigma é surpreendente (e extremamente cruel), o desfecho do filme (ao menos para mim) não surpreende. Final típico para o gênero que se o leitor pensar em outros exemplares já vistos, há de saber a resposta.

Entretanto, o dado mais curioso é que o enredo só involuntariamente se tornar uma história de terror. Isso é dito na primeira cena, quando vemos o orfanato na época de Laura, a fotografia iluminada, a paisagem bucólica e a alegria das crianças dizem inequivocamente que aquele espaço é o recanto dos pequenos, lugar seguro e nada ameaçador.

Embora o garoto Simon, desde o começo, já tivesse uma relação “natural” com o outro mundo, em momento algum ele se encontrava em perigo. A projeção trilha o curso do terror somente em função dos equívocos cometidos e das falhas humanas. Não há como associar o orfanato ao espaço maligno e hostil, pelo contrário, ao final ele pode ser visto como o paraíso perdido. Território benigno e de complacente repetição.

Um, dois, três, toca na parede.

Cotação: Regular

sábado, 1 de março de 2008

Jogos de Poder

Jogos de Poder (Charlie Wilson’s War), 2007. EUA. De Mike Nichols

A possibilidade de um desfecho desfavorável no Iraque tem preocupado largos setores da sociedade americana, da população leiga aos políticos, dos militares nacionalistas a intelectualidade esclarecida.

Nos últimos tempos, várias produções hollywoodianas têm abordado esse tema, com maior ou menor habilidade. Mike Nichols é um cineasta crescido e, supõe-se, ele sabe o que está fazendo. Ora, que Nichols siga a corrente política que bem entender, mas em sua idade a ingenuidade é algo que não cai bem.

Em Jogos de Poder (tradução idiota) temos um genuíno exemplar da direita americana. A projeção nos surpreende desde o começo, quando o nome de Charles Wilson aparece pintado nas cores azul e vermelha, projetado, em seguida, sobre uma bandeira americana.

Como narrativa conservadora, o filme possui uma visão teleológica e facistóide da história. No decorrer de uns 90 minutos somos convencidos do argumento de que aos Estados Unidos cabe o direito de ditar o curso do mundo. Em começos dos anos oitenta a União Soviética invadiu o Afeganistão, iniciava-se um conflito de forças desigual, no qual a população do país invadido tentava, de forma desesperada, resistir ao avanço do exército vermelho

Em Houston, uma socialite, com dons de profetiza, enxergou que essa era a possibilidade da democracia americana derrotar o império comunista. Ela sugere ao congressista Charlie Wilson que intensifique o auxílio bélico ao Afeganistão, com intuito de superaquecer os gastos soviéticos, levando-os a bancarrota. Concepção voluntarista da história, na qual duas pessoas puderam decidir os acontecimentos mais marcantes do último quartel do século XX.

Em última análise, o que se prescreve é que o império soviético estava pré-determinado à falência, o que revela um desconhecimento da dinâmica interna dessa potência. A experiência socialista foi encerrada unicamente porque um congressista, apreciador de bebidas, cocaína e mulheres (até que ele é um cara legal), concluiu que caberia ao governo americano a missão de salvar os afegãos.

Sim, trata-se de uma salvação. Pois o cruel Império Soviético invadiu o Afeganistão. Pois o cruel Império Soviético entrou em uma guerra desigual, usando modernas tecnologias contra rifles ultrapassados. Pois o cruel Império Soviético atirou contra a população civil, destruiu suas casas e torturou pessoas indefesas, aleijando mulheres e crianças. Como o exército soviético é cruel. A democracia americana jamais cometeria tais deslizes.

As cenas do exército vermelho são caricatas, resquícios da propaganda da Guerra Fria. Em um momento, a câmera mostra a perspectiva das armas dos helicópteros russos que atiram contra os civis, a música de fundo é um hino soviético. Em outra cena, antes de partir para o combate, antipáticos soldados riem cinicamente da desgraça dos afegãos, demonstrando total insensibilidade.

Essa denúncia, feita justamente pelo país que inventou o conceito de guerra cirúrgica, só pode ser um sarcasmo pré-meditado.

A mensagem do filme é clara. Ela diz: “Armamos os fundamentalistas, pois eles foram necessários para combater o exército vermelho. Naquele momento essa ação contribuiu com a democracia, infelizmente perdemos o controle sobre esses grupos”.

O que não deixa de ser uma verdade, mas, chamar a realpolitik contemporânea de luta pela liberdade universal já é ume exagero. Aliás, em outra cena, surge novo vidente para alertar que, em um futuro próximo, aqueles mulçumanos gritando o nome de Deus seriam um problema para a América.

Teleologia: o islamismo estaria pré-determinado a se voltar contra o “Ocidente”. A América não teria participação nenhuma nesse processo, esqueça-se a proteção a Israel, suas pretensões geopolíticas e a insaciável sede de petróleo.

Alguns momentos da narrativa deslizam para a pieguice explícita, quando Charlie Wilson visita o campo de refugiados no Paquistão, comovendo-se com a miséria local. Cabe questionar a possível reação desse humanitário político perante a destruição que sua democracia promoveu no Vietnã.

Em suma, o que Jogos de Poder esclarece é a legitimidade da espionagem, o direito dos Estados Unidos interferir de forma direta ou não na vida de outros países. Desde que estejam no sentido contrário do bem comum, que só por acaso coincide com seus interesses particulares.

Em um dos piores momentos do filme, Charlie Wilson confessa para sua assistente puxa-saco seu amor pela América. Os olhos da garota (bem bonitinha por sinal) lacrimejam e ela transparece toda a admiração pelo seu chefe. Alguém menos acrítico diria:

“Então você se apaixonou pela América em função da possibilidade de se manipular os negros nas eleições em proveito de suas pretensões particulares?”

Charlie Wilson, com seu maneirismo típico diria: “Sir, Woman”.

Vindo de um apreciador de álcool, cocaína e strippers, há mesmo certa coerência. Como eu havia dito, Charlie Wilson é um cara legal.

Pelo menos para a Era Reagan.

Cotação: Bom

Pefume

Perfume – a história de um assassino (Perfume: The Story of a Murderer), 2006. Alemanha/Espanha/França. De Tom Tykwer.

O filme se passa na primeira metade do século XVIII, por isso há vários anacronismos que são intoleráveis. Alguns personagens agem como se estivessem em um momento pós-freudiano, ao tentar “entrar na mente do assassino”. Há vários termos que simplesmente inexistiriam naquele momento, a própria noção de perversão sexual, que uma personagem insinua em um dado momento, é incompatível com aquele período.

No século XVIII não havia legistas para certificar se as vítimas foram estupradas. Pelo amor de Deus! Autópsias e dissecações ainda eram um tabu... que dirá a medicina legal.

Porém é verdade que qualquer filme que não seja ambientado no presente ou num passado próximo será em certa medida anacrônico. Aliás, o cinema não tem que ter nenhum compromisso com a verossimilhança histórica, a MENOS que essa desobrigação se torne um problema para o roteiro ou a direção.

É o que ocorre em Perfume, na segunda metade da projeção a trama se desmorona completamente. É um filme de serial killer, e pronto... aquela sugestão sexual típica, aquele jogo de gato e rato, aquela identificação com o assassino, aquela ambigüidade moral muito artificial. A única diferença é que é no século XVIII.

A primeira metade do filme é indiscutivelmente superior. Vemos como o nascimento e o crescimento do jovem Jean-Baptiste Grenouille, um órfão que possui um sentido de olfato muito apurado. Sua intenção é conhecer os aromas e depois conseguir perenizá-los através de técnicas de perfumaria. É interessante observarmos como o mundo se revela diferente para o personagem, pois ao contrário da maioria dos seres humanos não é a visão seu sentido prioritário.

Ele é um maldito, sua presença nunca é bem quista e seu afastamento sempre deixa seqüelas desagradáveis. O jovem Genouille é uma anomalia entre os homens... mas isso não o traz infelicidade, pois o que ele procura é exatamente o singular, o etéreo. A temática do filme é interessante, até a narrativa centrar-se no enfoque dos assassinatos cometido pelo jovem perfumista.

É uma pena que as atitudes de alguns personagens não sejam coerentes com a França setecentista, pois os cenários foram muito bem produzidos. A precariedade das remanescentes construções medievais, em um momento de explosão urbana, é convincente. Há uma cena em que a câmera focaliza os barcos com os pescadores e, em seguida, faz um movimento vertical para cima, mostrando as pontes repletas de habitações. Esse apuro revela uma direção de arte bem entendida com a proposta do filme, causar um estranhamento no expectador.

Os figurinos também estão satisfatórios, drapeados usados pelos pobres sendo contrapostos às roupas ajustadas especialmente para os nobres. Uma maneira sutil e eficiente de mostrar as diferenças sociais no século XVIII.

Perfume é um filme com acertos e muito mais desacertos. Embora com discussões interessantes, sua pretensa complexidade acaba desmascarada pela insistência em se tornar um trilher de assassinos... uma história de bandido e mocinho...

Vamos ser justos, o filme tem seus bons momentos, ele não chega a cair, mas que dá uma escorregada, vexatória e irrecuperável, isso dá!

Cotação: fraco

Patton

Patton – rebelde ou herói? (Patton), 1970. EUA. De Franklin James Schaffner.

África, Segunda Guerra Mundial.

A cena é desoladora. As marcas de um combate recém travado são evidentes. Os veículos estão destruídos, há restos de incêndios, crateras causadas pelas explosões, armas espalhadas e retorcidas. Porém, o mais angustiante são os corpos, alguns estão semi-cabronizados, outros, deitados em suas próprias poças de sangues, em alguns faltam membros. Oficiais e soldados jazem junto ao chão. Não há mais vida.

General Patton (George Scott), ao se deparar com essas imagens, com os restos de seus próprios homens, respira fundo e, com muita convicção, afirma que ele ama aquele cenário, que ele nasceu para vivenciar aquela experiência.

Sim. Patton é um homem antigo, é um guerreiro nato. Ele ama a guerra assim como os demais amam a paz. Ele não se encaixa naquele paradigma do militar patriota que luta pelo seu país. Sem dúvida ele combate pela bandeira dos Estados Unidos, mas, acima de sua nação, está sua honra de guerreiro, sua vontade de glórias. Patton é o Aquiles do século XX.

Como a narrativa do filme faz questão de evidenciar, ele é anacrônico, quer manter a ética de guerreiro em meio a uma era tecnológica. Como comandante ele é assustador, inflige ânimo aos soldados e oficiais, mas é intransigente com as titubeações. No hospital, expulsa um soldado com neurose de guerra, pois para ele isso era apenas covardia. Porém, Patton se comove ao ver seus soldados que tombaram em combate, trata os sobreviventes de forma paternal.

Para mostrar-se superior ao general alemão Romel, seu inimigo, e também ao general inglês Montgomery, seu aliado, põe em risco todo o seu exército. Ele não se incomoda em enviar seus homens em direção ao ataque frontal, mesmo sabendo que não voltarão vivos.

Patton é militarista e militaresco. Ele preza a pompa militar, as homenagens que recebe, as medalhas, as glórias. Ele é vontade de potência, quer mostrar ao mundo seu instinto.

É aí que reside o elemento trágico, que novamente o aproxima dos heróis clássicos. A falta de discernimento político do general é a responsável pelas imprudências que ele diz ao público. Coisas que embaraçam os políticos (como o pouco caso que ele faz da Rússia), ao escancarar o que deveria permanecer velado. Por isso, Patton sempre ficou de fora dos maiores combates, pois os políticos e diplomatas o julgam perigoso demais para as delicadas relações entre os países aliados.

O maior combatente é sempre deixado de fora dos maiores combates. De longe, general Patton contempla o lugar onde gostaria de estar. Ele se esforça, em vão, para ser posto na linha de frente. Quer está em um lugar no qual muitos gostariam de fugir.

Um bom guerreiro, mas um péssimo homem. Como nas tragédias gregas, ele se sente de mãos atadas para cumprir uma tarefa a que se julga predestinado. Sua sina é sabotar a si próprio e se impedir de cumprir a grandiosa missão que os deuses o atribuíram: conduzir homens para a guerra, guiar os soldados a um local onde deverão matar e serem mortos.

Cotação: Ótimo

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Editorial - Contra a Pirataria

Contra a pirataria ou A família de Seu Chico

São uma família. Pai, mãe, irmão e irmã. A mãe é dona de casa, o pai recebe uns 500 reais por mês e as crianças não trabalham.

Final de semana. Todos querem ver um filme. Para chegar ao cinema, localizado em uma área central, essa família despenderá mais de 10 reais em transporte público (idêntico valor será gasto na volta). Em um Shopping (aonde mais iriam?), 28 reais será gasto na entrada dos adultos e 14 nas meio-entradas dos pequenos. Registre-se os dez reais costumeiros da pipoca e refrigerante.

Vamos por os cálculos no papel: 20 + 28 + 14 + 10 = 62 reais. O que equivale a 12% do salário do Seu Chico. Se quiserem ir ao cinema 2 vezes por mês, será 24% da renda familiar comprometida.

Ou seja, nunca vão ao cinema, o que, em tese, significaria que eles nunca teriam acesso aos filmes. Como Seu Chico (um cônscio chefe de família) faz para garantir a sétima arte aos queridos entes?

Ao sair do serviço, ele passa no camelô e compra um dvd pirata por 5 reais (ou 3 por 10), passa na padaria e compra 2 litros de refrigerante por 2 reais e, por 1 real, compra o saco de milho de pipoca.

De modo que seus gastos são os seguintes: 5 + 2 + 1 = 8 reais. O que representa cerca de 1,6% do seu salário.

A pergunta que deve ser feita é como Seu Chico tem coragem de comprar um dvd pirata? Agindo desta forma ele prejudica a dinamicidade da economia, colocando em perigo a estabilidade de toda uma rede macroeconômica. Com esse pensamento egoísta e mesquinho, ele poderá infringir um prejuízo ao cinema, por conseguinte às distribuidoras. Se todos comprassem dvds piratas, seria a própria indústria cinematográfica que entraria em colapso (como George Lucas fez questão de afirmar recentemente).

Qual é o problema com Seu Chico? Por que ele se recusa a gastar os 62 reais? Por que essa insistência em lucrar em demasia?

Nesse sentido eu só posso congratular as campanhas contra a pirataria que têm cumprido uma importante ação de esclarecimento do público. Destaque para aquele informe que nos conscientiza de que o dinheiro que circula no tráfico e terrorismo é o mesmo que roda na pirataria dos dvds.

De fato isso era algo que eu não sabia. Não podemos permitir que o dinheiro do seu Chico caia nas mãos de criminosos, ele deveria ser canalizado para empreendimentos idôneos. Ao exemplo do Shopping Cidade de Belo Horizonte, cuja amostragem de visão empresarial é colocar roletas nas portas do banheiro e cobrar 30 centavos por sua passagem.

Enquanto as autoridades públicas não tomarem as devidas ações, mais famílias como a de Seu Chico continuarão a abandonar as salas de cinema, em proveito das salas de sua própria residência. Tirando o fato de que nessas últimas o banheiro é de graça, não podemos acrescentar nenhuma outra vantagem.

Eu sou totalmente contra a pirataria. Esses piratas lucram, lucram, lucram e mais lucram. Eles pegam o cinema e o transforma em um mero produto (uai... e não é?).

Isso tem que parar, tem que parar agora. Se a pirataria de dvds for completamente erradicada (tal como o tráfico de drogas será um dia) as salas de cinema voltarão a ficar cheias.

Pelo fim dos piratas e pela hegemonia dos corsários. Qual a diferença? A diferença é que, esses últimos, supostamente, estão na legalidade.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Os Pássaros

Os Pássaros (The Bird), 1963. EUA. De Alfred Hitchcock

Desculpem-me a obviedade, mas faz algum tempo que não escrevo nesse blog e opto por recomeçar por um caminho mais fácil, isto é, por um excelente filme.

Essa semana, enquanto eu pedalava pelas paragens betinenses (usufruindo da nossa subestimada ciclovia) fui atacado por um pássaro. Ao bem da verdade, não foi um ataque, está mais para um encontrão. De qualquer forma havia um bando de aves sobrevoando e uma delas resvalou no meu capacete, quase me derrubando.

No entanto, a nuvem de pássaros, o céu nublado e o barulho do córrego me remeteram a essa obra prima de Hitchcock. Voltei para casa, assisti ao filme e decido por escrever uma ou duas palavras sobre essa produção.

Trata-se de um filme perfeito, no qual cada componente da produção cinematográfica se encaixa, revelando a diferença entre um cineasta qualquer e um grande diretor.

Como já sugeriu Antonio Moniz Vianna, o filme se inicia como uma comédia – romântica, eu acrescentaria – pois a infantil e impetuosa Melaine Daniels decide viajar 90 km para descontar uma peça da qual foi vítima, executada por Mitch Brenner, um advogado de São Francisco.

Ela chega a uma pequena cidade, chamada de Bodega Bay, uma vila marítima que provavelmente subsiste por intermédio da pesca. Inicialmente, somos apresentados a um triângulo amoroso e a uma sogra ciumenta, configurando uma situação inicial que por si só já daria um filme (mesmo que desinteressante).

Entretanto, a graciosa Melaine Daniels decidiu visitar o vilarejo no pior final de semana possível. Não há como negar que tudo parece corriqueiro, o comércio local funciona, os barcos estão no mar, e o céu se encontra em seu habitual tom cinza, revelando a beleza das cidades que dão vistas para o pacífico.

No entanto, os pássaros estão inquietos, gerando uma série de incidentes isolados, que não despertam maiores preocupações. Mas tal qual nos filmes de George Romero, o terror gradualmente ganha forma e, em pouco tempo, todo o povoado presenciará a rebelião dos pássaros, muito mais destrutiva e terrificante do que os incautos poderiam pensar.

Além do excelente do roteiro, marcado pelas suas já famosas sutilezas – seria redundante lembrar a cena em que Melaine presencia uma ave pousar atrás de si, em um brinquedo da escola? – o que mais vem à tona nesse filme é sua exatidão.

A começar pelo céu e cidade, destoando dos cenários de estúdios também utilizados nessa produção. Bodega Bay parece ter vida e seus moradores possuem os traços típicos dos interioranos: tudo é pequeno e todos conhecem todos. Destaque também para o acompanhamento musical, inexistindo música, mas só o barulho agourento das aves.

Tippi Hedren (Melaine) tem uma feição que serve ao desenvolvimento da narrativa – sua maquiagem e penteado são belíssimos (bem anos sessenta) e diferem dos rostos simples dos habitantes locais. Seu traje saiu da mente criativa de Edith Head, peça interessante: um vestido para o dia, mas facilmente adaptado para um evento noturno. Entretanto, o crítico Antonio Muniz parece não ter apreciado o trabalho da atriz ao dizer que ela seria “... ostensivamente estreante e gracekelliana por procuração discutível...”.

Tal afirmação que é discutível, pois Hedren protagoniza a personagem com a qual mais nos identificamos. Sua indisposição à inconseqüência a arrastou ao centro da insurgência dos passarídeos e devemos torcer para que ela retorne a São Francisco. Além disso, a maneira como a jovem facilmente se irrita, se infantiliza e assume a posição de mulher séria (tudo conforme a situação) dão o tom da história, oscilando entre a aparente comédia e o terror decidido.

A genialidade do filme também se sobressalta em seu desfecho, substituindo um término tradicional pela interrupção da narrativa no momento de maior suspense. Não dá nem para dizer se o final é otimista ou pessimista, mas somente que o clima de terror tenderia a aumentar.

Enfim, Os Pássaros é um genuíno exemplar hitchcockiano, criando ótima composição a partir de um tema aparentemente banal. Ninguém vê as aves como animais perigosos ou as consideram capazes de uma insurreição, mas, se você estiver distraído, elas bem que podem derrubá-lo de uma bicicleta. No entanto, isso já não é matéria para uma análise fílmica.

Observação: o livro de Antonio Moniz Vianna Citado é “Um filme por dia”, publicado pela Companhia das Letras.

P.S: e o blog continua...

Cotação: Ótimo

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Eu sou a lenda

Eu sou a lenda (I’m the legend), 2007. EUA. De Francis Lawrence

Novo complexo de cinema do Shopping Cidade. Uma longa escada me conduz até o salão principal. É tão íngreme que, por um instante, suponho estar me dirigindo ao céu. É... só se for o céu do consumismo.

A bomboniére lotada, sacos gigantes de pipocas, por todo o canto filas, não sei de onde vem e nem para onde vão. Patrícias, casaizinhos e meninões, sexta feira, Shopping Center: esse é o público alvo. Nova atualização do Panis et Circenses, mas desta vez nada é de graça, cobra-se.

Entro na sala de projeção: admirável mundo novo, tudo colossal, inclusive a imbecilidade do público. Ao meu lado um casal discute se a pronúncia correta é “áxixe” ou “ráxixe”. Eu, por minha vez, penso se o correto seria “árakiri” ou “rárakiri”...

Trailer: Batman: o Cavaleiro das Trevas – os rapazes já esfregam as mãos, ansiosos por essa nova dose de testosterona. As luzes se apagam e como diria Quantin Tarantino: agora nossa atração principal.

Aparentemente não há mais seres vivos na terra, Robert Neville (Will Smith) pode andar despreocupado. Mas ainda sim, ele insiste em correr pelas ruas em um carro veloz, tentando abater um antílope. Todos os supermercados de Nova York a sua disposição e ele teima em queimar pneu para perseguir um animal. No filme ele é o cara mais inteligente: o CIENTISTA.

A narrativa começa tropegamente, mas ganha densidade e ritmo, principalmente quando percebemos a sua habilidade em calcular os riscos e seu envolvimento com os prováveis perigos. Lá fora zumbis mutantes, famintos, que só saem a luz do luar: mistura de sangue-suga com mortos-vivos – premissa interessante... só faltou um licantropo para avacalhar de vez...

Eu sou fã do gênero, mas os filmes de zumbis já deram o que tinha de dar... Extermínio 2 (que é produção inglesa) marcou o limite, passou da hora de explorar outro filão.

Eu sou a lenda se baseia em uma série de clichês, Neville viu sua família morrer – ela amava sua mulher e filha... desde então ele se purga, na procura da cura pelo vírus. Ele se tornou cético e amargo, além de que depois de três anos isolado, uma certa tendência anti-social é inevitável.

Mas eis que surge uma coadjuvante, vinda de São Paulo, como ela conseguiu chegar a ilha de N.Y que estava com as pontes rompidas não é bem explicado (não vão me dizer que foi de navio...). De qualquer forma não há por que dá atenção para alguém que já entra em cena proselitando que “Deus tem um plano para todos nós” – vai ver que a moça era da Igreja Universal. Se Ele tem um plano para todos nós, queria saber por que ele me deixou entrar no cinema naquele dia.

Não que inexistam bons momentos no filme, o suspense é bem construído, a caracterização da cidade também é eficiente, além de pequenas nuances: será que o casal ao meu lado percebeu que havia um Van Gogh na casa de Neville?

Quanto ao desfecho nada falarei, só que é uma grande picaretagem, ao término eis que a bandeira americana novamente ressurge, povo tenaz e resistente, sempre encontrando novos meios de sobrevivência.

Na saída, mocinhas bem prendadas distribuem folhetos do Pitágoras com balas de açúcar. Publicidade direta, merchandising frontal, pois quem se submete ao enquadramento dos esquemões hollywoodianos também não estaria propenso ao achatamento intelectual dos pré-vestibulares?

Só posso responder por mim, chupei a bala e joguei fora o folheto.

Cotação: Regular